Um voo para a liberdade: um caso sobre a quarentena no interno de Minas – Gerais

[ad_1]
(foto: Lelis)
(foto: Lelis)

Saulo um nome inventado, neste texto para um varão real, morador do interno mineiro, pai de dois filhos, trabalhador autnomo, sempre com uma pasta na mo. Ele diz que feliz, mas desde a semana passada comeou a se sentir asfixiado, um n na goela estranho, muito mais apertado do que o da gravata que usava diariamente, antes de entrar em isolamento domiciliar.

A todo momento, se perguntava, zanzando de um lado para outro: "Quando vai terminar essa pandemia, essa pan-demncia, quando terei de novo as rdeas da minha vida?". O nervosismo foi se irradiando pelos quartos, pela sala e pelo quintal, chegando a extremos."Tenho que dar um término a isso. No posso mais viver nessa situao, deve possuir uma sada alm da porta."

Os pensamentos se tornaram cada vez mais escuros, sombrios, embaando a lucidez. Saulo puxou matéria com a mulher, confessou no suportar mais permanecer dentro de mansão, "engaiolado". Ela, companheira de mais de 20 anos, pediu calma. Era mais do que necessrio seguir a determinao das autoridades sanitrias, permanecer em morada o mximo possvel, s transpor em extrema premência. "E no se esquea da mscara na hora de ir ao supermercado, viu?"

A filha jovem concordou com a me, e falou, com suavidade, que o vendaval do novo coronavrus passaria. Mas Saulo teimava, queria de volta a liberdade. logo que pensava e pronto.

Tomou um caf, mordeu o po de queijo recm-sado do forno. Saiu para o quintal. Pegou o regador, aguou as samambaias, fez um cafun no cachorro, ouviu o esquina dos pssaros. "Que formosura! Que maravilha! Bom escutar esse som logo cedo."

Mas, de repente, porquê se estivesse na estrada de Damasco tal qual Saulo de Tarso, depois Paulo, o mineiro se sentiu iluminado. Foi tomado por asas da imaginao que batiam fortes s costas e por uma nitidez de ideias que abria a cabea. "Ser isso mesmo que devo fazer? Dar um término a esse sofrimento? Terminar com essa presso, perfurar as grades para o mundo?"

Rodou o quintal, colheu um ovo no ninho da penosa carij, olhou para o cu sem nuvens. Depois seguiu para o viveiro com seus 46 passarinhos, curiosamente um para cada ano da sua vida. Viveiro... viver... Estavam l o curi que foi do falecido pai, os canarinhos, o bicudo e outros da fauna brasileira comprados de forma clandestina. Cada pssaro contava um pouco da histria pessoal e familiar.

Sem pensar duas vezes, Saulo abriu a porta do viveiro e deixou que as aves sassem do seu cativeiro, do seu isolamento, dos anos de quarentena. Por um segundo, imaginou-se l dentro, num poleiro, privado do recta de voar, enclausurado.

De incio, algumas aves ficaram indecisas. Depois, voaram para o p de amora. Um canarinho precisou de ajuda. E Saulo o lanou com ternura em direo bananeira. Porquê mora distante do meio urbano, sem casas perto, ficou seguro quanto alimentao e gua para os pssaros.

Aos poucos, o varão percebeu que o n na goela desapertava. Ficou mais ligeiro, de um jeito que havia muito tempo desconhecia. Sorriu para a natureza e para o viveiro agora vazio. E disse baixinho: "Coitados desses passarinhos. Se eu estava me sentindo mal, imagino eles".

Respirou fundo na manh do dia em que completava 46 anos, tirou o cachorro da coleira, colocou a mscara cirrgica e saiu para dar uma volta rpida, s para espairecer. Viu ali que comeava um novo tempo, talvez at mais tranquilo, exclusivamente com uma pontinha de saudade.

Recado ao leitor: Quando ouvi essa histria, na voz do seu protagonista, pensei em fazer uma matria, mas ele ficou com receio por ter criado os pssaros de forma ilícito. No quer mais mexer com isso, s pensa mesmo em permanecer descansado na quarentena. Em mansão.


[ad_2]
Nascente Notícia -> :Fonte Notícia