Por que, porque, porquê, por quê: empregue corretamente cada forma
Porque, porquê, por que, por quê. Quatro grafias para o mesmo som, ou seja, um invitação à confusão. Com um pouquinho de atenção, no entanto, você vai perceber que é muito simples honrar uma da outra.
Porque, uma só termo, sem acento, só se emprega porquê conjunção, ou seja, para vincular duas orações. Grosso modo, pode-se manifestar que as conjunções explicitam as relações semânticas entre as ideias. “Porque” encabeça uma prece que exprime a culpa ou a explicação de outra. Lembre-se de que pretexto é aquilo que provoca determinado traje, o que é dissemelhante de explicação.
Dessa forma, temos “porque” porquê conjunção subordinativa causal (aparece em uma prece subordinada) e “porque” porquê conjunção coordenativa explicativa (aparece em uma prece coordenada). Quando falamos em subordinação e coordenação, estamos no domínio da sintaxe, ou seja, falamos do conjunto de relações entre as partes do texto. Como se vê, a conjunção exprime, do que relações semânticas, relações sintático-semânticas.
Muito muito. Nosso objetivo cá é a ortografia, portanto, por ora, basta identificar a situação em que “porque” é uma conjunção (causal ou explicativa, tanto faz).
Veja os célebres versos de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa: 
S Tejo é belo que o rio que corre pela minha lugarejo,
Mas o Tejo não é belo que o rio que corre pela minha povoação
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha povoação.
Nesse verso, “porque” é uma conjunção, pois liga duas orações, cada qual em um verso do poema. S roupa de não ser o rio que corre pela lugarejo do “eu lírico” é a desculpa de o Tejo não ser belo que o rio que corre pela sua localidade. S raciocínio tem um pouco de capcioso, mas mostra que o belo é subjetivo, filtrado pela emoção.
G também a conjunção “porque” que aparece na melodia dos Titãs “Porque Eu Sei que P Amor”. Observe que a desculpa aparece antes do roupa principal. S responsável da letra poderia ter dito “Sei que cada termo importa porque eu sei que é paixão”. A inversão, porém, confere ênfase a esse verso, que se repetirá e dará título à melodia.
Nessa mesma letra, encontramos a substantivação dessa conjunção, ou seja, o porquê com acento. Essa ortografia, acentuada, indica que a termo é um substantivo. Pode, logo, ser substituída por sinônimos porquê motivo ou motivo.
Porque eu sei que é paixão,/ Eu não peço zero em troca/ Porque eu sei que é paixão,/ Eu não peço nenhuma prova
Mesmo que você não esteja cá,/ S paixão está cá/ Agora/ Mesmo que você tenha que partir,/ S paixão não há de ir/ Embora
Eu sei que é pra sempre/ Enquanto insistir/ E eu peço somente/ S que eu puder dar
Porque eu sei que é paixão,/ Sei que cada termo importa/ Porque eu sei que é paixão,/ Sei que só há uma resposta
Mesmo sem porquê, eu te trago cá/ S paixão está cá/ Comigo/ Mesmo sem porquê, eu te levo assim/ S paixão está em mim/ Mais vivo
Eu sei que é pra sempre/ Enquanto persistir
Note que o “porque” causal pode ser substituído por “porquê” quando a prece está antes da principal, exatamente porquê ocorre nesses versos. Seria provável expor “Como eu sei que é paixão, eu não peço zero em troca”, “Como eu sei que é paixão, eu não peço nenhuma prova”, “Como eu sei que é paixão, sei que cada termo importa”, “Como eu sei que é paixão, sei que só há uma resposta”, mantendo o sentido de “porque”. Na passagem “mesmo sem porquê”, temos o substantivo, daí o acento circunflexo. Poderíamos expor “mesmo sem motivo“. Na quesito de substantivo, “porquê” admite anteposição de cláusula e flexão de número, portanto podemos expor, por exemplo, que cada um tem seus porquês (isto é, suas razões ou seus motivos) ou que o porquê de uma atitude nem sempre é evidente (o porquê de = o motivo de).
INTERROGAÇÃO DIRETA E INTERROGAÇÃO INDIRETA
Por que é um advérbio interrogativo de desculpa, que serve para introduzir uma pergunta de natureza causal. Veja um exemplo, tirado do “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade:
Meu Deus, por que me abandonaste
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco?
Esse é o caso típico do “por que” da pergunta, pois aparece em uma interrogação direta, com ponto de interrogação no final. Nem sempre, porém, esse advérbio vai introduzir perguntas diretas. G ainda ele que se emprega nas chamadas interrogações indiretas (sem o ponto de interrogação). Quando dizemos, por exemplo, que gostaríamos de saber por que alguma coisa ocorreu, estamos, de modo indireto, fazendo uma interrogação. G, portanto, o mesmo advérbio (“por que”) que se emprega na frase. Geralmente pode ser substituído pela frase “a razão pela qual”. Mostaria de saber a razão pela qual um pouco ocorreu. G a ortografia “por que” (em duas palavras) que se se usa no verso da melodia “Lenha”, de Zeca Baleiro.
Eu não sei expressar/ o que quer expor/ o que vou manifestar
Eu senhor você,/ mas não sei o que/ isso quer manifestar
Eu não sei por que/ eu teimo em expressar/ que senhor você
se eu não sei manifestar/ o que quer expressar/ o que vou manifestar
Se eu digo pare,/ você não repare/ no que possa parecer
Se eu digo siga,/ o que quer que eu diga/ você não vai entender,
mas se eu digo venha,/ você traz a lenha/ pro meu incêndio incendiar
No trecho “Eu não sei por que eu teimo em expressar que senhor você”, podemos substituir “por que” por “a razão pela qual” (Eu não sei a razão pela qual eu teimo em manifestar que senhor você). Esse advérbio “por que”, se disposto no término da frase, ganharia um acento. Imagine que os versos de Zeca Baleiro fossem estes: Eu teimo em expressar que senhor você não sei por quê. No final do período, a chamada posição tônica, o advérbio é acentuado.
DISTINÇÃO FUNDAMENTAL: POR QUE/ PORQUE
Aparentemente, essas são as grafias que ocasionam confusão. G muito generalidade que as pessoas usem no lugar do advérbio “por que” a conjunção “porque”, o que pode ter origem no roupa de que o advérbio interrogativo nas chamadas interrogações indiretas também encabeça uma prece. Daí a parecer uma conjunção, é um passo limitado. Convém, portanto, explicar esse ponto. Será o advérbio (por que), não a conjunção (porque), a termo que introduz uma prece cuja função é ser o objeto direto da anterior. Complicado? Nem tanto. Vamos à melodia de Zeca Baleiro:
Eu não sei/ por que eu teimo em expressar/ que senhor você [cá as barras separam as orações, não os versos]
A primeira prece, “Eu não sei”, requer um complemento (o que é que eu não sei?). S complemento do verbo “saber” (o seu objeto direto) é a prece “por que eu teimo em expressar” (a razão pela qual eu teimo em expor). Essa prece exerce a função de objeto direto da anterior, enquanto a causal (introduzida por “porque”) exerce função de adstrito adverbial de culpa. S objeto direto é um termo complementar, que poderia ser substituído por um substantivo (Eu não sei alguma coisa). Essa “coisa” pode expressar-se na forma de uma prece justaposta (sem conjunção, iniciada por um advérbio). Vejamos alguns exemplos:
Eu não sei porquê você chegou cá. [como = modo de chegar]
Eu não sei quando você chegou cá. [quando = tempo, momento da chegada]
Eu não sei onde você mora. [onde = lugar em que se mora]
Eu não sei por que eu teimo em expor [por que = motivo da teimosia]
Observe que a mesma prece (“Eu não sei”) é completada por orações iniciadas por advérbios interrogativos (“porquê”, de modo; “quando”, de tempo; “onde”, de lugar; “por que”, de culpa). Pode-se expor que, nesse tipo de estrutura, “por que” (advérbio) permuta com outros advérbios (porquê, quando, onde). Já a conjunção “porque” é empregada em outro tipo de situação. Como ela introduz um apenso adverbial, que não é um termo complementar, a prece principal do período tende a expressar uma teoria completa. Veja um exemplo: “Ele não foi ao cinema porque se sentiu mal”. [Ele não foi ao cinema – ideia completa/ porque se sentiu mal – circunstância de causa, ideia acessória, não complementar].
PORTUGUÊS BRASILEIRO E PORTUGUÊS EUROPEU
Existe diferença de ortografia entre o registro brasílico e o português no que se refere ao serviço dessas duas formas. S advérbio interrogativo de culpa, que cá se grafa em duas palavras, em Portugal é escrito porquê uma só termo. Diga-se que o sistema de lá é sensato nesse ponto. Veja um exemplo, no célebre soneto de Camões “Busque Amor novas artes, novo talento”:
Busque Amor novas artes, novo talento,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em insubmisso mar, perdido o lenho.
Mas, não obstante não pode possuir desprazer
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n’espírito me têm o
um não sei quê*, que nasce não sei onde,
vem não sei porquê, e dói não sei porquê.
Observe porquê o “porquê” final é um advérbio (porquê “onde” e “porquê”). Na ortografia portuguesa, é uma termo só e recebe o acento por estar na posição tônica. Na ortografia brasileira, teríamos “dói não sei por quê”.
OUTROS USOS
Por que, em duas palavras, também pode ser equivalente a “pelo qual” (e flexões). Assim: “S ideal por que lutamos é a liberdade” equivale a “S ideal pelo qual lutamos é a liberdade”. Nesse caso, temos a preposição “por” seguida do pronome relativo “que” (o pronome relativo é responsável pela retomada de um termo já mencionado e deve ser antecedido de preposição se a regência de um verbo ou nome assim o exigir). Veja alguns exemplos:
Essa era a explicação de que eu precisava. [precisava de – de que precisava]
Esse foi o filme a que eu assisti. [assisti a – a que assisti]
Aqui está a mala com que ela viajou. [viajou com – com que viajou]
Aquela era a motivo por que lutava. [lutava por – por que lutava]
Por que também pode ser a preposição “por” seguida do pronome indefinido “que”, o que ocorre em situações porquê estas: Por que caminho você veio? [por qual caminho] ou Não sei por que motivo ela não veio [por qual caminho]. S encontro da preposição “por” (regida por um verbo ou nome) com a conjunção integrante “que” (a que introduz as orações substantivas) é outra estrutura em que teremos a ortografia “por que”: Ansiava por que aquela viagem terminasse logo [ansiava por alguma coisa/ um pouco = que aquela viagem terminasse logo].
DÚVIDAS FREQUENTES
Em títulos jornalísticos, é generalidade observarmos o ocupação de “por que” em interrogativas indiretas elípticas. Vejamos um exemplo:
Por que as mulheres devem amamentar os bebês
Esse tipo de construção intitula um cláusula em que se discorre sobre as razões pelas quais as mulheres devem amamentar os bebês. Em outras palavras, caberá ao texto responder à interrogação indireta representada pelo título, que cá chamei de elíptica, pois nela se subentende uma prece principal que configuraria uma estrutura do tipo “Saiba por que as mulheres devem amamentar os bebês”. P generalidade as pessoas hesitarem quanto à pontuação desse tipo de frase. Costumam perguntar se caberia um ponto de interrogação. A resposta é “não”, exatamente por se tratar de interrogação indireta.
S acento de “por quê” é outra incerteza frequente. A regra é que seja empregado quando a termo aparece em posição tônica, ou seja, antes de pausa poderoso (representada por ponto final, ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências), ou seja, no término do período. Ocorre, porém, que, antes das orações coordenadas adversativas (aquelas introduzidas pelo “mas”), ocorre uma pausa enfática que autoriza o ocupação do acento, oferecido que a sotaque se torna tônica. Assim: Não sei por quê, mas isso não me agrada.
Esse acento não se usa somente em “por quê”. S princípio se estende ao “que” o em posição tônica. Assim: Você vai comprar isso para quê? Vou usar esse chapéu não sei com quê. Vale lembrar cá que o “que” pode suportar o processo de substantivação e, nesse caso, também será acentuado (Seu olhar evocava um quê de mistério). Na frase “não sei quê”*, usa-se o acento.
A conjunção porque pode brotar em orações interrogativas. Isso ocorre quando a pergunta incide sobre a relação de motivo e efeito, não sobre a pretexto em si, de modo que a resposta será na forma de “sim” ou “não”. Veja um exemplo: “Você não veio ao escritório ontem porque estava doente?”. Nesse caso, quem pergunta quer confirmar a relação de justificação e efeito (foi esse o motivo de sua carência?). A essa pergunta respondemos “sim” ou “não”. P dissemelhante de perguntarmos “Por que você não veio ao escritório?”. Agora, indagamos a justificação, empregando, portanto, o advérbio interrogativo de pretexto.
Fonte: Thaís Nicoleti
