Nas ruas, sem lenço, sem documento!
Como ocorreu em praticamente todas as manifestações de rua, em Belo Horizonte, desde 1977, estarei trabalhando no domingo. Esse pormenor me desobriga de reflexões sobre a conveniência de ir ou não, mas, aumenta a responsabilidade sobre o que manifestar, mormente porque a cobertura no rádio é ao vivo, de improviso, não permite deslizes, não admite retoques. Falou; tá falado! E quero dividir com vocês o quanto o sentimento é de amargura, desta vez do que em 2013, 2002, 1984...
Na transição dos anos 70 para 80, do século pretérito, levava pedrada na cabeça, corria do cachorro e era atropelado pelo cavalo da polícia (foram 11 pontos de uma só vez), via espertalhão discursando, soldados a marchar sem saber recta para onde ir e por que, idealistas apanhando, mas, havia em meu peito uma certeza – a de que era um processo, a passagem de um tempo de negrume para a luz, da tortura para a esperança e das sombras para a transparência. Naqueles tempos, vez por outra eu era engrandecido para entrevistar um barbudo, sindicalista, que falava com a língua enrolada, atirava para todos os lados e empolgava por suas posições corajosas. Era Lula que, de tão carente, um dia ficava no Hotel Wembley (do Zé de Alencar), outro no Normandy, às vezes na moradia do Dídimo, outras com o João Paulo... Lula era para mim e milhões a representação do brasiliano que nasceu pobre, foi humilhado, venceu no pavimento de fábrica e queria desmanchar o poder das elites, que mandam desde 1500. Certa vez, ouvi Lula expor:
“Eu conheci o pão pela primeira vez com 7 anos de idade, até logo o moca da manhã era escoltado com farinha de mandioca e sei o que é desespero de uma mãe diante de um fogão sem gás com meninos em volta”.
Lula chegou lá, manteve a política econômica que arrepiava seus pares, combateu a inópia, aumentou o salário mínimo, reduziu a mortalidade infantil, correu o mundo. Eu vi o encantamento dos indianos e chineses acompanhando visitante dele ao outro lado do mundo. Torcia por ele e custava a me moderar diante dos que não aceitavam aquele operário sem dedo sendo chamado de “o face” por Barack Obama.
Mas, a mosca azul picou Lula. E ele passou a caminhar na companhia dos endinheirados, na política era amplexo para Collor, Sarney, Renan...
S tempo passou, cá estamos de novo nas ruas. Agora, sem uma só liderança pátrio capaz de nos fazer ouvir um exposição de credibilidade. A esperança venceu o pânico, Lula e sua turma mataram a esperança, e os que sonham com os pobres no poder vão esperar 500 anos. Se fosse para a rossio domingo porquê manifestante, provavelmente levaria um edital com os seguintes dizeres: “Mãe, me dá um pescoço”.
Fonte: Blog do Eduardo Costa - Últimas Notícias de -