A arte e o ofício de viver de grafar, por Eliane Brum

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Escrevo porque a vida me dói, porque não seria capaz de viver sem transformar dor em termo escrita (...) Escrevo porque acredito no poder da narrativa da vida em transformar a própria vida (Eliane Brum, na apresentação do livro "A Menina Quebrada", Arquipélago Editorial, 2013).

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Nunca tinha pensado nisso: o que nos leva a grafar, seja por obrigação de ofício ou só por paladar? No meu caso, porquê nunca aprendi a fazer outra coisa na vida, trata-se de uma questão de sobrevivência, mas não só material. P que desde muito jovem, quando comecei na profissão, não consigo passar um dia sem ortografar. Fica porquê se estivesse faltando alguma coisa, pois é o que me liga ao mundo e às pessoas. Sem grafar, eu simplesmente não existo. No dia em que pararem de me remunerar para grafar, vou ter que inventar outra vida.

Este livro da repórter gaúcha Eliane Brum, hoje correspondente do jornal espanhol "El Pais" no Brasil, caiu por contingência nas minhas mãos esta semana. Estava lendo dois livros pesados e, ao procurar nas estantes de moradia alguma coisa sereno para me distrair antes de dormir, minha mulher me aconselhou: "Lê leste, acho que você vai gostar".

Vi que ela tinha razão, porquê de hábito, pois me conhece melhor do que eu. Eliane escreve de um jeito que parece estar conversando com a gente, pegando-nos pela mão para nos levar a lugares, situações e pessoas que não esperávamos encontrar na vida.

Acompanho a curso de Eliane desde o ano 2.000, quando ela deixou o "Zero Hora" de Porto Alegre para vir trabalhar na revista "Época", em São Paulo, onde eu era repórter peculiar. Por sorte minha, veio sentar numa mesa ao meu lado e, desde as primeiras conversas, identifiquei-me com seu exalo por qualquer tarifa, louca para transpor logo da redação com um fotógrafo para caçar histórias ainda não descobertas por outros repórteres. Ficamos velhos amigos.

Ao longo destes anos, ela ganhou de 40 prêmios no Brasil e no exterior, escreveu livros e fez documentários, mas nunca deixou de ser a mesma moça curiosa, sensível, de uma simplicidade cativante, sempre animada com a vida e sua grande paixão: a próxima reportagem (o João que não fique com emulação...).

"A Menina Quebrada" é uma coletânea das colunas que ela publicou no da "Época", entre junho de 2009 e janeiro de 2013, distribuídas agora em 428 páginas de papel, a provar que não importam o tamanho do texto ou a plataforma quando você tem uma boa história para racontar sobre qualquer tema. Nem me lembro porquê leste livro veio parar cá em lar, mas para mim foi um inventiva.

Em suas crônicas, Eliane faz um metódico making off do seu ofício, contando porquê surgem as ideias, as suas dúvidas, descobertas e frustrações ao longo do processo de geração. Não tem receitas mágicas, fórmulas prontas, muito menos verdades definitivas sobre zero, porquê fica evidente logo na apresentação da obra, em que ela dá algumas pistas do planta da mina, ouro em pó tanto para estudantes de jornalismo porquê para velhos profissionais porquê eu.

"P frequente eu ser abordada por leitores perplexos: "Nunca sei o que vou encontrar na sua poste de segunda!". P exatamente isso. Eu escrevo sobre a vida misturada, para além dos escaninhos das editorias, e com de um estilo, porque cada história pede um ritmo diverso e palavras próprias (...) Se as divisões arbitrárias de cultura, comportamento, economia, política, etc _ ou variações similares _ servem para organizar a publicação, qualquer jornalista sabe que uma boa reportagem ou um bom experiência ou uma boa pilar é misturada, porque a vida não se deixa compartimentar. Ao contrário, ela escapa das definições, escapa até das palavras".

Perfeito. S nosso grande duelo quotidiano é surpreender os leitores, recontar uma novidade de forma original, sem nos prender às manchetes e às commodities informativas que se repetem num moto contínuo, em todas as mídias, novas ou velhas, dando-nos a sensação de já ter lido ou visto aquilo antes. Para conseguir isso, o que não é fácil, ela segue alguns princípios básicos:

* Tenho de estar tomada pelo ponto, porque esta é a primeira verdade que ofereço.

* Preciso confiar ter um pouco a expressar que ainda não foi dito por outros articulistas, ou pelo menos não da forma porquê eu gostaria de manifestar, evitando tomar o tempo das pessoas com um texto que elas poderiam ler em outro lugar.

* Jamais subestimo o leitor: o que ofereço a eles são as minhas melhores palavras e minha procura por verdades desacomodadas. Ofereço principalmente as minhas dúvidas, porque são as dúvidas que nos levam a lugares novos, as certezas nos cimentam.

Vale a pena ler leste livro para resgatarmos nossa esperança e fé na profissão. S jornalismo brasílico só terá horizonte se for capaz de terebrar espaços para o surgimento de novos profissionais porquê Eliane Brum. G sintomático que a melhor repórter do Brasil trabalhe atualmente para um jornal estrangeiro.

Vida que segue.

Fonte: Ricardo Kotscho