Xuxa exorciza o tabu do “pornô”

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Como na canção de Odair José sobre luta de classes, Xuxa deixa essa vergonha de lado, sabe que a moral canalha não tem valor.

“Falam que o filme que eu fiz é vergonhoso. Compare aquele filme com alguém batendo numa criança e veja o que é vergonhoso. Eu tinha 18 anos. E interpretava uma garota de 15. O que é vergonhoso? Esse filme ou bater numa criança?”

E eis que 32 anos depois, Xuxa, 51, na madruga do “Altas Horas”, assume talvez o momento artístico máximo da sua carreira, o filmaço “Amor Estranho Amor”, de 1982, aquele fatídico ano da tragédia do Sarriá, quando o escrete de  Falcão, Sócrates e Zico perdeu a Copa jogando o futebol inesquecível do planeta.

Não havia motivos, caríssima Xuxa, a não ser uma correção sem o menor sentido, para negar e proibir na Justiça a obra. Proibir como se fosse um Robertão paranoico e azulado.

Mesmo lidando com um público infantil na carreira, Xuxa não poderia confundir as bolas: o belíssimo filme de Walter Hugo Khouri é uma ficção. Se a atriz Xuxa, na pele da personagem Tâmara, troca carícias com Hugo (o ator Marcelo Ribeiro ainda criança), não passa de uma cena riquíssima do cinema.

Quem vê algo de errado nisso é capaz de levar Nabokov de novo à fogueira da inquisição por ter escrito “Lolita”, Lo-li-ta, luz da minha vida, um dos melhores livros de todas as eras.

O bom é que Xuxa, parece-me, exorcizou o fantasma. Ufa!

Por causa do filme havia sido humilhada em público recentemente pelo deputado Eurico Delgado (PSB-PE) durante discussões sobre o projeto da Lei da Palmada.

O deputado -ah, esses canalhas, esses moralistas de meia tigela- disse, na oportunidade, que Xuxa [ela fez lobby pela aprovação da lei] cometera “uma violência maior contra crianças por participar de um filme pornô”.

Finalmente a Xuxa assume o filme. Agora só falta liberar na Justiça a fita, deixar correr solto. Se bem que é facilmente encontrável até nos camelôs de SP que vendem DVD.

“Amor Estranho amor”, repito, é um filmaço que faz parte da grande obra de um dos melhores e importantes diretores de cinema do país: Walter Hugo Khouri.

Um cara tão bom que era chamado, na buena onda dos amigos, de o Antonioni da Mooca. Lembrar Antonioni, o italiano que figura entre os maiores do mundo, já diz tudo da competência do cineasta paulista.

Na minha lista, o diretor de “Noite Vazia” e “Amor Estranho Amor”é gênio. Fez com o inconsciente e os desvios do caráter da burguesia brasileira o que Glauber Rocha realizou com os sertões e a política de um Brasil em transe.

Ninguém melhor do que WHK soube filmar as mulheres. Nelville de Almeida (com o universo de Nelson Rodrigues )é o que se aproxima.

A cena polêmica de Tâmara, o personagem fictício de Xuxa –é arte, não é pedofilia, hello, minha gente- é uma das antológicas do cinema nacional. Xuxa atua com esmero. O menino Hugo idem.

Xuxa, talvez a sua atuação nesta fita seja a sua maior herança artística. O seu melhor momento. Ali você superou inclusive o preconceito que havia com modelos que atuavam na tevê e no cinema.

É motivo de orgulho, razão para liberar geral e ainda participar, com destemor de um eventual relançamento. Definitivamente não é esta obra que queima o seu filme.

Fonte: Xico Sá