Você conhece a escola debaixo do pé de manga?
Pessoas inspiradoras que trabalham por um futuro melhor.
O personagem é o antropólogo e educador popular mineiro Tião Rocha, que ao ter a ideia de ministrar uma aula debaixo de um pé de manga, plantou a semente de uma nova abordagem sobre um dos temas que mais tem potencial para espalhar inspiração: a educação.
Tião se considera antropólogo por formação acadêmica, educador popular por opção política, folclorista por necessidade e mineiro por sorte. Nascido em Belo Horizonte, foi um menino espevitado, que não se encaixava no rígido sistema escolar da época. Ao ouvir da professora sobre reis e rainhas, falou que sua tia Etelvina era rainha, Rainha do Congado, mas ouviu de volta um “cala a boca, menino!”.
Mesmo assim, seguiu carreira acadêmica, se graduando em História e fazendo mestrado e doutorado em Antropologia Cultural, e mestrado em Folclore e Cultura Popular. Mas um dia, em 1984, após o aparentemente inexplicável suicídio de um aluno, teve um “clarão” e decidiu que não queria mais ser professor universitário ou em colégios particulares, queria ser educador, e educar crianças carentes no Vale do Jequitinhonha, região mais pobre de Minas Gerais.
Tendo como “guias espirituais” os personagens de Guimarães Rosa, como Manuelzão e Miguilim, e Riobaldo e Diadorim, e sua sabedoria popular, em suas andanças pelo sertão, vendo tantas crianças sem acesso à escola, percebeu que a escola não é um prédio, ela pode estar em qualquer lugar. E criou sua primeira escola debaixo de uma mangueira, sem teto, lousa ou giz, na cidade de Curvelo,considerada a capital da literatura de Guimarães. Era o Projeto Sementinha, embrião do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), que hoje está presente em sete estados Brasileiros e em Moçambique, e já educou mais de 20 mil crianças e jovens com uma pedagogia nada convencional.
Por exemplo, no CPCD se ensina a pedagogia do brinquedo (educação a partir de jogos como a “damática”, mistura de dama e matemática), a pedagogia do sabão (impulsionadora das fabriquetas, que produzem desde bonecas até móveis), e as pedagogias do abraço e do cafuné (estimuladoras do afeto). Na cidade de Araçuaí, no Jequitinhonha, Tião e sua ONG encontraram uma situação educacional calamitosa. 75% das crianças matriculadas na quarta série tiveram avaliação insuficiente. Ele montou uma “UTI Educacional”, e o tratamento foi feito a partir da valorização da cultura local, recursos humanos e materiais da região. Capacitou “mães educadoras” e jovens agentes comunitários, e criou atividades como jogos educacionais e “folias do livro”.
Hoje, Araçuaí é um exemplo de “cidade sustentável” em pleno semiárido, onde 13 organizações atuam em projetos como o coral Meninos de Araçuaí, a Cooperativa Dedo de Gente, que produz artesanato e móveis de bambu, madeira de reflorestamento e sucata de ferro, a Moda Jequitinhonha, que produz roupas, bolsas e bordados, e doces, geleias e licores, entre outros produtos que geram renda para a população.
Não por acaso, Tião foi homenageado pelo Prêmio Empreendedor Social da Folha de S. Paulo e da Fundação Schwab em 2007. No site do prêmio, você conhece um pouco mais sobre sua história e inspirações. E aproveite para ver a entrevista que ele deu ao programa Almanaque Brasil, falando sobre suas propostas para melhorar o sistema educacional brasileiro.
