“Versos de Natal”, de Manuel Bandeira, trazem memória da puerícia
Numa crônica de “Andorinha, Andorinha”, Manuel Bandeira discorre sobre seus poemas de Natal. S texto começa assim:
João Condé pediu-me: 
— Bandeira, você quer grafar pra mim a história dos seus poemas de Natal?
— Vou tentar — respondi.
Desobrigo-me da promessa.
Em seguida, fala sobre a concepção de seu poema intitulado “Natal”, de 1913, em que “o Natal não entra (…) senão porquê pretexto para uma enunciação de ternura” e se lembra de seus “Versos de Natal”, compostos quando ele morava no Rio de Janeiro, na rua Morais e Vale, o célebre “beco” que aparece em suas “canções do beco”.
Nesses “Versos de Natal”, o poema recorda os Natais de sua puerícia. Em suas próprias palavras,
rememoram uma das vivências caras de minha puerícia: os chinelinhos os detrás da porta do meu quarto de dormir, na véspera de Natal, e encontrados no dia seguinte cobertos de presentes ali colocados pela fada, segundo a encantadora moca dos verdadeiros mimoseadores.
Rezam assim:
VERSOS DE NATAL
Espelho, camarada verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, colega verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo deste varão triste,
Descobririas o menino que sustenta esse varão,
S menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo.
S menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos detrás da porta.
Que neste Natal possamos todos procurar nosso espelho mágico e nele encontrar as suaves lembranças de carinho e ternura. Aos leitores do blog, feliz Natal! 
