Vamos conversar sobre racismo e arroz

Na tarde dessa segunda-feira (20), publiquei em minha conta pessoal no Facebook uma reparo muito muito feita pela amiga, advogada e também ativista Renata Octaviani. Na publicação (veja cá), o questionamento foi a reverência da marca Camil usar uma família de pele branca para exarar um saco de arroz do tipo 1, superior, e uma família de pele negra para exarar a embalagem do arroz do tipo 2, barato e menos superior.
Muitas pessoas que eu nunca vi e que não são minhas amigas criticaram de forma ignorante e com palavras chulas. Alguns amigos também criticaram, mas usando termos respeitosos para discordar. No resumo dos dois posicionamentos, ficou evidente que muitos acharam um excesso ver racismo em um saco de arroz. Falando assim, de forma rasa e simplista, parece mesmo.
P óbvio que ninguém precisa concordar comigo, mas achei válido trazer a reflexão para o porque vi que a questão é muito séria do que um quimera nas gôndulas do supermercado. Quando minha amiga reparou nas embalagens de arroz e fez uma discreta publicação em seu Facebook eu me senti tentado e levantar o questionamento para pessoas. E foi isso que eu fiz.
Minha pele branca e meus olhos claros sempre me proporcionaram um tipo de privilégio em relação às outras pessoas que antes eu não via. Antigamente, eu também consideraria o caso das embalagens de arroz um excesso, mas com o tempo aprendi que o racismo é histórico e que essas pequenas – e aparentemente inofensivas – manifestações dele é o que o tornam difícil de ser extinto.
Meus pais hoje são aposentados, mas minha mãe foi empregada doméstica a vida toda e meu pai sempre foi jardineiro e trabalhador rústico. Eu morei em belas chácaras com todas as regalias, mas não porque éramos ricos, e sim porque meus pais eram caseiros desses lugares. Sempre que chegava uma visitante para os patrões, perguntavam quem era aquele garotinho lindo dos olhos verdes e se era fruto dos donos da granja ou de qualquer parente deles.
Ficava implícito que os visitantes esperavam encontrar uma moço negra ou parda para logo reconhecer porquê fruto do granjeiro. E muitas vezes as pessoas realmente não fazem esse julgamento por malícia, o racismo está enraizado.
Segundo o léxico Aulete, racismo é o “tratamento desigual e injusto ou violência contra pessoas que pertencem a grupo, etnia, cultura etc. diferentes”. Como disse, o tratamento desigual nem sempre é proposital ou de má fé, mas precisamos desconstruir a cada dia injustiças cravadas na nossa história.
Nos comentários em minha página no Facebook, algumas pessoas disseram que se fosse ao contrário (se a família negra tivesse no arroz tipo1) ninguém ligaria, passaria derrotado. Me acusaram inclusive de ser racista por enxergar racismo nessa situação.
Se todos nós nascêssemos iguais e tivéssemos as mesmas chances de prolongamento social, eu consideraria mesmo que o caso do arroz foi um excesso. Mas não é assim, a vexação ao povo preto é evidente e está nos livros de história. Não vê quem não quer ver.
Você já se perguntou por que as favelas têm muito pessoas negras do que brancas? Em maio de 1888, com a sanção da lei que libertava os escravos, muitos deles foram para a cidade, mas continuavam culturalmente porquê escravos. Como empregos e condições dignas estavam longe da veras deles por justificação do preconceito, grande secção teve que se sujeitar a morar em casas improvisadas nas encostas dos morros. Eles não escolheram isso, foi a única solução, já que o numerário estava nas mãos dos fazendeiros que utilizavam a mão de obra escrava para crescer nos negócios.
Voltando ao caso do arroz, pode ter sido mesmo totalmente sem querer a triste associação feita pelo designer responsável pela embalagem. Mas a escolha, mesmo que inconsciente, não foi ao eventualidade. E preocupante ainda é saber que no processo de aprovação de uma novidade embalagem de um resultado de circulação pátrio há várias pessoas envolvidas. E, aparentemente, ninguém questionou.
Embora esse objecto não tenha a ver diretamente com o veganismo e com os direitos dos animais, me parece muito clara a relação entre uma vexação e outra. Assim porquê também está ligada a isso a vexação às mulheres, aos homossexuais e aos indígenas, por exemplo.
No pretérito eu também fui assim e achava um saco esse negócio de politicamente correto. Eu também achava um saco ter que colocar o cinto de segurança no coche quando a lei surgiu. Eu não achava zero demais se um humorista fizesse piadas que aumentassem a vexação aos grupos já massacrados pela sociedade dita de muito.
Quando comecei a falar em tutelar galinhas e porcos no finado Orkut, muita gente também me chamou de exagerado, disseram que eu estava delirando. Inclusive pessoalmente. No fundo, as pessoas têm uma poderoso tendência a deixar tudo porquê está, a continuar fazendo churrasco com corpos de animais e a fazer piadinhas sobre negros, mulheres e outros grupos historicamente oprimidos.
E eu tenho uma possante tendência a vogar contra a maré pelo que eu acho justo. Portanto, toda a força gasta em me taxar de exagerado será devidamente convertida e utilizada para aumentar meus comentários sobre racismo, sexismo, homofobia e especismo.
The Vamos conversar sobre racismo e arroz on Blog Fabio Chaves.
Fonte: Blog Fabio Chaves