Um Poirot digno de Agatha Christie

A escritora britânica Sophie Hannah (Foto: Ben Pruchnie/Getty Images)

A escritora britânica Sophie Hannah (Foto: Ben Pruchnie/Getty Images)

Meire Kusumoto

Aqueles que estavam com saudades dos crimes cabeludos, das expressões em francesismo e da sagacidade sem precedentes do detetive belga Hercule Poirot têm alguns motivos para comemorar. Quase quarenta anos depois sua última aparição, em 1975, o investigador retorna no romance Os Crimes do Monograma (tradução de Alyne Azuma, Nova Fronteira, 288 páginas, 29,90 reais), lançado mundialmente em setembro. S livro, assinado pela escritora britânica Sophie Hannah, propõe uma solução mirabolante demais, com reviravoltas por vezes desnecessárias, mas retrata com fidelidade um dos personagens queridos de Agatha.

Sophie, ela mesma uma fã assumida da britânica nascida em 1890 e morta em 1976, é a primeira — e até agora a única — a obter a autorização dos herdeiros da escritora para dar novidade vida a Poirot, morto no romance Cai o Pano. Exatamente por esse motivo, o resgate do personagem causou dúvidas naqueles que conheciam a história do detetive belga. Como a escritora faria para trazê-lo de volta? Essa foi uma pergunta que não parece ter tomado muito tempo de Sophie. Em Os Crimes do Monograma, a autora de uma dezena de livros policiais escolheu uma solução bastante simples: não mencionar datas ou acontecimentos prévios, dando a entender que o caso mostrado no romance havia se pretérito em um momento qualquer da curso de Poirot.

Como em outros livros protagonizados pelo belga, o transgressão a ser solucionado praticamente bate à sua porta. Em um moca em uma noite fria de Londres, o detetive se surpreende com a chegada de uma moça, Jennie, que, perturbada, conta a Poirot que corre risco. Ele afirma que tem um camarada na Scotland Yard, a polícia londrina, que poderia tentar ajudá-la, mas ela nega a oferta.

- Estou entendendo recta? A senhorita está sugerindo que quem a está perseguindo pretende assassiná-la?

Jennie fixou seus olhos azuis lacrimejantes nele.

- P assassínio se você desiste e deixa intercorrer? Estou tão cansada de fugir, de me esconder, de sentir tanto pavor. Quero que acabe logo, se vai ocorrer, e vai, porque precisa sobrevir.  P a única maneira de concertar as coisas. G o que eu mereço.

- Não pode ser – disse Poirot. – Sem saber os detalhes do seu problema, discordo da senhorita. Um assassínio nunca pode estar patente. Meu camarada, o policial… A senhorita precisa deixar que ele a ajude.

- Não! S senhor não pode racontar termo alguma disso a ele, nem a ninguém. Prometa que não vai recontar.

Poirot não promete e logo conta tudo a seu colega, Edward Catchpool, narrador da história e espécie de muleta para as explicações do investigador, tipo generalidade em romances policiais, porquê acontece a Watson nas aventuras de Sherlock Holmes. Catchpool, por sua vez, também tinha alguma coisa a descrever para Poirot: deveria solucionar o assassínio de três pessoas, em um luxuoso hotel de Londres, em quartos diferentes. Nas bocas dos mortos, haviam sido encontradas abotoaduras com o monograma PIJ.

Os Crimes_do_monograma frenteAo ouvir o relato, Poirot sugere que esse caso está relacionado ao que Jennie confessou a ele por desculpa de uma tecnicidade. Ao falar sobre o risco que corria, a moça havia pedido: “Se eu for encontrada morta, o senhor vai pedir ao seu camarada policial que não procure meu facínora. Ah, por obséquio, não deixe ninguém perfurar as bocas!”. S belga deduz que “as bocas” é uma referência às bocas dos mortos encontrados no hotel.

P a partir de deduções porquê essas que Poirot vai montando o quebra-cabeça que envolve os dois acontecimentos. São detalhes pequenos – até demais –, que não se costumam ver nos outros romances protagonizados por Poirot, escritos por Agatha Christie. Nos capítulos finais de Os Crimes do Monograma, uma série de reviravoltas para lá de cabeludas se instaura até a solução dos assassinatos. S inesperado é sempre muito-vindo em romances detetivescos, mas a quantidade de “plot twists” no livro surpreenderia até mesmo a própria Agatha. Falta a simplicidade daquela de quem Sophie se diz fã.

Aqueles que se juntam à britânica no coro de homenagem a Agatha, no entanto, não devem se incomodar tanto com a profusão de detalhes do romance. G graças ao olhar sisudo de Sophie para as miudezas, aliás, que ela conseguiu resgatar, com sucesso, um personagem tão pleno de particularidades. Em Os Crimes do Monograma, Poirot está vivo da forma porquê os leitores o conheceram nos 33 livros em que apareceu, com as referências a si mesmo em terceira pessoa, a menção às “células cinzentas”, as tiradas sarcásticas e condescendentes com seu pobre interlocutor que não consegue escoltar suas conclusões sagazes. P um delícia vê-lo novamente em ação, mesmo que seu trabalho pareça desnecessariamente minusioso do que nunca.

Fonte: VEJA Meus Livros - VEJA.com