Todo mundo é parecido quando sente dor

Uma das coisas importantes, difíceis e extremamente ricas que a antropologia me trouxe foi a busca pelo desenvolvimento da empatia. É impossível desenvolver um estudo antropológico, a partir de uma experiência etnográfica, em que você tem que compreender o universo do Outro (o objeto de estudo, indivíduo e grupo analisado) segundo a perspectiva dele, se despindo dos seus próprios valores para poder enxergar o mundo como ele vê e assim entendê-lo na essência de sua cultura, se você não puder desenvolver a empatia.

Essa experiência (empatia) de apreender o código emocional do Outro de acordo com os significados que este confere à realidade é o que permite ao antropólogo compreender o universo de valores que estrutura o comportamento e a cultura de uma pessoa e de seu grupo e sem isso, eu conseguiria "ler" o conjunto de percepções e comportamento deste Outro apenas segundo o meu sistema de valores, sendo incapaz de atingir a perspectiva necessária a um antropólogo.

No mundo tecnocrático atual, se existe uma coisa que as redes sociais são capazes, mesmo que efemeramente e, em muitos casos, mesmo que superficialmente, mas sempre com grande abrangência e rompendo barreiras, é gerar empatia. Na cyber realidade, algo que me faz respirar fundo com vistas a me emocionar de verdade quando percorro os feeds das redes são aqueles posts que mostram israelenses e palestinos juntos na dor e também no amor. É pungente. É doído. É real.

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Para além de campanhas e proclamações da ONU, para além de matérias jornalísticas e imagens de horror, o que têm me sensibilizado nos conflitos atuais entre estas duas nações são estas imagens de empatia mútua entre indivíduos de ambas as etnias, ocorrendo num contexto em que pessoas do mundo todo se sentem compelidas a tomar partido de uma nação contra a outra, frente às atrocidades de ambos os Estados contra o inimigo.

Talvez porque o bombardeio de informações e imagens de terror de guerras que cada vez são expostos na mídia gerem refração e imunidade, ou talvez porque não são, desta vez, porta-vozes das nações, políticos, jornalistas ou fotógrafos especializados falando com imagens e palavras, mas pessoas reais, dos dois lados da guerra, dando um tapa na cara da sociedade civil e do Estado, mostrando que sim, eles rompem a barreira da nação para chegar ao cerne do humano - este estampado nas imagens, de mãos dadas com o "suposto inimigo", empatizando com a dor dele, agora vista com igual dimensão à sua.

Diferentemente das "causas" de araque que alguém (muitas vezes empresas se passando por pessoas) inventa pra gerar "buzz", neste caso, israelenses e palestinos vivendo em diferentes locais do globo têm postado imagens em que deixam claro que esta guerra não é escolha daquele indivíduo da foto e que ele não vê o Outro (com quem seu Estado está em guerra) como inimigo, mas sim como uma pessoa que como ele está vivendo o horror de bombardeios, perdas e estado de sítio.

A hashtasg ‪#‎JewsAndArabsRefuseToBeEnemies,‬ gerada após o lançamento da campanha de mesmo nome criada por Abraham Gutman and Dania Darwish, estudantes do Hunter College em Nova York, tem gerado um grande contingente de postagens mostrando o que em geral não se vê num cenário de guerra e que expectadores mundo afora, preocupados com o conflito e tomando lados o tempo todo, não se dão conta: o amor não escolhe etnia e ele existe para além delas.

"Todo mundo é parecido quando sente dor", já dizia a letra do Barão Vermelho. Uuma coisa que aprendi em antropologia é que o etnocentrismo sempre faz acreditar que nossa dor é maior, pois nós estamos certos por "n" razões e o Outro está errado. Mas se na alteridade cultural as diferenças saltam aos olhos, no âmago do que é ser humano, a igualdade se torna um valor visível nos momentos em que menos esperamos, até na dor e é essa igualdade, que pela empatia a ser desenvolvida e vivida, deve nortear nossa percepção, até mesmo e principalmente no conflito, até mesmo em relação ao "suposto" inimigo.

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Fonte: Blog no Brasil Post