Sorrir para a vida

Na sala do Instituto Roda da Vida, em Fortaleza, as paredes brancas nem de longe lembram as de um ambiente médico convencional. Dali, a onco-hematologista Paola Tôrres rege um coral de sorrisos, mas também solta a voz, vibra com as palmas e partilhados ecos da música na história de cada uma das pacientes-cantoras que ali se cruzaram por conta do câncer de mama já vencido.

Juntas, Maria Gorete, Maria Luiza, Fátima, Socorro, Francisca e Minervina cantam a alegria de viver: "seja feliz sem razão / seja gentil sem pudor /curta a vida!". E assim elas tentam fazê-lo. A quem ouve a canção, o riso também chega fácil. Difícil é não se contagiar.

Durante a "roda de cantoria", o objetivo é fazer da música - e das lembranças afetivas que carregam - um elo que reconecta a o paciente ao próprio 'eu' e, consequentemente, à cura. "Quando você está cantando, fica totalmente presente. Para cantar qualquer música, você tem de estar com o pensamento, a voz e a respiração conectados", diz a fundadora do Roda da Vida, associação sem fins lucrativos que, desde 2012, promove integração terapêutica, educação e acesso à informação a pacientes oncológicos.

Mas o uso terapêutico das melodias e do canto é, na verdade, apenas uma das possibilidades de aplicação da chamada 'medicina integrativa', abordagem que alia métodos convencionais da medicina a terapias complementares e dá ênfase a um sentido amplo de cura, priorizando uma atenção integral ao paciente - em relação ao corpo, à mente, ao espírito e às próprias relações construídas em comunidade.

Foco no sujeito

"O grande diferencial é tirar a doença de foco e colocar a pessoa. A medicina integrativa trata o sujeito doente", explica a Dra. Paola Tôrres. Para isso, traz desde as medicinas tradicionais (homeopatia e medicina chinesa), assim como as abordagens mente-corpo (meditação e yoga).

Os processos de cura incluem, ainda, elementos nutricionais, por meio do uso de ervas que fortalecem o sistema imunológico; e as abordagens de corpo (osteopatia, quiroprática e massagens); as energéticas (Reiki) e, no caso do Brasil, saberes populares como o das rezadeiras. A ação é curativa porque interfere nos processos de pensamento, os quais, reforça, não estão indissociados do corpo.

"Isso é algo que a medicina moderna ainda tem de incorporar, mas que vem principalmente com as descobertas da física quântica, as quais colocam todos nós em um novo paradigma. O que achávamos que não tinha interferência, hoje sabemos que tem. Estudos dos estados meditativos, por exemplo, mostram que pacientes que meditam têm uma sobrevida melhor ao câncer; e que a reza altera transcrições de proteínas cerebrais que vão interferir no sistema imune. São elementos que trazemos para a terapêutica, mas que estão na fala dos pacientes", pontua a onco-hematologista.

Psicodinâmica do câncer

Como prática transdisciplinar, portanto, a medicina integrativa se insere não apenas no tratamento de pacientes oncológicos, apesar de que, nesses casos, leva em consideração algumas características específicas da doença, como o fato de ser multifatorial e influenciada por elementos psicológicos e emocionais.

"O câncer não surge de uma coisa só, mas onde é que a medicina busca a cura? No corpo. E não vai encontrar, porque a cura não está no corpo. Está no sujeito. É o sujeito que se cura do câncer. Você faz quimioterapia na pessoa e a doença vai embora. Se a cura estivesse só no corpo, por que a doença voltaria? E, em alguns casos, volta", argumenta a médica do Centro Regional Integrado de Oncologia (CRIO), que também é professora dos cursos de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Fonte: Vida