Sem base estruturada, continuidade do Procure Saber está ameaçada
iG São Paulo
Mudança de tom e contradições marcam participação do grupo no debate sobre biografias não autorizadasDepois de levantar a bandeira contra a publicação de biografias não autorizadas e pôr fogo em uma discussão que se tornou nacional, o grupo Procure Saber, que reúne artistas como Roberto Carlos, Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso vê sua continuidade ameaçada, em meio à mudança de tom e contradições.
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Em coluna publicada no jornal "Folha de S. Paulo" neste sábado (2), a jornalista Mônica Bergamo afirmou que um racha entre os artistas justamente em relação às biografias deve pôr fim ao grupo.
A dúvida, segundo a colunista, é o momento em que o Procure Saber será encerrado, já que para participar das discussões sobre o tema que acontecem no fim do mês no Supremo Tribunal Federal (STF) é preciso que os artistas sejam representados por uma associação.
Veja o que personalidades disseram sobre a questão das biografias:

Em 2007, Roberto Carlos conseguiu proibir a venda de uma biografia não autorizada.
Foto: Claudio Augusto/Foto Rio News

Chico Buarque é a favor da proibição: 'Pensei que o Roberto Carlos tivesse o direito de preservar sua vida pessoal'
Foto: Taiz Dering

Já o escritor Luis Fernando Verissimo assinou um manifesto contra a proibição das biografias.
Foto: Divulgação

Djavan é a favor da proibição e alega que os biógrafos 'fazem fortuna'
Foto: Isabela Kassow

A escritora brasileira Nélida Piñon, que faz parte da ABL, também assinou o manifesto contra a censura prévia das biografias.
Foto: Divulgação

Caetano Veloso é a favor da proibição: 'A avalanche de pitos, reprimendas e agressões só me estimula a combatividade'
Foto: AE

O cartunista Ziraldo também faz parte do coletivo de autores contra a censura às biografias.
Foto: Divulgação/Ana Colla

Marília Pêra disse à Folha que é 'golpe baixíssimo xingar de reacionário aquele que necessita preservar seus sentimentos'
Foto: AgNews

'Eu posso pagar um dízimo ao Roberto Carlos e falar da perna mecânica?', disse o escritor Ruy Castro, sobre a divisão de lucros que os artistas exigem.
Foto: AE

Gilberto Gil: 'A soberania decisória sobre a vida privada é que deve prevalecer'
Foto: Divulgação

Frejat faz parte de grupo que é contrário à necessidade de autorização para biografias
Foto: AgNews

O presidente do STF Joaquim Barbosa declarou: 'Censura prévia é ruim, não é permitido, é ilegal'
Foto: Divulgação/STF

Alceu Valença crê que impedir os biógrafos é 'uma equivocada tentativa de tapar, calar, esconder e camuflar a história no nosso tempo'
Foto: Divulgação

Mário Magalhães, biógrafo de Marighella: 'Roberto Carlos é, sim, dono da vida dele. Mas não é dono da história'
Foto: Divulgação

Lobão disse que proibir uma biografia é 'ato falho de quem tem culpa no cartório e já sabe de antemão que tem muito podre'
Foto: Reprodução

Nana Caymmi: '(Exigir autorização) chama-se egoísmo. Ou então é alguém que tem alguma coisa a esconder'
Foto: AgNews

Fagner: 'Sou contra o Procure Saber. Não se pode impedir que as pessoas escrevam'
Foto: Leia Já

Paulo Coelho sobre proibição de Roberto Carlos à biografia: 'Continuarei comprando seus discos, mas estou chocado'
Foto: Getty Images

O escritor Benjamin Moser respondeu a Caetano Veloso: 'A liberdade de expressão não existe para proteger elogios'
Foto: Divulgação
A última semana reforçou as contradições do Procure Saber, que em outubro entrou de cabeça na discussão sobre as biografias. O grupo se manifestou contra uma ação no STF e a um projeto de lei no Congresso que propõe uma alteração no artigo 20 do Código Civil.
Este artigo prevê que qualquer biografia – livro ou filme - só pode ser veiculado se tiver aval do biografado ou de seus herdeiros. Se o personagem ou sua família sentirem que um trabalho traz dano à honra, pode recorrer à Justiça e tirá-la de circulação.
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Cinema: Necessidade de autorização também impacta e veta filmes
Um dos casos mais notórios de aplicação dessa lei aconteceu em 2007, quando Roberto Carlos conseguiu proibir a circulação da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, escrita por Paulo Cesar Araújo. A editora Planeta, que chegou a lançar o livro, teve de recolher toda a tiragem das livrarias.
Com as tentativas de mudança na lei, o Procure Saber, presidido pela empresária Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano, passou a defender seus pontos de vista em artigos e entrevistas.
Caetano, Chico, Gil, Djavan e Marília Pêra foram alguns dos que publicaram artigos em jornais, com os dois últimos inclusive sugerindo o pagamento de royalties aos biografados.
Na TV: Paula Lavigne faz “Saia-Justa” pegar fogo no GNT
Lavigne também teve uma polêmica participação no programa "Saia-Justa", do GNT, ao fazer menção à homossexualidade de uma das apresentadoras, Barbara Gancia, para argumentar contra a invasão de privacidade de pessoas públicas. Depois da exibição do "Saia-Justa", o Procure Saber negou ou ignorou todos os pedidos do iG por entrevistas e participação nos programas da casa.
Na última semana, o grupo pareceu adotar tom mais brando. Em entrevista ao programa "Fantástico", da Rede Globo, Roberto Carlos se mostrou flexível quanto à publicação das biografias não autorizadas - justamente ele, que proibiu o livro de Araújo em 2007.
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"Tem que se conversar e chegar a um equilíbrio. Sou a favor [da mudança na lei], mas desde que não se prejudique o biografado nem o biógrafo", afirmou, negando mudança de posição. "O que não pode é ferir a liberdade de expressão e o direito à privacidade. Juristas precisam estabelecer regras."
O cantor anunciou ainda que ele próprio está escrevendo sua autobiografia para contar "tudo o que eu acho que tem sentido" abordar. "Ninguém poderá dizer melhor do que eu o que senti e o que passei. Isso só eu sei", afirmou.
Na terça-feira (29), o Procure Saber deu mais um passo na direção contrária do que pregara no início, publicando um vídeo no qual Gilberto Gil, Roberto Carlos e Erasmo dizem que continuam defendendo seu direito à intimidade, mas que "querem afastar toda e qualquer hipótese de censura prévia".
Veja o vídeo publicado pelo Procure Saber:
"Não negamos que essa vontade de evitar a exposição da intimidade, da nossa dor ou da dor dos que nos são caros, em dado momento nos tenha levado a assumir posição mais radical", diz Roberto.
Gil completa: "Mas a reflexão sobre os direitos coletivos e a necessidade de preservá-los, nao só o direito à intimidade e à privacidade mas também o direito à informacao, nos leva a considerar que deve haver um ponto de equilíbro entre eles."
Os artistas ainda afirmam que confiam na capacidade do Poder Judiciário de encontrar esse equilíbrio e dizem ter sido sua intenção criar um grande debate sobre o tema. "O debate nos faz bem, nos amadurece, nos faz mais humanos, mais humildes", diz Gil.
Fonte: Notícias do Último Segundo: o que acontece no Brasil e no Mundo