REDAÇÃO DO ENEM: PADRÕES E RECLAMAÇÕES
Devo ganhar algumas inimizades de professores e alunos com o texto de hoje. Mas prefiro a polêmica que gera o diálogo à mesmice dos padrões. Sem conflito, sem discussão, sem quebra de paradigmas, ficamos sempre no mesmo lugar. E acho que essa forma de ver a educação não leva a nada.
Esperei passar pelo menos um dia em relação aos comentários ados sobre a prova do ENEM aplicada neste fim de semana. E pra variar, além das questões objetivas, muito se falou em relação à prova de redação.
Professores, alunos, especialistas, jornalistas, políticos: todos opinaram a respeito do tema proposto e das supostas fórmulas para "escrever bem" a temida dissertação.
Como começar, como desenvolver, como concluir, como argumentar?
Fórmulas são apresentadas, e por vezes até copiadas, para dar ao aluno a oportunidade de ir bem, pois o que importa mesmo é a pontuação. Havia aluno até com redação pronta e decorada. Foi isso mesmo que você leu: alunos decoraram redações inteiras sobre um tema específico para apenas copiar o texto na hora da prova.
E o Ministério da Educação divulgou o tema: "publicidade infantil em questão no Brasil". Praticamente nenhum especialista apostou nessa linha argumentativa para a prova do ENEM. Aí você já sabe, né? Choveram críticas! Falaram que foi uma prova política, uma prova feita para falar mal da imprensa, pra falar bem do governo, pra influenciar os alunos e por aí vai.
Estudantes criticaram na internet, professores passaram supostos "gabaritos" de redação e, como sempre, as mídias sociais geraram centenas de piadas a respeito. Reflita comigo: dá pra ter um gabarito de boa redação? Há como dizer que existe um gabarito, mesmo que seja apenas aproximado, de uma produção textual?
Percebo que estamos ensinando os alunos a serem meros reprodutores de ideias alheias; e não seres pensantes, reflexivos e participativos, efetivamente.
Devemos preparar os alunos para escrever em todos os tipos e gêneros textuais, por meio de qualquer tema, sem padrões tão rígidos e retrógrados. Nesse aspecto, minha visão é bem clara. Quanto ensinamos os alunos a simplesmente reproduzir fórmulas, menos eles entendem o que estão escrevendo. Quanto eles tentam escrever dentro de padrões pouco inteligentes, menos eles querem participar do processo educativo.
Diariamente, verifico a imensa dificuldade que os alunos de ensino superior têm para produzir textos. A maioria fica com medo de escrever, sempre pensando nas regras e nos padrões estruturais.
Penso em formar alunos que saibam transitar por todos os tipos e gêneros textuais, com criatividade e entendimento. Um bom texto argumentativo não precisa, apenas, seguir o padrão "introdução-desenvolvimento-e-conclusão" como se fosse uma ordem de "começo-meio-e-fim", para ser considerado bom. A estrutura dissertativa foi feita para persuadir e não para contar uma história.
Aristóteles já nos apresentou a arte da retórica, representada por exórdio, narração, provas e peroração. A intenção dessa estrutura era mexer com os sentimentos e paixões de quem está lendo ou ouvindo a argumentação. E isso pode ser feito de diversas formas e em inúmeras ordens. Não precisa ser algo rígido e com poucas alternativas. O bacana do texto é justamente a imprevisibilidade do estilo e do uso do idioma.
Por menos reprodutores de ideias alheias e por seres pensantes e reflexivos, eu volto a dizer: vamos parar de decorar, copiar e reclamar. Vamos viver, sentir e entender o que significa uma excelente produção de texto, de acordo com as intenções do autor e com o contexto de comunicação.
Por um Português vivo e dinâmico, com uso de criatividade e estilo, peço: façamos textos interessantes e menos padronizados!
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Fonte: Português de Brasileiro