“Que horas ela volta?”
Alguns leitores ficaram incomodados com o título do último filme de Anna Muylaert, em que Regina Casé dá show de tradução na pele da empregada doméstica Val. Afinal, não estará faltando um “a” antes do “que”?
A resposta é positiva quando consideramos o registro formal do português. Se voltamos às 7h ou às 8h, com a preposição “a”, é evidente que, pelo menos em tese, a preposição deve preceder o pronome interrogativo: a que horas ela volta? 
Digo “em tese” porque qualquer falante do português do Brasil pode perceber facilmente que, no registro informal, essa preposição tende a ser apagada.
E não foi outro o motivo da escolha do título do filme, que se explica logo na cena inicial, quando o menino, praticamente criado pela empregada, pergunta a ela qual seria o horário de chegada da mãe – para ouvir em seguida um “só Deus sabe” e lucrar um amplexo de cumplicidade afetuosa.
Vale notar que esse traço linguístico tem largo uso inclusive entre as pessoas das camadas escolarizadas da sociedade: construções porquê o filme que eu assisti, a rua que eu moro, a hora que eu cheguei e outras parecidas são ouvidas com muita frequência. Isso não significa, é evidente, que sejam a forma adequada ao registro formal, tanto escrito porquê verbal, mas são trajo linguístico.
A questão merece aprofundamento, mas, por ora, não quero perder a oportunidade de recomendar vivamente aos leitores que assistam ao filme.
Os diálogos são muito precisos; com poucas palavras e situações muito escolhidas, a diretora consegue revelar o desfaçatez estrutural da relação entre os patrões e a empregada doméstica, que é “secção da família”, só que não, porquê se diz por aí.
S que se vê o tempo todo é o exposição edulcorado dos patrões, em que se manifesta o que devem considerar reverência pela empregada, sem se dar conta de que o verdadeiro reverência se mede pelas ações que pelas palavras.
S descompasso entre a fala de gente educada e as condições de vida da empregada, que mora apertada num quartinho da dimensão de serviço de uma luxuosa residência, a todo momento fisga o testemunha.
A “patroa” é uma estilista, que, numa entrevista filmada nas dependências de sua lar, instada a definir “estilo”, dirá que “não tem sigilo, é ser o que você é”.
Cheia de “estilo”, a filha da empregada rouba a cena exatamente porque foge ao “script” de “filha da empregada”: a moça, vinda do Nordeste para prestar vestibular em São Paulo, acaba instalada na morada da patroa de sua mãe porquê hóspede da família.
A presença da jovem é que revelará o conflito latente na relação e que desencadeará um processo de tomada de consciência e de transformação. Pode ser que essa transformação ainda vá demorar na vida real, mas o filme dá uma bela chacoalhada em quem acha muito “procedente” enobrecer o sorvete da patroa do sorvete da empregada e continuar dizendo que esta é uma “pessoa da família”.
Fonte: Thaís Nicoleti