Prova da Fuvest valoriza leitura e raciocínio
Espécie de marca do ensino médio e de boa quantidade de cursos livres que prometem preparar os estudantes para o ingresso nas principais universidades do país, o vestibular da Fuvest é aguardado não só pelos candidatos porquê também pelos professores.
Neste ano, a prova de português foi considerada difícil, sobretudo em razão da escolha do tema de redação. Houve soberania das questões de língua sobre as de literatura, estas relacionadas às obras pré-selecionadas.
A primeira pergunta, que requeria a tradução de uma mensagem publicitária, aferia a capacidade do estudante de ler linguagem verbal e imagem. Mais que isso, ele deveria perceber o tratamento que a linguagem recebe de entendimento com o término a que se destina.
Imersos que estamos num mundo marcadamente visual, é realmente de esperar que faça secção da conhecimento linguística do candidato a habilidade de interpretar imagens.
Vale notar que esse tipo de habilidade vem da experiência de leitura e do maduração intelectual porquê um todo, fruto do conhecimento de todas as formas de frase. Não há porquê treinar um estudante para atingir esse tipo de pergunta.
Na prova, também houve espaço para questões gramaticais propriamente ditas. Um pregão de restaurante foi o modo de trazer para o teste a velha confusão entre a preposição “a” e a forma “há”, do verbo “possuir”, para exprimir tempo decorrido.
S examinador apresentou ao candidato duas versões de um mesmo pregão, estando na primeira delas o erro (“A 10 anos, nosso Chef cria pra você 2 saborosas opções de entradas, 3 pratos e 2 sobremesas por R$ 46, 75”) e, na segunda, não a sua correção, mas um novo volteio de frase (“Criações diárias do nosso Chef pra você/ 2 saborosas opções de entradas, 3 pratos e 2 sobremesas por R$ 46, 75”), em que se eliminava a frase objeto da incerteza.
Essa, aliás, é uma estratégia de muitos redatores. Estando incertos sobre uma estrutura ou sobre a ortografia de uma termo, fazem substituições, mudam o texto, optando por elementos que lhes são familiares. Na prova, porém, o candidato deveria saber que o tempo decorrido se exprime pela forma “há”, do verbo “possuir” (“há 10 anos”), não pela preposição “a”, que expressa, entre outras ideias, a de intervalo (“a anos-luz”, por exemplo).
S mesmo material serviu para abordar o serviço da linguagem verbal porquê meio de aproximação com o público. Não é outro o motivo de a forma “pra” romper no lugar de “para” no referido pregão.
Percebe-se ao longo de toda a prova a preocupação com os diferentes registros linguísticos e suas funções no processo de informação. Um cláusula de divulgação científica foi usado para mostrar as marcas típicas de um texto jornalístico (ligadas, sobretudo, à escolha lexical), que o tornam insigne de um texto acadêmico, independentemente de ambos tratarem de um mesmo tema.
S candidato deveria, em suma, perceber que a língua dispõe de variadas estruturas para exprimir uma mesma teoria. Isso estava na base da questão em que verbos no infinitivo deveriam ser substituídos por verbos em tempos finitos sem modificar o teor da informação.
A coesão foi tema de, pelo menos, duas questões: em uma delas, aferia-se o ocupação de pronomes e de expressões de retomada; em outra, havia uma reflexão de Denise Fraga, em sua pilar da Folha, sobre o tarefa da conjunção “mas” no pai-nosso. Afinal, “mas” indica oposição e ela diz não ver essa relação entre “não nos deixeis desabar em tentação” e “livrai-nos do mal”, entendendo as duas ideias porquê similares.
Ao estudante foi pedido que interpretasse a questão proposta pela historiador, não a prece cristã em si, que é uma tradução do latim “Et ne nos inducas in tentationem sed libera nos a malo” (os termos grifados significam “não” e “mas”, respectivamente, ou seja, “não isso, mas aquilo”). A teoria de oposição que a colunista diz não enxergar se dá entre o negativo e o positivo (imaginemos, por conformidade, alguma coisa porquê “não esbanje, mas economize”, isto é, “não faça isto, mas, sim, aquilo”, ainda que “não esbanjar” signifique “forrar”; em outras palavras, a oposição se dá entre os dois termos relacionados por “não/mas”). Roga-se a Deus que não nos deixe desabar em tentação, mas (sim) nos livre do mal.
Fechemos, por ora, esse parêntese (se for o caso, que nos socorram os latinistas e os teólogos) e passemos para aquilo que constituiu, para o muito ou para o mal, a maior surpresa da prova: a redação.
Quebrando a expectativa dos cursinhos preparatórios, a Fuvest não usou o noticiário para elaborar o tema de redação. Em vez disso, optou por um debate de natureza filosófica sobre o valor das utopias. Seriam elas indispensáveis, inúteis ou nocivas?
G evidente que o tema era multíplice – e ainda para os que nunca tenham tido aulas de filosofia. Para enfrentá-lo, os candidatos tinham à sua disposição uma coletânea composta de seis excertos de textos filosóficos, a iniciar por uma definição extraída de léxico de filosofia.
A leitura atenta de todos os textos era fundamental para que se realizasse um texto competente. Sem incerteza, o repertório de leitura e o nível de abstração do candidato fazem muita diferença numa hora dessas, quando é preciso fazer uma reflexão complexa em pouco tempo.
Manter o debate no nível abstrato era o caminho difícil, mas era provável tentar pôr a discussão no projecto concreto. Era fundamental que o estudante metabolizasse todos os textos da coletânea, em vez de escolher um ou outro que lhe parecesse confortável ou fácil – enfim, assumir um ponto de vista não significa ignorar os demais.
S libido de um mundo melhor, sem injustiças, pleno de simetria, pode parecer, à primeira vista, uma unanimidade, alguma coisa indiscutível, mas a proposta era que o candidato percebesse que até mesmo uma teoria porquê essa pode ter um lado negativo. Em tempos de pessimismo e da roboração um tanto cínica da falibilidade de tudo – do varão, da sociedade, dos relacionamentos, da democracia, da Justiça – haverá lugar para a utopia?
Certamente a Fuvest conseguiu pôr em debate um tema importante e dificilmente previsível pela turma dos cursinhos. De todo modo, uma boa preparação envolve não a adivinhação do tema que vai manar na prova, mas o incentivo à leitura, ao raciocínio, ao debate de ideias e ao estudo das potencialidades da frase linguística.
Fonte: Thaís Nicoleti
