Porque a privacidade não é apenas um direito individual

Submarino USS Jimmy Carter
É impossível não falar sobre privacidade. Dos detalhes sobre a espionagem internacional americana à regulação sobre biografias no Brasil, só se fala nisso. Mas na prática são assuntos bastante diferentes. Meu foco hoje é sobre a atitude “caiu na rede é peixe” que muitos, inclusive as vítimas de invasão de privacidade, parecem adotar.
Mesmo com as comprovações de que o governo britânico e americano, por exemplo, grampeiam há décadas cabos de telecomunicações intercontinentais (http://www.theguardian.com/uk/2013/jun/21/gchq-cables-secret-world-communications-nsa), parece haver uma indiferença no ar com observações do tipo: “todo mundo sabia que isso era feito” ou “não há nada o que fazer”. Esse tom desinteressado é muito perigoso, pois pode gerar uma percepção de que há uma indiferença generalizada em relação à privacidade. Se as pessoas não se importam, qual é o problema, certo?
A tese do caiu na rede é peixe diz ou menos o seguinte: se você não quer ter sua privacidade invadida, porque você está na internet? Ou: porque você publica suas informações pessoais nas redes sociais? Ou do discurso de governos superpoderosos: para proteger-nos de ameaças, vamos sugar todos os dados que pudermos, independente de onde eles estejam e a quem pertençam. Para resolver o problema da invasão de privacidade, segundo essa mentalidade, basta desplugar-se.
Realmente, os jovens parecem não se preocupar por enquanto. A exposição total na redes sociais não incomoda. Mas à medida que a carreira começa a pesar na escala de prioridades, gerenciar o que está disponível sobre você fica cada dez importante.
Riscos do fim da privacidade
Mais do que uma escolha pessoal, a proteção da privacidade é uma direito da sociedade. Eis aqui alguns motivos:
O governo (qualquer governo) não deve saber sobre o que você está conversando seja na internet ou fora dela. No momento vivemos em um regime democrático. Mas e se esse não fosse o caso? E se a situação mudar? Queremos que o governo saiba que estamos nos organizando para retomar a democracia?
Seguradoras (de saúde, acidentes etc.) não podem saber da sua vida. A ANS (Agência Nacional de Saúde) proíbe qualquer aumento individual do preço do plano de saúde, mas as seguradoras podem se negar a aprovar determinados procedimentos individualmente. Além da espinagem generalizada, há quem entregue seus dados de saúde pessoais voluntariamente. O que nos garante que empresas como 23andme (https://www.23andme.com/) não “compartilham” suas informações genéticas com empresas de saúde ou o governo?
Jornalistas que estão investigando casos de corrupção no governo podem ter as comunicações com as suas fontes interceptadas. Suas fontes seriam comprometidas. Sabendo que estão sendo monitoradas, as fontes sequer procurariam os jornalistas para passar informação. O resultado disso é uma imprensa menos efetiva e a sociedade fica sem saber o que é feito às escondidas no governo.
Você não é responsável apenas pelas suas informações individuais, mas também pelas profissionais, se trabalha em uma empresa. Através das informações sobre você é possível que concorrentes descubram dados sobre a empresa onde você trabalha. Espionagem industrial pode começar pelos funcionários. A descoberta de senhas de acesso a sistemas da empresa é um dos riscos.
Assim, garantir o direito individual à privacidade traz benefícios não apenas ao indivíduo mas também à sociedade.
Fonte: iG Colunistas - Click