Pequeno glossário IPCCês-português

Escultura do artista plástico Isaac Cordal ilustra a discussão do acordo do clima (Imagem: Divulgação)
A ÚLTIMA GRANDE reunião para a confecção do 5 relatório de avaliação do IPCC (painel do clima da ONU) termina hoje em Berlim, e tudo indica que será em clima de certo desânimo. O tomo do grupo de trabalho 3 da entidade, que fala de cortes de emissão de gases-estufa e outras formas de mitigação do aquecimento global, não traz notícias nada boas.
Em reportagem sobre a abertura do encontro, delineamos o conteúdo do “sumário para formuladores de política” do relatório, com base em uma cópia do documento que vazou para a imprensa há alguns meses. O texto final desse documento é o que será definido hoje, após representantes de governos debaterem o conteúdo os autores do relatório.
As conclusões principais do documento, que dificilmente devem mudar, possuem certo tom derrota. Enquanto o quarto relatório do IPCC, de 2007, se dedicou em grande parte a delinear o que seria preciso fazer para evitar um aquecimento médio de 2°C do planeta, o relatório atual reconhece tacitamente que praticamente já não há tempo para tal.
O LIMITE DE 2°C
A obsessão dos estudiosos do clima com esse limite –ou seja, o acréscimo de 2°C na temperatura média do planeta em relação à que existia na era pré-industrial– é compreensível. Existe um consenso razoável de que além disso, é provável que a mudança climática afete em algum grau cada aspecto de nossa economia: água, saúde, produção de alimentos, ocupação da terra, energia, crescimento econômico e até segurança.
O IPCC afirma que seu relatório “não recomenda metas específicas de mitigação, mas avalia as opões disponíveis”. É importante o painel esclarecer que não pretende interferir em decisões dos governos e reconhecer a soberania de quem tem mandato para tal. Mas, na prática, sua mensagem aos governos é algo como: “esta é nossa última chance, e só há um caminho a seguir”.
CONCENTRAÇÃO DE CO2
Esse caminho significa cortar emissões rápido para manter a concentração de CO2 abaixo de 480 ppm (partes por milhão) no final do século. Já estamos em 400 ppm, e subindo rápido, o que torna isso uma missão praticamente impossível, porque o dióxido de carbono se acumula na atmosfera com grande rapidez. Mas é só nesse caso que o evitar o aquecimento perigoso se torna um objetivo “provável”. Falando em IPCCês, isso quer dizer uma chance maior que 66%.
Uma outra opção,–mais arriscada mas um pouco realista, dado o andar da carruagem– é segurar a concentração abaixo 530 até 2100. Isso faz com que a chance de ficar abaixo dos 2°C seja “mais provável do que improvável”, ou seja, maior que 50%. Isso seria equivalente a definir o futuro do clima terrestre no cara-ou-coroa. É ruim, mas aparentemente é o melhor que seremos capazes de fazer. Mesmo assim, não poderíamos exceder o limite de 530 ppm em nenhum momento deste século, mesmo que o baixássemos depois.
O PREÇO
O IPCC determina até mesmo um preço para tal. Seriam precisos US$ 147 bilhões por ano de investimento em energia renovável até 2030, e “várias centenas” de bilhões investidos em eficiência energética. É caro, mas levemos em conta que os prejuízos de uma mudança climática acentuada seriam muito maiores, como sugere o relatório do grupo 2 do IPCC. É o mantra “mitigar é barato que adaptar”. O valor de US$ 147 bilhões também não inclui o “desconto” que receberíamos por cortar US$ 30 bilhões anuais de investimento em combustíveis fósseis.
Na prática, em termos de quantidade de CO2 jogada no ar, esse investimento serviria para reduzir as emissões globais de 40% a 70% antes de 2050. Isso nos dá a impressão ilusória de que temos tempo suficiente. Na conta do climatólogo americano Michael Mann, porém, se negligenciarmos o problema, temos a possibilidade de selar a ruína de nosso sistema climático já em 2036.
O (DES)ACORDO
A parte desanimadora da história é que qualquer uma das opções de corte listadas acima requer um esforço maior do que aquele empenhado atualmente nas negociações globais para o próximo acordo do clima. No novo relatório há uma crítica ao “Compromisso de Cancún”, o estagio atual das negociações de um possível acordo global para reduções de emissões.
“O Compromisso de Cancún para 2020 é maior do que os níveis de emissão de gases do efeito estufa vistos nos cenários que atingem concentrações de CO2 entre 430 ppm e 530 ppm em 2100 sob os menores custos globais”, afirmará o IPCC amanhã cedo, se esse trecho do relatório vazado não for modificado. O painel também alerta que o Compromisso de Cancún “corresponde a cenários que explicitamente adiam a mitigação até 2020 ou além”.
O relatório divulgado amanhã, porém, trará um conteúdo muito maior do que a discussão de metas de emissões. Ele separa todos os cenários de emissões por setores da economia e por grupos de países. Isso deve tornar organizada a tarefa de projetar planos nacionais e um eventual acordo global para corte de emissões. Mas a mensagem principal continua sendo a de impor limites ao que se pode fazer com o clima do planeta. Essa é uma conta difícil de fazer, e só a estrutura do IPCC pode estabelecer algo próximo de um consenso científico, ainda que a margem de incertezas permaneça alta.
Fonte: Teoria de Tudo