Paz no trânsito, internet em guerra

Brigas de trânsito certamente existem desde que existe o trânsito. Na lendária história de Édipo, o herói mata seu desconhecido pai biológico por terem se desentendido sobre quem deveria atravessar primeiro um cruzamento (benditos sejam os semáforos!). Quando as circunstâncias me tornaram um indivíduo habilitado a dirigir e poluir, época em que morava ainda com meus pais, as despedidas maternas sempre continham algo como "evite discutir", caso eu fosse sair de carro. Não que eu fosse um brigão inveterado nem que minha mãe levasse a sério a história grega, mas parece que, àquela época, era comum que um pequeno descuido na direção - como uma seta não ligada ou uma conversão menos elegante - resultasse, no mínimo, em generosas homenagens de algum motorista impaciente.

Claro que, em sã consciência, ninguém diria que o trânsito das nossas grandes cidades atingiu a plena paz. No entanto o clima de guerra parece ter se amenizado - a ponto de, nas frequentes visitas que faço à minha mãe, ela ter aberto mão de recomendar calma e tolerância. As hipóteses são muitas: a popularização do ar-condicionado automotivo (mantendo os vidros sempre fechados), os congestionamentos monstruosos (limitando a possibilidade de manobras ousadas) e outras que podem ser aventadas. Entre todas, porém, defendo convictamente que devemos muito da paz no trânsito à agressividade nas redes sociais.

O raciocínio é simples: ninguém deixa de ser o pacato Sr. Walker, cidadão de bem de inteligência razoável, e se transforma no agressivo Sr. Wheeler apenas pelo fato de tocar o volante. Em vez disso, parece sensato acreditar que as circunstâncias do trânsito favorecem a manifestação de uma agressividade aparentemente dominada, mas, na verdade, pronta para explodir na melhor ocasião. Curiosamente, porém, parece que as ruas têm hoje as redes sociais como concorrentes para essa "sessão descarrego".

Em redes como Facebook e Twitter, a maioria dos contatos não são de fato amigos, mas pessoas que se conhecem "em trânsito". É aquela pessoa do departamento ao lado com quem se troca um "bom dia" vez ou outra, ou aquele amigo da 6ª série que nunca tinha sido visto, ou ainda aquele primo do amigo com quem se conversou sobre trivialidades em um churrasco de domingo. Apelando para o sociólogo Zygmunt Bauman, são as "relações líquidas": as redes são formadas por elos muito frágeis, que se fazem com a mesma facilidade que se desfazem.

Assim, tal como quem ofende o motorista do carro ao lado, quem faz comentários grosseiros e agressivos em uma rede social normalmente não agride um amigo, uma pessoa próxima. O contato fugaz com o outro, como no trânsito, propicia uma descarga de energias negativas sem muita exposição - ou pelo menos sem a sensação de estar se expondo. Acabado aquele momento efêmero, é comum que os debatedores nunca se vejam. É como acelerar e ir embora, dobrar a próxima esquina e desconectar.

Minha hipótese então é a de que estejamos descarregando nossa bestialidade em outro lugar. Mais seguro, embora ainda público que a rua. E fico pensando que talvez muitos de nós estejam aproveitando a fugacidade dos contatos virtuais, tão breves quanto o intervalo de um semáforo, para compensar a inação diante dos reais monstros que nos afligem - seja o comunismo, seja o capital. Talvez algumas pequenas brigas virtuais sejam um modo mesquinho de combater a frustração pelas grandes batalhas que não conseguimos enfrentar - seja contra a "friendzone", seja contra o patriarcado. Em todo caso, desde que passei a relacionar figuras como Roger Moreira do Ultraje a Rigor aos valentões do trânsito, não consigo deixar de ouvir o conselho de mãe: "Cuidado, você nunca sabe com quem está lidando". Devo admitir: mães sabem das coisas.

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Fonte: Blog no Brasil Post