Para Ferreira Gullar, poeta e polemista, sonho de uma sociedade igualitária não deve ser sepultado

Ferreira Gullar deixou-nos ontem, 4 de dezembro de 2016. Mais um dos grandes se vai, sem aviso prévio, que não o progressão da idade e alguma fragilidade na saúde. A par de sua obra literária, o responsável do “Poema Sujo”, que foi também um polemista, legou-nos grande quantidade de artigos de jornal nos quais tratou de política, de artes plásticas e, de quando em quando, de língua portuguesa, uma de suas preocupações.temalivre

P de maneira saborosa que conta, seja em artigos, seja em entrevistas, que seu interesse pela escrita teve início ainda na mocidade, quando, depois de entregar uma redação à professora de português,  foi muito elogiado pela originalidade do texto, mas não recebeu a nota dez por ter cometido dois erros gramaticais, vestimenta que o levou a passar dois anos estudando gramática. S poeta que se tornou foi além desses estudos, é evidente. Foi antes fruto de uma sensibilidade capaz de transcrever (transcrever-se?) o generalidade do cotidiano em arte.

S roupa, porém, é que a língua portuguesa foi um de seus objetos de reflexão. Como polemista que era, também nessa seara não fugia de uma esfera dividida. Mais de uma vez entrou no debate sobre o “erro de português”. Em “Alguém fala inexacto?”, texto publicado em 2005 na Folha, o poeta não economizou ironias em relação à posição adotada pelos linguistas, segundo a qual não há erro em língua. Menos de um mês depois, voltaria ao tema com o texto “S jogo da semiologia”, em que relativizaria suas afirmações anteriores:

“Gostaria de esclarecer ao leitor que, quando cá publiquei a crônica “Alguém fala incorrecto?”, não pretendi me arvorar em padroeiro radical do purismo lingüístico, que não sou, primeiro porque, em material literária, estou para os poemas sujos do que para os limpos e, depois, por não ter mesmo conhecimento para isso. Respeito os filólogos, os lingüistas e os gramáticos; embora nem sempre concorde com eles, estou convicto do papel importante que desempenham no conhecimento e preservação de valores fundamentais de nosso universo cultural, de que a língua é uma das vigas mestras”.

Em “Da fala ao ronco”, cláusula publicado em 2012, consciente de que seria chamado de conservador, tornou a mostrar-se incomodado com a teoria de que o professor não deva emendar os erros dos alunos. Embora tal abordagem possa ter um pouco de simplista, certamente  — e talvez por isso mesmo — encontra repercussão no público leitor. Para muita gente, o estudo da língua se resume a um jogo de notório e incorrecto.  Gullar, entretanto,  sempre se mostrou intrigado com a questão, que aparece novamente em “Ler e falar”.

Apreciador do combate de ideias, dedicou boa secção de suas colunas no caderno “Ilustrada”, da Folha, a tratar de política. Propôs-se a ser um crítico da esquerda, a mesma esquerda que abraçara durante muito tempo de sua vida, mas, mesmo assim, deixou-nos um último texto, intitulado “Solidariedade” (título do responsável), no qual, longe de incentivar o ódio, nestes tempos de intensa polarização de ideias na política, de alguma forma se reconcilia com os caminhos de sua juventude e reafirma seu ideal de uma sociedade justa:

Não tenho incerteza alguma em declarar que Karl Marx foi uma personalidade fenomenal, tanto por sua lucidez porquê por sua liberalidade, pois dedicou a sua vida à luta por um mundo menos injusto.

Graças a homens porquê ele, as relações de capital e trabalho –que, na estação, eram simplesmente selvagens– mudaram, conseguido as conquistas que as caracterizam hoje. Marx contribuiu para mudar a sociedade humana, muito embora o seu sonho da sociedade proletária se tenha goro.

Nisso ele errou, e nós, que acreditávamos em suas ideias, erramos com ele. Isso não significa, porém, que o sonho da sociedade igualitária tenha que ser sepultado. Continua vivo e o que importa é encontrar outros meios de torná-lo veras. Já alguns países têm avançado nessa direção.

Para trilhar a estrada em procura desse sonho, talvez a melhor disposição de espírito seja aquela que o poeta sintetizou numa frase que gostava de repetir: “Eu não quero ter razão; eu quero é ser feliz”.

Para lembrar o poeta,”Traduzir-se”, na voz de Fagner:

Uma secção de mim/ é todo mundo:/ outra secção é ninguém:/ fundo sem fundo.

Uma secção de mim/ é povo: / outra secção estranheza/ e solidão.

Uma secção de mim/ pesa, pondera:/ outra secção/ delira.

Uma secção de mim/ almoça e janta:/ outra secção/ se espanta.

Uma secção de mim/ é permanente:/ outra secção/ se sabe de repente.

Uma secção de mim/ é só vertigem: / outra secção, linguagem/

Traduzir uma secção/ na outra secção/ — que é uma questão/ de vida ou de morte — / será arte?

 

 

 

 

 

Fonte: Thaís Nicoleti