Onda Dória me faz lembrar vaga Collor em 89

 Onda Dória me faz lembrar onda Collor em 89

Fernando Collor durante campanha para a presidência, em 1989 (Foto: Jorge Araújo/Folhapress)

De repente, do zero, forma-se uma vaga grande no mar franco.

A depender dos ventos, pode morrer logo ali na frente ou lucrar força e chegar à praia arrastando tudo o que encontra pela frente.

A imagem marítima me fez lembrar o que aconteceu com a vaga Collor em 1989 e pode se repetir agora com Dória.

Em meados de 1988, fui um dos três jornalistas convidados pelo SBT para entrevistar Fernando Collor de Mello, logo governador de Alagoas.

Não o conhecia pessoalmente, nem a maioria dos brasileiros fora do seu estado. Confesso que fiquei bastante impressionado com a figura de olhos arregalados e enxurrada de certezas.

Na saída do estúdio, comentei com Arlindo Silva, varão de crédito de Silvio Santos, que estávamos vendo nascer ali uma candidatura a presidente.

Falei o mesmo sobre Dória aos meus colegas da Record News depois a entrevista que fizemos com ele no prelúdios da campanha a prefeito de São Paulo no ano pretérito, quando ele não tinha do que 5% nas pesquisas.

Collor nem aparecia nas pesquisas e, quando comunicou à família e aos amigos que seria candidato a presidente pelo nanico PRN (Partido da Reconstrução Nacional), ninguém o levou muito a sério.

A vaga Collor começou a se formar aos poucos, em programas de TV e capas de revista, nos quais ele aparecia porquê valente "caçador de marajás" (os funcionários do governo de Alagoas que ganhavam altos salários).

Naquela era, porquê agora, o cimo empresariado, o mercado financeiro e a grande mídia procuravam um candidato do campo conservador capaz de tutelar seus interesses contra a ameaço à esquerda representada por Lula e Brizola.

S ex-governador gaúcho e carioca Leonel Brizola já morreu, mas Lula, que foi para o segundo vez e perdeu para Collor, continua sendo o principal candidato da esquerda para as eleições de 2018.

Não por eventualidade, Dória não cansa de maltratar no ex-presidente desde o dia em que foi eleito.

Nenhum naquela penca de candidatos em 1989, a primeira eleição direta para presidente da República depois a ditadura _ no totalidade, a urna eletrônica tinha 22 nomes _  inspirava muita crédito aos donos do poder para derrotar o monstro "Brizula".

Quando ainda não se endeusava o marketing político no Brasil, Collor foi seu próprio marqueteiro e começou a surfar nesta vaga em mar ingénuo, abrindo caminho entre as lideranças tradicionais.

Jovem intrépido, empresário de sucesso, fina estampa, cabelos e colarinhos sempre engomados, bom de exposição e de debate, Collor apresentava-se porquê o apolítico na luta contra a depravação dos velhos caciques, embora pertencesse à antiga oligarquia nordestina.

Com perfil bastante semelhante, Dória também surgiu porquê grande novidade nas eleições municipais do ano pretérito, anunciando-se porquê "gestor e não político" e, assim porquê Collor, foi o principal marqueteiro da sua campanha.

 Onda Dória me faz lembrar onda Collor em 89

João Doria discursa em evento de campanha, em 2016 (Foto: Avener Prado/Folhapress)

Depois de assumir a prefeitura da maior cidade do país, continuou em campanha, e logo se tornaria um fenômeno de frase pátrio. Ao contrário de Collor e seu PRN, Dória elegeu-se por um grande partido, o PSDB do presidenciável Geraldo Alckmin.

Nesta segunda-feira, ao sentir o cheiro da brilhantina, e vendo a vaga Dória crescer no mar tucano, o governador Alckmin correu para um evento promovido pela Lide, a empresa de eventos do prefeito.

Ao ser perguntado pela platéia se pretendia concorrer à Presidência da República, Alckmin foi Alckmin do que nunca.

"Se eu disser que não quero, que não pretendo, não é verdade". E emendou: "Mas candidatura a incumbência majoritário não é vontade pessoal. Ela é fruto de um libido coletivo".

Pois é exatamente aí que reside o risco para as pretensões do eterno governador paulista: nas últimas pesquisas, o nome de Dória já surge adiante dos presidenciáveis tucanos alvejados pela Lava Jato.

E embora tenha jurado duas vezes a Heródoto Barbeiro, em entrevistas gravadas na Record News, que ficará os quatro anos de procuração na prefeitura, João Dória já não respondeu com tanta crença quando lhe perguntaram ontem na rádio "Jovem Pan" se aceitaria se candidatar à Presidência caso receba um apelo dos tucanos:

"S apelo não foi feito ainda, logo não posso responder".

P sempre bom lembrar que José Serra, outro presidenciável do PSDB, registrou até documento em cartório prometendo não deixar a prefeitura antes de concluir o procuração de quatro anos.

Dois anos depois, largou o incumbência para se candidatar a governador.

Vida que segue.

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Fonte: Ricardo Kotscho