O espetáculo da ciência

Juliano Pinto usa o exoesqueleto robótico para dar o pontapé inicial da Copa (TV Globo/reprodução)
O NEUROCIENTISTA Miguel Nicolelis trabalhou duro nos últimos meses produzindo a interface cérebro máquina e o exoesqueleto usados pelo jovem paraplégico que deu o pontapé inicial simbólico na abertura da Copa. Trabalhou, porém, num ambiente de segredo, o que gerou um bocado de desconfiança. O feito a ser mostrado no Itaquerão seria só uma encenação para fins de espetáculo ou seria a demonstração real de um avanço científico relevante?
O pontapé inicial, finalmente, foi executado pelo jovem Juliano Pinto, 29. Como espetáculo, o evento decepcionou um pouco. Quanto à ciência, pode ser que haja motivo para comemoração, se Nicolelis adotar transparência com a imprensa e com a comunidade científica a partir de agora. Seria interessante ver detalhes de uma tecnologia cuja eficácia só foi demonstrada com imagens ambíguas.
É verdade que a frustração sobre a apresentação no Itaquerão foi em grande medida culpa da TV, que mostrou poucos segundos de filmagem. Mas a extensão do avanço científico representado pelo feito ainda é uma incógnita.
A promessa inicial de Nicolelis era a de usar eletrodos implantados no cérebro de um voluntário vítima de lesão medular para que este realizasse movimentos precisos com as pernas. Ilustrações de divulgação do projeto mostravam uma paraplégica entrando em campo numa cadeira de rodas, levantando-se dela, caminhando até a bola no meio do campo e chutando-a.
Hoje, pelas imagens de TV e fotos na internet, o que se viu foi um rapaz vestindo uma armadura pesada, apoiado por duas pessoas, chutando levemente uma bola posicionada bem à sua frente, na lateral do campo. Juliano não andou até lá. Foi levado por um carrinho motorizado.
Antes do início de Brasil x Croácia, Nicolelis já comemorava o feito, em inglês, no Twitter: “We did it!” (Nós o fizemos!). No Facebook, começou a despejar vídeos das sessões de teste do exoesqueleto em seu laboratório em São Paulo, realizadas nas últimas semanas. As imagens mostravam alguns voluntários movimentando as pernas e se deslocando, mas com pouco controle motor, pendurados numa espécie de guindaste. Alguns voluntários dão depoimentos emocionados.
SINTONIA FINA
Não é exagero dizer, porém, que a proposta de controle fino dos movimentos, a rigor, ainda não foi demonstrada. Nicolelis pode argumentar que ofereceu uma prova de princípio da viabilidade de sua tecnologia, e que o controle preciso é uma meta futura. Mas atingir um controle fino de movimentos não é apenas um avanço incremental neste caso. É a diferença entre vermos uma pessoa controlando uma prótese robótica e uma prótese robótica controlando uma pessoa, conforme argumentei aqui.
Provavelmente Nicolelis atingiu algum avanço no desenvolvimento do exoesqueleto, mas não está claro o quanto isso significa diante da meta de fazer uma pessoa paralisada “andar de novo”. Chutar uma bola a 15 cm de distância equilibrado por duas pessoas é uma tarefa relativamente simples comparada à promessa inicial de caminhada independente e chute controlado.
Juliano usava uma touca de captação de eletroencefalografia conectada à veste robótica, em vez de uma interface com eletrodos conectados ao cérebro, originalmente prometida pelo cientista. A tecnologia invasiva, dizia Nicolelis, proporcionaria precisão. A razão da mudança nunca ficou muito clara. O cientista nunca mencionou se houve receio de tentar aprovar às pressas no Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) o uso de eletrodos invasivos em seus voluntários.
Com uma bola colocada junto a seu pé, talvez fosse fácil Juliano chutá-la do que fazer qualquer outra coisa. Será que um sinal de eletroencefalografia truncado, ou mesmo um ruído, poderia desencadear um chute depois de algumas tentativas? Nicolelis teve chance de afastar esse ceticismo sobre o mérito da demonstração no Itaquerão, mas não o fez. Conduziu toda a fase de testes humanos de seu exoesqueleto sem publicar qualquer relato formal sobre o desempenho da tecnologia. Diferentemente do que é praxe na comunidade científica, o projeto Andar de Novo foi transformado numa demonstração teatral antes de ser avaliado por outros cientistas.
Mas, se Nicolelis realmente atingiu o objetivo inicial do projeto, terá muitas oportunidades de dobrar a língua dos céticos. Terminado o jogo de abertura, não há a pressão do prazo e a necessidade de guardar surpresas para festa nenhuma. Seria de bom tom, para um projeto que consumiu R$ 33 milhões em investimento público, começar a submeter artigos científicos a periódicos de prestígio, que coloquem cada detalhe sob questionamento de revisores. Uma entrevista coletiva e uma visitação a seu laboratório aberta à imprensa crítica também seriam um gesto desejável.
Uma regra sagrada da metodologia científica, refraseada pelo astrônomo Carl Sagan, indica que “alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias”. Sob este mandamento, Nicolelis ainda está em dívida com a comunidade científica e com o público.
Fonte: Teoria de Tudo