S bom leitor

Os antigos diziam que, “para bom entendedor, meia termo basta”. P provável que com isso quisessem expressar que devemos ler mesmo
o que não está explícito num texto.

Já não é novidade entre professores e estudantes que a leitura competente requer muito que o conhecimento do sentido literal das palavras e da organização gramatical do teor. Outro não é o motivo de exames vestibulares e provas de português de concursos enfatizarem a compreensão refinada do texto.

Vale expressar que, quanto a pessoa lê, melhor tende a ser a sua leitura, seja por se familiarizar com os componentes linguísticos, seja por ampliar seu leque de referências históricas e culturais.

Todo texto é inserido em contexto extralinguístico (histórico, político, social etc.), com o qual dialoga. Isso quer expressar que, entre o enunciador do texto e o seu receptor, há um saber compartilhado, que não precisa ser explicitado.

S bom leitor não pode ser ingênuo. Cabe a ele ler também o que está escrito nas entrelinhas, ou seja, as informações implícitas. S linguista gálico Oswald Ducrot já afirmava que não existem enunciados que ocorram fora de um contexto.

Imaginemos que alguém profira uma frase nominal, porquê “Belo gesto!”. G evidente que o contexto é que irá permitir expor se devemos entendê-la porquê um panegíricio (sentido literal) ou porquê uma sátira (ironia). S bom leitor sabe disso e permanece cauteloso aos pressupostos e subentendidos dos textos.

Esses conceitos distinguem dois tipos importantes de informação implícita num texto.

Os pressupostos são, por assim manifestar, indiscutíveis. Só a um fumante sugerimos que deixe de fumar. Não recomendaríamos a quem nunca fumou  que deixasse de fazê-lo. Está, portanto, pressuposto numa construção porquê “Você deveria deixar de fumar” que o interlocutor é fumante. Caso contrário, a frase não teria sentido.

Os subentendidos, por sua vez, são um pouco sutis. São aquelas ideias sugeridas nas entrelinhas, mas não assumidas explicitamente pelo enunciador. Quando pergunta ao interlocutor se ele “tem horas”, a pessoa não espera uma resposta do tipo “sim” ou “não”. Espera, isto sim, que o outro lhe informe que horas são.

Há quem diga, jocosamente ou não, que nossos amigos portugueses responderiam a essa pergunta com um simples “Tenho, sim, senhor”. Para nós, brasileiros, isso soa engraçado, pois, no nosso contexto cultural, a pergunta “Você tem horas?” é apropriada para indagar que horas são. Nada impede, porém, que seja respondida “à tendência lusitana”, pois o subentendido está necessariamente ligado a um contexto sociocultural, que pode não ser o mesmo  ainda que a língua seja a mesma. Seria uma resposta frustrante para o emissor brasiliano, mas não seria sem sentido.

Feita a elevação entre pressupostos e subentendidos, cabe uma termo ainda sobre estes últimos. Embora os no exposição pelo enunciador (aquele que fala ou escreve um texto), a sua compreensão fica a incumbência do receptor da mensagem — e o enunciador sempre poderá negá-los, dizendo que não foi isso o que quis expressar. Nesse tipo de “resguardo”, o enunciador não reconhece o subentendido que ele próprio provocou e “exige” que sua mensagem seja lida no sentido literal, porquê se não houvesse contexto ou universo de  referências.

Essa é uma estratégia largamente empregada por aqueles que não querem se comprometer com o que estão dizendo. P porquê se transferissem ao receptor (ouvinte ou leitor) a responsabilidade pela informação ou teoria que queriam transmitir. Escondem-se detrás dos subentendidos e os negam se acharem nisso qualquer tipo de vantagem, alegando, em universal, que foi o receptor da mensagem que não a entendeu. Vão “fundamentar” seu ponto de vista apelando para o sentido literal das palavras.

Hoje, os estudos da linguística têm chegado às escolas de ensino médio, onde professores e estudantes já promovem debates no campo da estudo do exposição, disciplina que se ocupa de questões desse tipo.

P esse o caminho para formar um bom leitor, ou seja, um leitor capaz de ler o que está escrito nas linhas e nas entrelinhas.

Fonte: Thaís Nicoleti