Novos significados para amar e cuidar
A capacidade de locomoção não é a de outrora, assim como as palavras ditas já não são frequentes. À vida do ex-professor Afonso Mota, 94, o Alzheimer chegou sem aviso há 10 anos. Desde então, as limitações anunciam-se donas das próprias vontades, e conviver com a demência é um aprendizado diário. Para ele e para a família.
Junto da esposa Avanir Mota, 85, a prerrogativa de que amar é cuidar ganha outros significados. Estão no toque das mãos, no olhar, na entrega sem pedir nada em troca. É assim que ela devota o bem-querer pelo marido, numa relação que, conforme faz questão de dizer, já dura 59 anos de muito amor.
"Certo dia, estávamos numa reunião familiar e ele disse: 'estou sentindo um mal-estar horrível na cabeça. Cuide de mim, porque se fosse o contrário faria tudo por você'. Eu respondi: 'não se preocupe'. Fomos a um neurologista, ele fez os exames e, depois do diagnóstico de Alzheimer, começamos o tratamento", lembra a aposentada.
Apoio capacitado
Entretanto, após os primeiros cinco anos cuidando de Afonso, Avanir percebeu que precisava de apoio profissional. A orientação para as atividades cotidianas ela já tinha, mas foi o neurologista quem a aconselhou a procurar um cuidador.
Afinal, é ele a pessoa habilitada para oferecer os cuidados durante a progressão da doença, orientando a família e adaptando os cuidados à dependência do idoso.
Conheceu, então, o técnico em enfermagem Márcio Júnior, 28, que acompanha Afonso há quase oito anos. A profissão de cuidador foi descoberta por ele com naturalidade. Já no primeiro emprego, acompanhou por dois anos um idoso que havia sofrido um AVC e tinha Mal de Parkinson.
De lá para cá, dedica-se exclusivamente aos cuidados com "Seu Mota", como chama o paciente-amigo, e está prestes a concluir a graduação em Enfermagem. Segundo ele, aprimorar conhecimentos técnicos e científicos é vital, especialmente no caso de quem presta assistência a idosos com demências.
"O cuidador, além de querer bem ao paciente, tem de se identificar com ele. Não é só cuidar, mas, de fato, estar com ele. O Alzheimer tem suas fases e temos de estar por perto. Não podemos deixar o paciente sozinho", revela.
Rotina
No dia a dia, os cuidados vão do asseio à medicação, das refeições ao repouso. Márcio está com Afonso todos os dias das 7h às 17h30, e reveza o trabalho com duas cuidadoras. Semanalmente, o paciente recebe também a visita de fisioterapeuta, fonoaudióloga e nutricionista.
Nos momentos em que está interagindo, o cuidador aproveita para, além dos afazeres convencionais, propor atividades que garantam qualidade de vida ao paciente. "Assim que cheguei, íamos caminhar na Beira-Mar, tomar água de coco. Hoje, está difícil fazer esse tipo de atividade, então tentamos conversar, ler, fazer algo diferente", conta.
Atenção
O trabalho não acaba com o fim do expediente. "Vou para casa, mas pensando no próximo dia, no que posso fazer para tentar tirar um sorriso do rosto dele, ou para que ele tente interagir de alguma forma como antes, o que sei que é difícil. Quando o paciente adoece, o cuidador sofre. Não só pela doença, mas por não poder fazer nada pelo paciente. É uma situação muito complicada", considera.
Por outro lado, a presença do cuidador é vital em emergências. Com Afonso, Márcio já teve de prestar os primeiros socorros duas vezes antes de o paciente chegar bem ao hospital. Ele ressalta que, muitas vezes, o diálogo entre cuidador e médico pode ajudar a diagnosticar problemas: "Afinal, o cuidador é quem passa o dia a dia com ele. Passar uma informação exata ao médico pode contribuir para o tratamento adequado".
A relação de proximidade, por sua vez, deve se estender aos familiares. "O paciente que é bem cuidado sente falta do cuidador e, quando há maus-tratos, a própria família percebe uma clara mudança de comportamento. O bom relacionamento entre paciente, família e cuidador é extremamente importante para a saúde do idoso", diz o cuidador.
Amparo necessário
Para Márcio, o trabalho vale a pena quando, em um aniversário, "Seu Mota" interage com os familiares. "Umas cinco vezes por mês, quando ele acorda cedo e está bem, começa a falar. Pego o meu celular e ligo para os três filhos dele, dizendo: 'olha, o seu pai está ótimo. Falem com ele'. Fico emocionado, é gratificante".
A presença de um cuidador, destaca Avanir Mota, é um apoio para toda a família. "Procuro levar a situação com naturalidade, mas, na minha intimidade, sofro muito. Tem horas em que o Afonso chora, e eu também choro sem que ele veja. Está tudo nas mãos de Deus, mas me sinto muito amparada pela equipe. Nunca troquei de cuidadores", esclarece a esposa.
É por isso que os momentos de lucidez, segundo a aposentada, são celebrados sempre com muita alegria. "Tem horas em que passo e ele diz: 'a bênção, mamãe!", e eu respondo: 'Deus te abençoe, meu filho". Em outras, ele olha para mim, me reconhece e fala: 'Deus não poderia ter me dado uma esposa melhor".
FIQUE POR DENTRO
Governo oferece capacitação para cuidadores
Para quem busca formação como cuidador de idosos, o Centro de Educação Permanente em Atenção à Saúde (Ceats) da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE), em parceria com o GT do Idoso da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), está com inscrições abertas até a próxima quarta-feira, dia 17, para o Curso de Capacitação de Cuidadores de Idosos.
São 50 vagas, voltadas para profissionais com formação mínima no ensino médio, maiores de 18 anos e, preferencialmente, com experiência prévia como cuidador. A programação inclui aulas teóricas, atividade de dispersão, prática simulada e práticas. Mais informações sobre as inscrições: (85) 3101.5198.
Fonte: Vida