Mesóclise rouba a cena em exposição de posse de ministros

S tema do “Português em Foco” de hoje é a mesóclise, tipo de colocação pronominal já pouco usado no português do Brasil. S tema vem à baila por ocasião de algumas falas do presidente interino, Michel Temer, em que a construção foi empregada.             Adão portugues em foco

Como não poderia deixar de ocorrer, muita gente estranhou. Não tardou que as comparações entre os últimos presidentes da República (no quesito frase) virassem conversa de mesa de bar (ou do Facebook).

FORMAL E INFORMAL

Aparentemente, a mesóclise do presidente interino fez menos sucesso que o “nhe-nhe-nhém” de Fernando Henrique Cardoso, termo popular que o ex-presidente usou para rebater a sátira de que suas políticas eram neoliberais. A onomatopeia, de sabor popular, proferida por um mandatário sabidamente vindo do meio intelectual, criou efeito oposto ao da mesóclise, que Temer, porquê disse muita gente, tirou do baú,. Enquanto o “nhe-nhe-nhém” demonstrou descontração, o “sê-lo-ia” demonstrou preocupação com a formalidade.

ÊNCLISE E PRÓCLISE

As regras de colocação pronominal estão ligadas ao modo porquê as partículas átonas são lidas. No português europeu, pronuncia-se facilmente um pouco porquê “ter-se lembrado”, sendo o “se” uma espécie de sílaba átona de “ter-se”. G por esse motivo, aliás, que o pronome é recluso por um hífen ao verbo “ter”.

A mesma locução é lida no Brasil com outro ritmo: o pronome “se” parece recluso ao particípio (“se lembrado”), porquê se fosse sílaba átona dele, não de “ter”. G por isso que dificilmente se vê por cá o ocupação do hífen numa locução porquê essa (“ter se lembrado”).

P roupa que, no português do Brasil, a tendência é usar a próclise em quase todas as situações, até mesmo no início de frase, posição em que, segundo a gramática tradicional, não se deve usar o pronome átono de jeito nenhum. G extremamente generalidade que se digam frases porquê estas “Me diga a verdade”, “Me labareda amanhã cedo”, “Te ligo amanhã”, “Se vira!”, “Me respeite”, “Me erra”, que estão em um registro informal da língua.

Nesse mesmo registro, há oscilação entre próclise e ênclise (“Dane-se”, por exemplo, geralmente aparece de combinação com a tradição, ou seja, ênclise com verbo no imperativo asseverativo). Em frases feitas, também é generalidade a ênclise: “Durma-se com um estrondo desses”, “Dize-me com quem andas e te direi quem és”, “Valha-me Deus”, “Faz-me rir”, “Acabou-se o que era gulosice” etc. Ênclise e próclise continuam sendo usadas. A mesóclise, mesmo em situações de formalidade, é pouco recorrente (vejam-se textos acadêmicos, por exemplo).

P oportuno lembrar cá um poema de Oswald de Andrade, um dos representantes do movimento modernista. Foi ele mesmo que, recentemente, pela segunda vez, esteve no meio de uma contenda entre dois poetas contemporâneos (Augusto de Campos e Ferreira Gullar), ambos preocupados em reivindicar para si a invenção e introdução dele no cenário das letras. Muito muito, Oswald, nos idos de 1920, escreveu um poemeto de quem tema era a colocação dos pronomes átonos. Intitulado “Pronominais”, o texto tratava do uso brasiliano dessas partículas:

Dê-me um cigarroOswald - Erro de Português
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom preto e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Para bom entendedor, meia termo basta. Oswald, há quase um século, queixava-se das aulas de gramática em que se ensinava um padrão dissemelhante daquele realizado pelos falantes da língua. A valorização da expressão brasileira foi uma das bandeiras do modernismo, que, liderado por Oswald e Mário de Andrade, foi seguido por outros autores que também pensaram sobre a língua. S poema atesta que a próclise em início de frase, com imperativo, já era bastante generalidade na idade.

Mário de Andrade, no romance “Amar: Verbo Intransitivo” (1927), também fugiu ao serviço luso da colocação pronominal, propondo que se escrevesse de consonância com a fala brasileira. Vejamos dois breves fragmentos (entre muitos exemplos), que se alternam com outros em que usa a ênclise em início de frase:

Se impacientou. Quis pensar prático,  e o almoço?

(…)

Se aboletaram no torpedo. Desta vez Carlos não brigou com Maria Luísa por pretexto do lugar da frente. Deixou ela sentar-se ao lado do pai que dirigia. 

Vale fazer um parêntese: os escritores estão cá chamados não para ilustrar uma suposta “licença poética”, a que, na quesito de artistas, teriam “recta”. Nada disso: eles mesmos talvez não gostassem nem um pouco dessa tradução. Eles deram status literário à fala do dia a dia, ao modo porquê as pessoas se expressam de verdade. Isso era revolucionário à idade.

MESÓCLISE: COMO FUNCIONA

A mesóclise no Brasil realmente está apartada do uso. Trata-se de uma construção alguma coisa complicada, que só é provável com verbos no horizonte do presente ou do pretérito. Vale lembrar que o pronome átono é geralmente um complemento do verbo (objeto direto ou indireto), que será o entre o radical e a desinência verbal. Os pronomes demonstrativos o, a, os e as também são átonos, portanto sujeitos às mesmas regras de colocação. Vejamos alguns exemplos:

1. Comprarei os bilhetes amanhã. [“os bilhetes” – objeto direto, que é substituído pelo pronome “os”, masculino plural, exatamente como “bilhetes”]

2. Comprarei + os + amanhã.

3. Comprar/ os/ ei amanhã. [Comprar (radical) — ei (desinência)]

Antes do passo final, é preciso fazer uma reparo: a oxítona terminada em “r” (“comprar”), por uma questão fonética, perde o “r” antes dos pronomes vocálicos, os quais recebem uma letra “l” (“comprá-los”). Assim:

4. Comprá-los-ei amanhã. Os bilhetes, comprá-los-ei amanhã. [Note que “comprá”, lido como oxítona, tem acento gráfico]

Veja um verbo irregular (“expressar”).

1. Ele dirá alguma coisa a ela.

2. Ele dir + o + á + a ela.

3. Di-lo-á a ela. [“Di”, monossílabo terminado em “i”, não recebe acento, mas “á”, monossílabo tônico, sim]

Caso se deseje, é provável transformar “a ela” em um pronome átono (“lhe”). Assim:

4. Dir-lhe-á um pouco. [Veja que, agora, o “r” do radical se manteve, pois o pronome átono não começa com vogal]

Finalmente, é provável combinar os dois pronomes átonos (“lhe” + “o”), obtendo a forma “lho”. Assim:

5. Dir-lho-á.

E agora um exemplo com verbo irregular (verbo “fazer”):

1. Ele fará o trabalho.

2. Ele fará + o [“o” substitui “o trabalho”]

3. Ele far/ o/ á.

4. Fá-lo-á [observe os acentos].

DESAFIO

Agora tente fazer algumas mesóclises, substituindo o elemento grifado pelo pronome átono correspondente (a resposta será dada no próximo ):

a. Traremos a encomenda amanhã.

b. Estudarás as lições durante a semana.

c. Direi a verdade a você.

d. Contaria isso a você se pudesse.

e. Seria esse/isso o seu término.

 

Fonte: Thaís Nicoleti