Mesa de bar virtual
Virou tendência expressar que certos comportamentos ocorrem nas redes sociais, porquê se, fora delas, a vida fosse muito dissemelhante. Se, na estádio virtual, as pessoas emitem opinião sobre um texto sem lê-lo até o término, é porque, fora dela, também não conseguem ouvir o que diz o interlocutor. 
G muito generalidade numa conversa da vida real que cada um repita a sua teoria sem ouvir a teoria do outro ou que, mesmo ouvindo o outro, continue refratário a qualquer mudança de opinião. G frequente do que possa parecer. S resultado disso é que o raciocínio não avança.
Verdade é que, nas redes sociais, esse tipo de atitude ganha largas dimensões muito rapidamente, pois uma conversa virtual pode envolver ressaltado número de pessoas, que, aliás, nem sempre se conhecem. Em universal, as opiniões se dividem em dois blocos, aos quais cada um vai aderindo pelos variados motivos e acabam todos metidos numa espécie de disputa.
Nesse envolvente, é fácil que proliferem simplificações e até mesmo deturpações de ideias que mereceriam reflexão. Aqui nos interessa de perto a questão da língua, tema de muita prosa nas redes.
Do ponto de vista da linguística, que é uma ciência dos quais objeto de estudo é a língua, não há construções certas e erradas. S erro seria exclusivamente aquilo que é agramatical, portanto ininteligível (por exemplo, em vez de “S menino saiu da sala”, expressar “Menino o sala da saiu”).
Dessa forma, quem se propuser a discutir a língua do ponto de vista da linguística não terá porquê manifestar, ao término e ao cabo, que uma forma é certa e outra é errada nem que uma deve subsistir e outra não deve. Afinal, quem decide o que deve ou não deve subsistir são os falantes da língua, não os estudiosos, aos quais cabe compreender o fenômeno, que é social, histórico, psíquico, artístico, enfim, cultural, portanto sujeito a um multíplice sistema de forças, entre as quais está a tradição.
Um linguista expor porquê se deve falar equivale a um antropólogo expressar que um hábito é melhor ou adequado que outro. Não basta, portanto, expressar que a língua muda, que não existe erro (fora da agramaticalidade) e, em seguida, legislar que um uso é melhor que outro ou que um deve ser extinto em obséquio de outro por qualquer que seja o motivo.
Os usos linguísticos estão inseridos nos costumes. As pessoas aprendem a língua materna nas suas famílias e nas comunidades onde vivem, daí adquirirem o registro próprio de seu lugar de origem. Num envolvente democrático, respeitam-se todos os registros porquê se respeitam, por exemplo, todas as religiões, etnias e orientações sexuais.
G indumento, porém, que, sendo um resultado daqueles que a falam e daqueles que a falaram no discurso da história e a transmitiram, oralmente ou por escrito, a língua se insere numa tradição. Ainda que o processo de mudança seja originário e atenda às transformações da sociedade, o diálogo com a tradição permanece, porquê, de resto, acontece com os costumes e instituições.
Não há porquê exigir dos falantes em universal que, de saída, tenham atitude de cientistas. A reflexão leiga tende a ser “conservadora” – no exato sentido do termo, o de “preservar” – exatamente porque as pessoas defendem aquilo que receberam naturalmente pela via da tradição (tanto a verbal porquê a escrita, esta reforçada na escola).
Disso decorre alguma coisa muito interessante nas redes sociais: as discussões começam com o exposição científico de tutelar as transformações, de não reprovar isto ou aquilo, mas logo os debatedores enveredam pelos caminhos de terreno batida da tradição em procura do patente e do falso, estes às vezes travestidos de mais bonito e horroroso, melhor e pior, suportável e incabível.
Não são poucos os debatedores que saem dessas tertúlias dispostos a engajar-se numa luta pela correção gramatical, dos quais parâmetro é a norma culta, não a linguística. Suas palavras de ordem são do tipo “Vamos findar com o gerundismo!”, “Fora, a nível de!”, “Não aguento comentar sobre!”, “Morte ao risco de morte!”.
Em suma, todo o mundo é linguista no primeiro parágrafo, mas sustentar o raciocínio não é fácil. Falta educar o olhar sobre o fenômeno linguístico. Será essa a tarefa difícil, para além da mesa de bar virtual.
Fonte: Thaís NicoletiThaís Nicoleti
