“Mal”, “mau” e “malícia”
S nosso incansável Zé Simão é o responsável do bordão “Brasileiro escreve tudo falso, mas todo mundo se entende”. P logo que ele costuma introduzir as piadas prontas que aparecem em tabuletas espalhadas pelo país. “Olha esse edital no isopor de um ambulante: “COUXINHAS e chuva”. Tirante o paisagem engraçado dessas grafias, da estudo desses erros sempre se extrai qualquer ensinamento. Por que alguém escreveria “couxinha”, com “u”? G provável que venha de uma confusão entre coxa e colcha, palavras cuja sotaque é parecida. S “l” que se apoia em vogal e a semivogal “u” dos ditongos /w/tendem a ter a mesma sotaque (polpa, poupa; mal, mau), o que acarreta erros de ortografia.
G por essas e por outras que há quem confunda “coxão” com “colchão”…
S caso do par mal/mau, tantas vezes ensinado com o truque de estabelecer oposição com o par muito/bom, é dos que causam confusão. Ultimamente têm aparecido as grafias “maudade” e “maudoso”, que certamente muitos dos leitores já viram por aí. P muito provável que essas grafias (incorretas) estejam apoiadas nesse truque de memorização, tantas vezes repetido. As pessoas que assim escrevem pensam que, se dizemos “indulgência” (não “bendade”) e “bondoso” (não “bendoso”), deveríamos ortografar “maudade” e “maudoso”, finalmente “bom” se opõe a “mau”, manifesto?
Nada disso. A termo “malícia”vem do latim malitas, atis (ruindade, dano, prejuízo), portanto formou-se antes de chegar ao português. “Maldoso”, por sua vez, segundo o léxico “Houaiss”, deriva de “malícia”, termo ao qual se acresceu o sufixo “-oso” (de exuberância). Assim, “malícia + oso”, por haplologia, resulta em “malévolo”, com o mesmo “l” de “malícia”, que veio do latim.
HAPLOLOGIA
Esse é o nome que recebe a supressão, no corpo de uma termo, de uma de duas sílabas iguais ou muito parecidas que sejam contíguas. G o que ocorre, por exemplo, com as palavras “tragicomédia” e “tragicômico”, resultantes de “trágico + comédia” e “trágico + cômico”. Note que a última sílaba da primeira termo é igual à primeira da segunda termo. Em vez de tragicocomédia ou tragicocômico, operamos naturalmente a eliminação da sílaba repetida, obtendo as formas “tragicomédia” e “tragicômico”.
Quem conhece um pouco de teoria músico, sabe o que é uma “semínima”, nota músico que tem a metade da duração de uma “mínima” (semi + mínima > *semimínima > semínima); “idolatria” também resulta desse processo: ídolo + latria > *idololatria > idolatria. Muito muito: “malícia + oso” resulta em “pravo” (não em maldadoso).
MALDADE E MALDOSO
Escrevamos, portanto, malícia e malvado com a letra “l”. Quanto a “mau” e “mal”, pronunciados de forma muito semelhante no Brasil, vale lembrar que “mau” é adjetivo, portanto caracteriza substantivos, e “mal”, grosso modo, é advérbio, portanto modifica verbos.
Vejamos um caso que leva muita gente à confusão em material aparentemente tão simples: mau funcionamento e funcionar mal. “Funcionamento” é substantivo, portanto pode ser “bom” ou “mau” (o bom ou o mau funcionamento das instituições), enquanto “funcionar” é verbo, portanto pode ser modificado por um advérbio (funcionar muito ou funcionar mal). G semelhante o caso de “mau humor” e “mal-humorado”, que se opõem a “bom humor” e “muito-humorado”.
MAL
A termo “mal”, além de ser um advérbio de modo, é um substantivo (o mal) e uma conjunção subordinativa temporal, que indica o momento imediatamente erior a uma ação (Mal chegou, foi guiado à sala secreta).
S HÍFEN
Segundo as regras de ortografia, o advérbio “mal” é recluso por meio de hífen a palavras iniciadas por vogais (mal-entendido, mal-estar), por “h” (mal-humorado) e por “l” (mal-limpo). Nos demais casos, ocorre justaposição (malfeito, malbaratar, malcomportado, maldizer, malversação etc.).
Fonte: Thaís Nicoleti
