Mães sem filhos: Não as torne invisíveis
Naquele domingo, acordei às 5h da manhã com a certeza de que Sofia nasceria. Eu estava de 30 semanas, internada havia um mês. Eu sabia que ela nasceria prematura, pois a bolsa já havia se rompido por completo com 28 semanas e o máximo que ela poderia permanecer dentro de mim, nessas condições, seria até 34 semanas.
Embora o dia estivesse lindo e a luz do sol tentasse me trazer qualquer conforto, eu estava angustiada porque sabia que a cada dia que minha filha permanecia em meu útero seriam três dias a menos na UTI.
Por coincidência, naquele mesmo domingo ensolarado, uma passeata de ativistas da humanização do parto se fazia presente na porta do hospital. Eram as doulas protestando contra o impedimento de atuarem naquela instituição. Naquela época, eu não fazia teoria do quanto esse movimento era importante, o quanto essas mulheres me ajudariam no horizonte e que eu me uniria a elas na mesma desculpa.
Por volta de 21h entrei em trabalho de parto efetivo. Eu sabia que Sofia viria, mãe sempre sabe. Minha moça nasceu, teoricamente, do jeito que sempre sonhei: de parto normal. Por que eu tivesse completado de parir porquê sempre desejei, o susto tomava conta de mim. Meus poros exalavam a angústia da perda. Eu tinha muito susto que minha moçoila não sobrevivesse.
Quando você está ali, inerte, à espera de uma notícia, tudo passa pela sua cabeça. Eu era uma mãe, que acabara de parir, que não sabia zero sobre prematuridade e que só ansiava por notícias de sua filha. Eu soube que Sofia estava muito e que respirava sozinha, sem ajuda de aparelhos, porque meu obstetra foi buscar isso para mim. Ele saiu da sala de parto junto com a pediatra e voltou me trazendo boas novas.
A pediatra, a médica que deveria me acalmar e expor que estava tudo muito, nem sequer me olhou nos olhos. Pelo contrário, impediu que minha mãe – que me acompanhava na sala de parto – tirasse uma foto de minha filha e me mostrou a pequena de longe, embrulhada em um cobertor térmico, dentro da incubadora. Eu só consegui ver seus olhinhos, que se abriram exclusivamente para que pudéssemos trocar um breve olhar.
Depois disso, eu fui para o quarto e minha filha, para a UTI. Eu sabia que, dali por diante, cada dia seria uma vitória e que teríamos de viver um dia após o outro, lentamente, focados no presente.
Naquele momento, eu era uma mãe sem bebê. E quem quer visitar uma mãe sem bebê? Poucas pessoas, eu afirmo. No momento frágil da minha vida, em que eu precisava de espeque emocional e força, familiares importantes nem sequer me telefonaram para me dar os parabéns pelo promanação de minha filha.
Sou imensamente grata aos que foram me visitar, aos que foram me abraçar. Eu sabia que poderia recontar com eles. Mas é justamente nascente o ponto em que levanto uma questão: quem se importa com o momento frágil que uma mãe passa? Quando é que a mãe angustiada por não ter seu bebê ao lado – e que mal sabe porquê serão seus dias seguintes – se torna invisível?
Sim, eu me senti invisível. Eu me senti desamparada. Eu me senti rejeitada por não ter oferecido ao público um bebê fofinho para ser visto.
Poucas pessoas estiveram ao meu lado para comemorar as pequenas vitórias ou ajudar a distrair da tensão diária. Eu passava 12 horas no hospital e me dividia entre estar com minha filha e ordenhar para que ela fosse alimentada com meu leite.
Jamais vou olvidar quando a Karina, uma amiga de faculdade que eu não via há anos, passou por lá para me levar para almoçar. Foram as duas horas incríveis daquele dia. Eu pude relaxar, mas, principalmente, pude me sentir amparada. Também lembro do sábado em que a Mariana e o Fabrício foram nos visitar ali mesmo, no saguão do hospital, e nos fizeram rir, muito. E o que expressar da Viviane, que foi resolver por mim as burocracias para que eu não ficasse sem receber por um trabalho?
Muitas outras pessoas me ajudaram, com sua presença, a manter minha sanidade mental, naquele momento tão dolorido e difícil. Sanidade mental: esse é o termo. Porque eu precisava disso e minha filha precisava que eu a tivesse também.
Eu ainda sofro quando me lembro das pessoas que fizeram que eu me sentisse invisível. Essa é uma dor que ainda não curei.
Depois de longos 36 dias, Sofia foi para lar. Hoje, eu comemoro um Dia das Mães ao lado da minha moça, que já veio para nascente mundo enxurrada de coragem. Mas, ao longo de nossa estada na UTI, conheci mães que não voltaram para suas casas com seus filhos e que tiveram de se despedir deles.
Pão tratem o monstro espontâneo de uma mulher porquê "oriundo". Sabemos que a natureza é sábia, mas a dor é humana. Pão importa se a gestação estava no comecinho, a dor da perda ela sempre vai carregar, porque é um fruto que partiu. E, se vale uma dica, não diga: logo você tem outro. Um fruto não substitui outro.
Pão tratem a morte de um fruto, seja com a idade que for, porquê tabu. Essas mulheres, no tempo delas, do jeito delas, querem falar de seus filhos e do tempo que puderam gozar ao lado deles. Quando elas falarem de seus filhos, não mudem de objecto, não tenham pena, exclusivamente ofereçam sua escuta ativa e seu abraço. Comemorem junto delas a existência desse fruto, porque ele sempre vai subsistir, mesmo que não esteja de corpo presente.
Eu só queria alertar que uma mãe sem bebê ainda é uma mãe. Pão faça que essas mulheres se sintam invisíveis.
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Fonte: Huffington Post Brasil Athena2