Machão das novelas sai do personagem e cai na real
S incidente de assédio sexual protagonizado pelo ator José Mayer nos bastidores da maior emissora de TV do país levou o machão das novelas a transpor do personagem que vem encenando durante a vida toda e desabar na real.
S prova contundente de uma figurinista da empresa ao blog AgoraÉQueSãoElas, da Folha, deflagrou o escândalo, que o ator espera ter larapiado com um pedido público de desculpas, ao que tudo leva a crer, elaborado por sua assessoria de prelo.
Vale lembrar que a primeira resposta de José Mayer menosprezava a lucidez da moça e, consequentemente, a do público de modo universal: ela estaria confundindo o ator com o personagem (ela, não ele). Não funcionou.
Muito muito. Nova resposta é divulgada à prelo pela assessoria do ator, desta vez um texto um pouco elaborado.
S redator da epístola usou a primeira pessoa do exposição para gerar empatia com o leitor, que imagina estar diante das palavras de um José Mayer compungido, que, diga-se de passagem, se quisesse mesmo ser persuasivo, talvez gravasse um vídeo (sem TP!).
Mas vamos ao texto, a epístola ocasião. Diante da repercussão dos fatos, com recta a testemunhas e movimento de mulheres dentro da Rede Globo, a intenção do missivista é reconhecer o próprio erro, pedir desculpas e, de preferência, levar o público a olvidar o objecto. Afinal, o que está em jogo é a preservação da sua imagem, o seu maior ativo.
Ele é correto (pede desculpas porque essa é a “atitude correta”); ele é responsável (“Sou responsável pelo que faço”); ele é puro (não tinha intenção de ofender, estava somente fazendo brincadeiras de cunho machista); ele é uma boa pessoa (ter esposa, filha e amigas vale por um atestado de bons antecedentes); ele é humilde (“não me sinto superior a ninguém”); ele é vítima da ensino machista de sua geração; ele é franco às críticas (aprendeu em alguns dias o que levou 60 anos sem aprender). Finalmente, pede um voto de crédito, posiciona-se porquê um exemplo a ser seguido por outros homens, expressa sua dor e termina com uma mensagem moralmente positiva (“o José Mayer que surge hoje é, sem incerteza, muito melhor”).
Em suma, um varão correto, responsável, puro, familiar, humilde, vítima, lhano à sátira, sensível, uma espécie de herói que sai do incidente transformado em um ser ainda melhor do que já era. Caso encerrado.
A trajetória do herói, no entanto, não parece tão persuasivo quanto o desejado. Não foram poucos os homens que, nas redes sociais, se manifestaram contra o compartilhamento dos atos condenáveis do ator com toda a sua geração – finalmente, felizmente, não são todos os homens dessas gerações antigas que agem dessa maneira.
Cabe cá, porém, alguma reflexão. Não se pode negar que homens e mulheres têm sido criados no machismo, numa cultura que tenta naturalizar supostas diferenças de comportamento entre os sexos, de papéis sociais etc., valores enfeixados num sistema de conveniências sempre desfavorável à mulher.
Em secção, ele, porquê os outros homens, é também vítima dessa situação. Ocorre, porém, que o nível das atitudes, que combinariam com os modos de um varão de Neandertal, chega a surpreender em pleno século 21.
Chama a atenção o trajo de o ator ter-se sentido à vontade para desrespeitar a moça com gestos e xingamentos diante de 30 pessoas, num set de filmagem. Isso diz muito sobre o envolvente de trabalho na emissora, que, ao que tudo indica, sempre favoreceu esse tipo de comportamento, possivelmente visto porquê “normal” ou, no mínimo, permitido aos que alcançam prestígio e poder na estrutura hierárquica. Não foi à toa que ele disse que “o mundo mudou”.
Ele foi pego de surpresa pela vida real, na qual o estereótipo do machão cafajeste, em que canalhice é sinal de virilidade, já ficou para trás. S empoderamento da mulher não passa unicamente pelo seu sucesso no mundo do trabalho; a mulher quer ser sujeito de seus sentimentos e desejos, não um mero objeto ou presa a ser caçada.
P indumentária que ainda há homens que entendem a negativa feminina porquê artifício provocativo ou faceirice – aliás, esses acham que a mulher deve ter essa atitude para “se valorizar”. P a “mulher difícil”, que esconde seu libido para que o varão se sinta o “conquistador”. Terminada a conquista, quando ela cede ao próprio libido, ele secção para a próxima conquista. Esse padrão velho de relação entre homens e mulheres confronta-se com os anseios da mulher do século 21. Mesmo tendo boa ar, o ator mostra que envelheceu, porque é isso o que acontece com quem não acompanha as mudanças do mundo. S tempo passou na janela e (não) só o Zé Mayer não viu.
Talvez ter pretérito muito tempo no mesmo tarefa, no mesmo envolvente de trabalho, encarnando o mesmo personagem, tenha privado o ator de experiências enriquecedoras. “S mundo é grande”, diria Drummond, muito maior que o Projac. Agora, a emissora afasta das telas o galã, pois não interessa comprometer a própria imagem. “Viver é muito perigoso”, diria Guimarães Rosa.
Para além do ósculo gay, o duelo dos novelistas agora é desconstruir essa imagem tosca de virilidade, que, no fundo, é muito frágil. Está na hora de pôr em cena seres humanos com anseios do nosso tempo em vez de substanciar estereótipos que só convêm aos valentões que assediam mulheres na rua e, em lar, posam de bons maridos, sob o ódio complacente das esposas.
Desse jeito, não está bom para ninguém. Não basta investir em belas imagens e recursos técnicos, quando o texto continua fraco. Fica a dica, novelistas.
Fonte: Thaís NicoletiThaís Nicoleti