Livro de historiador superstar é retrato de um 2020 que já passou – 03/10/2020 – Ciência

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Aquilo que é publicado em jornais e revistas é, por definição, um registro transitório, que perde rapidamente pertinência e relevância conforme passam os dias. Do jornal impresso, diz-se que a manchete de hoje estará a empacotar peixes amanhã.

Não é dissemelhante com a cobertura da pandemia do novo coronavírus, na qual desde o início deste ano repórteres de ciência, saúde, economia e tantas outras áreas se esforçam para explicar ao leitor que muito ainda não se sabe sobre o vírus e sobre suas consequências, e que o pouco que se sabe também muda e evolui rapidamente.

Daí advém o principal problema de "Notas sobre a Pandemia e Breves Lições para o Mundo Pós-Coronavírus" (Companhia das Letras), do historiador Yuval Noah Harari, responsável dos bestsellers "Sapiens" e "Homo Deus".

Trata-se de uma breve coletânea de três artigos e três entrevistas dele a periódicos diversos, publicados em março e abril deste ano.

Se o leitor conseguir se transportar em sua mente a fins de março, período que parece ter realizado há 237 anos, mas que na verdade se deu há somente seis meses, se lembrará de que o cenário no mundo e no Brasil era muito outro, assim porquê as preocupações que nos assolavam.

Em 16 de março, registrou-se no país a primeira morte por Covid-19, e uma semana depois estavam fechadas as escolas em todo o país. Discutia-se o que fechar, quando e porquê, e por quanto tempo. A lotação de UTIs e a falta de respiradores preocupavam.

As reflexões do Harari de março/abril são interessantes e pertinentes, mas, reunidas em livro, ficaram congeladas no tempo. O mundo, e o Sars-CoV-2, movem-se tão rápido que é difícil descobrir no tomo, porquê diz o subtítulo, lições para o mundo pós-coronavírus.

O israelense aponta, por exemplo, com razão, que o isolacionismo ou a negação da globalização não impedirão levante e outros vírus de se propagar, lembrando que na Idade Média, com mobilidade de populações muito reduzida na confrontação com tempos atuais, a peste negra ainda assim conseguiu se espalhar e matar milhões.

O problema é que, agora, ninguém mais discute fechar fronteiras, e sim porquê retomar o turismo com alguma segurança, o que alguns países já vêm fazendo.

Também parece ter ficado para as calendas a teoria apresentada por Harari de um líder global na luta contra o vírus. Os Estados Unidos, apontados porquê candidatos ao posto, não conseguiram nem mesmo coordenar esforços internos de combate à Covid-19, que dirá desempenhar qualquer papel internacional. O país já conta mais de 200 milénio mortos e agora se vê no meio de uma turbulenta campanha presidencial e chacoalhado por protestos por paridade racial.

A cooperação internacional tem se oferecido no contexto da ciência, com pesquisadores compartilhando resultados de estudos com rapidez e formando redes em vários países para estudar possíveis curas e vacinas para o coronavírus, com certos percalços, é verdade, mas também com muitos avanços.

Mas a esperança de Harari de que, munidos de informação científica clara e preocupados com o muito generalidade, os cidadãos do mundo não precisariam ser obrigados pelas autoridades a seguir regras sanitárias hoje parece prematura; redes de desinformação mostraram-se competentes, nesses últimos meses, em colocar em incerteza a eficiência de medidas que vão do isolamento às máscaras e às vacinas, que ainda nem existem. Nisso tiveram a ajuda de líderes porquê o americano Donald Trump e o presidente brasiliano, Jair Bolsonaro.

Um alerta do historiador que segue atual é o de que melhorar as condições sanitárias e de saúde pública em todos os países é uma resguardo contra pandemias futuras. Essa rede de proteção tem sido lamentavelmente negligenciada, e Harari muito lembra que uma epidemia de um vírus mortal em um país coloca todo o mundo em risco, porquê demonstrado pelo coronavírus. O Brasil, com seus 49% de domicílios sem esgoto, faria muito em escutar esse aviso.

De resto, os textos do livro, concebidos para publicação em separado em diferentes meios, padecem da repetição de ideias e da pouca profundidade que caracteriza o gênero jornalístico. De fácil leitura e com tom otimista, a coleção talvez sirva porquê uma retrato de um mundo que, seis meses depois, não existe mais.


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