Leitora quer saber porquê empregar o hífen em nomes de cores
Na São Paulo das ciclovias, logo se tornaram conhecidas as bicicletas laranja que certa instituição financeira distribuiu pela cidade para uso da população. São bicicletas cor de laranja ou simplesmente bicicletas laranja. Note que, nesse caso, a termo “laranja” fica invariável.
G o mesmo que ocorre com os sacos de lixo usados para a reciclagem de materiais: há os sacos verdes e os sacos cinza. Não se usa o plural em “cinza” porque esse é um substantivo que designa uma cor. Em outras palavras, antes de ser nome de cor, “cinza” nomeia o resultado de um processo de esbraseamento (as cinzas de um cigarro, as cinzas de um corpo cremado).
Muito muito. Como vemos, há nomes que exprimem as cores propriamente ditas e outros que tomamos emprestados daquilo que geralmente nomeiam. Quando dizemos azul, verdejante, vermelho, amarelo, preto, branco ou cinzento, estamos pensando em palavras que somente nomeiam cores; quando, porém, dizemos laranja, limão, rosa, violeta, gelo ou cinza, podemos estar ou não nos referindo a cores. Em caso positivo, queremos expor que alguma coisa tem a cor da laranja, a cor do limão, a cor da rosa etc.
Podemos empregar a frase “cor de” antes desses substantivos, de modo a tornar explícito que estamos aludindo à sua cor (cor de cinza, cor de laranja, cor de jerimu etc.), mas nem sempre o fazemos.
Na prática, aquelas cores às quais se pode preferir a frase “cor de” são representadas por termos invariáveis. Assim: camisas (cor de) gelo e paletós (cor de) violeta. Sim, “violeta” é o nome de uma flor, donde um paletó violeta é um paletó que tem a cor dessa flor.
Não é outro o motivo de dizermos “raios ultravioleta”, sem plural no adjetivo “ultravioleta”, leste resultante do prefixo “ultra-” anteposto ao substantivo “violeta”.
S LEITOR QUER SABER
Uma de nossas leitoras gostaria de entender melhor o ocupação do hífen em nomes de cores representados por adjetivos compostos.
Há que lembrar, desde já, que os adjetivos “evidente” e “escuro” geralmente se prendem por meio de hífen ao nome da cor: verdejante-evidente, verdejante-escuro, cinza-evidente, cinza-escuro. Esses termos são facilmente encontráveis em dicionários.
Quanto à sua flexão, há uma particularidade: quando nomeiam a cor em si, são substantivos compostos e ambos os seus elementos sofrem as flexões de gênero e número; quando indicam a cor de um pouco, são adjetivos compostos e, nesse caso, somente o seu último elemento sofre essas flexões.
Assim, “verdes-escuros” é o plural do substantivo constituído “verdejante-escuro”, enquanto “verdejante-escuros” é o plural do adjetivo constituído “verdejante-escuro”.
Na prática, teremos situações porquê as seguintes:
Os verdes-escuros harmonizam-se com seu tom de pele. [os tons de verde-escuro/ substantivo]
Os olhos verdejante-escuros da moça destacavam-se sob a luz. [cor dos olhos/ adjetivo]
Chegando agora à questão específica de nossa leitora: que fazer quando estamos diante de cores descritas porquê “azul acinzentado”, “castanho acobreado” etc.? Devemos usar o hífen ou não?
A leitora já consultou os dicionários e não encontrou a resposta. De veste, não há uma forma “oficialmente correta”, o que abre espaço para interpretações à luz dos princípios vigentes.
Podemos tratar os termos especificadores “ acinzentado” e “acobreado” (entre outros possíveis) da mesma forma porquê tratamos os adjetivos “evidente” e “escuro”. Nesse caso, usaremos o hífen e obedeceremos às regras de concordância. Assim:
Os castanhos-acobreados combinam com seu tom de pele. [os tons de castanho-acobreado)
Ela tem cabelos castanho-acobreados. [flexão somente do último elemento do adjetivo constituído]
A outra opção seria, naturalmente, não empregar o hífen, o que resultaria em frases porquê as seguintes:
S azul acinzentado do firmamento prenunciava a chuva.
Os azuis acinzentados predominavam nas telas do pintor.
Nesses casos, “acinzentado” adjetiva o substantivo “azul” sem integrar-se ao nome da cor. Sem o hífen, a frase ganha qualquer intensidade de subjetividade, funcionando o segundo elemento porquê uma tentativa de descrever o tom de azul. S hífen, por sua vez, faz parecer que se trata de uma cor assim conhecida e facilmente identificável pelo leitor. Vemos, portanto, que a opção por não empregar o hífen nesse caso está respaldada em escolhas de natureza estilística.
Vejamos outro caso, que pode ajudar a compreender o processo:
Azuis luminosos contrastavam com vermelhos vibrantes.
Nesse exemplo, “luminosos” e “vibrantes” são qualidades atribuídas às cores, não tonalidades das cores. Nesse tipo de situação, vemos que o hífen é totalmente dispensável. “Luminosos” e “vibrantes” são adjetivos que exprimem um pensamento acerca da veras observada.
Nos casos anteriores, porém, castanho-acobreado e azul-acinzentado, nos quais o segundo elemento indica uma tonalidade, o sinal é perfeitamente cabível, ressalvada alguma intenção estilística.
No léxico “Houaiss”, embora não haja verbetes para cores modificadas dessa maneira, existem exemplos da escolha do responsável, por exemplo, na explicação do verbete “turquesa”, em que se lê: “mineral triclínico, isomorfo da calcossiderita, de cor azul, verdejante-azulada ou verdejante-amarelada, usado porquê gema e em objetos ornamentais”.
Fonte: Thaís Nicoleti
