Haddad volta a afirmar que revogação de aumento exige cortes em outras áreas
Agência Estado
Prefeito classificou como "atrocidade" os atos de vandalismo que ocorreram durante as manifestações de terça-feira
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), reafirmou nesta quarta-feira que uma tarifa menor de transporte implicaria em reduzir recursos destinados para educação e saúde, em meio aos protestos motivados inicialmente pelo aumento do preços dos bilhetes de ônibus e metrô.
Apesar de afirmar que o governo da capital considera o remanejamento de recursos do orçamento do município como alternativa, ele insistiu que isso "seria ruim" e que o foco está em buscar uma redução de tributos que incidem sobre o transporte.
Haddad reiterou que a capital paulista segurou o reajuste até a desoneração do governo federal de PIS/Cofins de transporte urbano. "Não fosse a desoneração, a tarifa estaria em R$ 3,40 atualmente."
"Essas escolhas representam menos investimentos em outras áreas... a não ser que nós prosperemos na agenda de desoneração", disse Haddad em entrevista coletiva no prédio da Prefeitura, que foi alvo de depredação por um grupo de manifestantes na terça-feira.
São Paulo vem sendo o principal palco dos protestos que começaram há cerca de duas semanas e passaram a incluir reivindicações por melhores serviços públicos, combate à corrupção e contra os gastos com a Copa do Mundo de 2014.
No fim da tarde de terça-feira, manifestantes se reuniram na Praça da Sé, marco zero da cidade. Eles se dividiram e partiram rumo à sede da Prefeitura e Avenida Paulista, num contingente estimado em mais de 50 mil pessoas pelo Instituto Datafolha.
Apesar da maioria pacífica, um grupo tentou invadir a sede do governo municipal na região central e ateou fogo a um carro de transmissão da TV Record perto do edifício. O Teatro Municipal, tombado pelo patrimônio histórico, foi alvo de pichações, assim como vários monumentos no centro da cidade.
"Há grupos que insistem em querer impor sua vontade de maneira irracional", disse Haddad sobre os episódios de violência.
Vinte e nove lojas comerciais e áreas privadas foram depredadas na região, segundo o subprefeito da Sé, Marcos Barreto. Mais de 60 pessoas foram detidas e houve relatos de que a Polícia Militar demorou a agir.
"A polícia tem tido muita parcimônia de agir no sentido de preservar a integridade das pessoas, para que inocentes não paguem por atos que não são parte da democracia", disse Haddad, lembrando das críticas por excessos da ação policial durante protestos na quinta-feira da semana passada.
Nesta manhã, as manifestações na capital paulista atingiam áreas mais periféricas e vias de acesso à cidade.
Manifestantes chegaram a interromper o fluxo da rodovia Anchieta, queimando pneus no sentido São Paulo. A estrada foi desbloqueada, e os manifestantes seguiram em passeata pelas ruas da cidade de São Bernardo do Campo. Interdições também foram registradas na rodovia Régis Bittencourt, avenida Gurapiranga e Estrada do M'Boi Mirim.
Encontro com Dilma
De acordo com o prefeito, o encontro dessa terça-feira, 18, com a presidente Dilma Rousseff serviu para eles conversarem sobre os projetos de lei que tramitam no Congresso no sentido de desonerar o transporte publico. "A reunião já era prevista", disse Haddad, sem mencionar a informação de que a pauta do encontro, que teve a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram os protestos e a possível redução no preço da tarifa.
Segundo ele, também foi discutida ajuda de recursos federais para a construção de corredores de ônibus, o que no seu entender aumentará a produtividade do transporte coletivo.
Alternativas
Haddad considerou que a maneira mais viável de se baixar a tarifa do transporte público, hoje em R$ 3,20, é através de novas desonerações. O prefeito citou o Regime Especial de Incentivos para o Transporte Coletivo Urbano de Passageiros (Reitup), que tramita na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e, segundo Haddad, significaria um alívio de 7% no valor da passagem de ônibus em São Paulo. E garantiu que até sexta-feira, 21, estará "debruçado em alternativas".
O texto original é de 2009 e de autoria político baiano Fernando de Fabinho, que não é mais deputado desde 2011. Segundo Haddad, por não ser projeto do governo, o Ministério da Fazenda está debruçado em cima do texto para produzir uma análise técnica dos impactos do Reitup.
O projeto prevê a redução de tributos incidentes sobre a prestação do serviço e também na aquisição de insumos, como óleo diesel, combustíveis renováveis e não poluentes, chassis, carrocerias, veículos, pneus e câmaras de ar, desde que utilizados diretamente na prestação dos serviços.
Bilhete Único Mensal
Haddad reiterou ainda o compromisso de implementar o Bilhete Único Mensal, sua bandeira durante a campanha eleitoral. Segundo ele, o Bilhete Único mensal é um compromisso da Prefeitura, que está preparando seu lançamento. "A contradição entre a rua e a urna não deveria ocorrer. Essa contradição que querem criar não existe", comentou o prefeito, em referência às manifestações pela revogação do aumento da tarifa de ônibus. Para ele, a discussão sobre a tarifa não prejudica o andamento do projeto do Bilhete Único mensal.
Atrocidades
O prefeito classificou como "atrocidade" os atos de vandalismo que aconteceram nessa terça-feira. "O que aconteceu aqui é uma atrocidade com a cidade, o prédio da prefeitura é do povo. Gestos como o de ontem não contribuem para o funcionamento da cidade. A cidade quer funcionar, as pessoas têm o direito de chegar em casa", disse o prefeito em coletiva nesta quarta-feira, 19. Ele classificou de "criminosos" os que estão agindo com atos de vandalismo.
Apesar da crítica, o prefeito ressaltou o caráter democrático do protesto da maior parte dos manifestantes, que não agiu com violência. Haddad avaliou que "o apelo que se faz desde o começo (dos protestos) é preservar o ambiente democrático" e, ao ser indagado sobre a demora da Polícia Militar em agir nos protestos, disse que a pergunta deveria ser feita ao secretário de Segurança Pública, Fernando Grella. "O policiamento é do governo do Estado", explicou.
Haddad, conversou, por telefone, sobre as manifestações com o governador, Geraldo Alckmin (PSDB). De acordo com o prefeito, há uma preocupação por parte da PM com a garantia da integridade física dos manifestantes, principalmente depois do ocorrido no protesto da última quinta-feira, dia 13.
Fonte: Notícias do Último Segundo: o que acontece no Brasil e no Mundo