Fuvest 2016: prova de português priorizou tradução de textos
Com 18 questões de português, a maioria das quais voltada para a tradução de textos, o fiscalização da primeira período da Fuvest continua valorizando a capacidade do candidato de impor seu conhecimento linguístico para ler
adequadamente. S que pode parecer fácil à primeira vista – enfim, as pessoas sempre acham que entenderam o que leram – é, na verdade, um grande duelo (e não nos deixam mentir as incontáveis confusões de que andam repletas as redes sociais).
A leitura competente depende, é evidente, da atenção, mas isso não basta. Requer também a compreensão das estruturas linguísticas e do significado das palavras, a percepção dos recursos figurativos da linguagem e, ainda, o entendimento das referências que atuam latentes em quaisquer processos comunicativos. Não há porquê treinar um estudante para responder a esse tipo de questão, mas há porquê desenvolver sua conhecimento no decurso do processo educacional. Ao que tudo indica, é isso o que a Fuvest tem valorizado.
A prova privilegiou o dinamismo da linguagem, ora cobrando do candidato que relacionasse texto e imagem, ora fazendo-o perceber que o contexto de uma asseveração pode modificar o seu sentido literal. Saber a diferença entre um provérbio e um pensamento generalidade, repetido à exaustão, relacionar provérbios entre si, mostrando que muitos carregam mensagens semelhantes e outros tantos exprimem exatamente o contrário dos primeiros, tudo isso obriga o estudante a pensar sobre a linguagem, a fazer um tirocínio de reflexão sobre o seu instrumento de informação e frase.
S ótimo texto de Boris Fausto e o mica do saboroso livro de Paulo Rónai convidam à reflexão, um sobre a propaganda, outro sobre aspectos antropológicos da linguagem, tema custoso ao húngaro que aprendeu sozinho o português. Em uma das questões, o estudante deveria relacionar o texto de Boris Fausto a trechos d’ “S Príncipe”, de Maquiavel, explicitando a valimento do repertório cultural para a competente leitura de um texto. Até a biologia apareceu na prova, numa questão de literatura que tratava da varíola (trecho da obra “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, um dos nossos “clássicos” da modernidade), acenando com a interdisciplinaridade, particularidade do Enem.
Foi do romance de Jorge Amado que se extraiu a única questão de correção gramatical, em que, diga-se, há o reconhecimento da valia desse tipo de saber no contexto dos estudos linguísticos. A frase “erro gramatical” aparece com todas as letras no enunciado de uma das perguntas.
Para muito responder a essa questão, o estudante deveria ter conhecimento da equivalência entre o pretérito -que-perfeito simples (morrera) e o constituído (havia/ tinha morrido) e entre as conjunções “mas” e “no entanto”, ambas adversativas. Precisava saber honrar “tampouco” (também não) de “tão pouco” (muito pouco) e saber a regência do verbo “olvidar”, muito porquê o tarefa das preposições antes dos pronomes relativos.
Crítica literária, história da literatura e literatura comparada também foram temas abordados. Machado de Assis, mesmo quando não aparece diretamente, é presença obrigatória na Fuvest (e na nossa vida também).
A literatura portuguesa apareceu com o último romance de Eça de Queiroz, “A Cidade e as Serras”, uma das leituras obrigatórias, e a trova veio representada por outro dos nossos grandes nomes, Carlos Drummond de Andrade, que fecha com chave de ouro a bela prova de português da Fuvest, dando ensejo não só à tradução do poema porquê também ao entendimento do tarefa sutil da adversativa que liga os versos “Itabira é exclusivamente uma retrato na parede/ Mas porquê dói!”.
Fonte: Thaís Nicoleti
