Quinteiro de 103 anos lembra outras pandemias e no se apavora com coronavrus – Gerais

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(foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)

"No me preocupo com doenas. Elas sempre estiveram no mundo, so naturais, estamos sujeitos a isso. O importante se proteger, manter a sade"

Armando da Conceio, quinteiro, 103 anos


Armando tinha 2 anos, 5 meses e um dia, quando “ela” chegou ao Brasil. “Eu era uma criana do interno de Minas, pobre, de p no cho”, recorda o quinteiro, batizado Armando da Conceio que, na quarta-feira, dia 15, completa 104 anos. “Ela”, no caso, era a gripe espanhola, um mal mundial que nestes tempos de pandemia provocada pelo novo coronavrus traz tona a memria da doena responsvel pelas mortes de milhes de pessoas mundo afora, entre janeiro de 1918 e dezembro de 1920. Com seu chapelo, jeito simptico e tima memria, Armando conta que cresceu ouvindo falar daquela gripe, mas conta que “sabia que estaria imune a tudo”. “Meu primeiro banho, na vida, foi no sangue de tatu”, revela, com seriedade, na varanda da Herdade Arago, na comunidade rústico de Campo de Santo Antnio, em Taquarau de Minas, na Regio Metropolitana de Belo Horizonte.
Houve males muito piores em Minas do que a gripe espanhola, avisa o quinteiro, citando o sarampo e a varicela, dos quais foi vtima, embora sem sequelas ou marcas no corpo. Mas zero foi to possante quanto a pneumonia contrada na infncia. A tratamento veio do emplastro de angu quente com sementes de mostarda. “Colocaram a mistura dentro de um tecido, porquê se fosse uma fita, e enrolaram meu peito. Era quente demais, no sei porquê no queimou o corao.”

Ao ver a equipe do Estado de Minas com mscaras cirrgicas, assim porquê o neto Leopoldo Alves, jurisconsulto, com a proteo facial, seu Armando quer saber porquê est a situao causada pelo coronavrus. Mas no se apavora com as notcias sobre o avano da pandemia. “No me preocupo com doenas. Elas sempre estiveram no mundo, so naturais, estamos sujeitos a isso. O importante se proteger, manter a sade”, resume. De indumento, em Minas no de hoje que epidemias tiram o sossego da populao, conforme pesquisa em período preparatório do promotor de Justia Marcos Paulo de Souza Miranda, integrante do Instituto Histrico e Geogrfico de Minas Gerais (IHGMG).

“A velha Minas Gerais, em seus mais de 300 anos de histria, enfrentou situaes to ou mais difceis que a do coronavrus. Superou todas, mesmo em pocas de incipientes conhecimentos mdicos e epidemiolgicos”, diz Souza Miranda. Ele destaca que, ao siso generalidade, tal situao pode ser considerada porquê alguma coisa indito, momento de incertezas, pavor e sofrimento testado pioneiramente pela gerao atual. “Zero mais inexacto”, resume.

Ingerir, consumir, trabalhar


No cenrio rústico em que vive, com a tradicional moradia pintada de azul e branco e muito espao para curtir a vida, seu Armando gosta de narrar histrias e no perde o bom humor: “No sou to velho assim para falar da gripe espanhola, no, viu? Mas posso falar do sarampo, da varola, esses, sim, terrveis”, considera. Vivo h nove anos, ele foi casado por 74 anos com Maria da Piedade da Conceio, tendo 13 filhos, 36 netos e 41 bisnetos e um tataraneto.

Da varanda, ele faz questo de recitar o nome de fruto por fruto: Edson (Dinho), recentemente falecido, Iraci, Elson (Nica), Elce, Elzio, Elizia Isabel, Ederval Rmulo, Maria ngela, Eunice Elena, Marcos Geraldo, Alcides Luiz, o Cidinho, Ilza de Ftima e ngelo Armando. “Para gerar tantos filhos, tem que trabalhar muito, n? E cuidar da sade.”

Bem em muletas por pura precauo, aps uma queda na escada, o quinteiro, oriundo do municpio vizinho de Santa Luzia, tem certeza de que a sade para isso se sustenta em trs pilares: ingerir, consumir e trabalhar. No ltimo verbo est a deixa para recordar outros tempos. Ex-possessor de depsito de material de construo, conta que transportou em seu caminho muito “cimento e rolos de arame” para a construo de Braslia, em 1956.

Clera, f e sinistro

Souza Miranda informa que, em meados do sculo 19, foi a vez de o clera morbus atingir Minas, fazendo milhares de vtimas em razo da diarreia e do vmito que provocava. doena est associado “um triste traje ocorrido na cidade de Rio Piracicaba em novembro de 1855”, conforme noticiado no Jornal Bom Siso, de Ouro Preto, naquele ms: “Em o dia 12 do fluente, com o término de esconjurar por meio de preces ao Todo Poderoso a tempestade do clera que j se tem manifestado em nossa provncia, mais de 4.000 pessoas deste arraial e de suas imediaes levavam em procisso a imagem do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, ali muito venerada, quando (cena desoladora!), ao passarem a ponte sobre o Rio Piracicaba, que divide a povoao, dois lanos desta desabam com horrendo fracasso”.

O peridico informava que resultaram “carem no rio mais de 300 pessoas, mulheres em quase sua totalidade! Para logo verificou-se que algumas pessoas tinham morrido do sinistro, ficando feridas mais de 80, entre as quais 20 mortalmente. O povo achava-se em consternao e privado de vveres, em conseqncia da queda da ponte.”

'Varíola'


No ltimo quartel do sculo 19, a epidemia de varola, poca conhecida porquê varíola em razo das bolhas que formava no corpo das pessoas atacadas, foi a que mais castigou os mineiros. No Sul de Minas, a Cidade do Turvo (atual Andrelndia) sofreu enormemente com a doena, perdendo mais de uma centena de vtimas. “Em razo de a doena ser altamente contagiosa, recomendava-se que as roupas das vtimas fossem queimadas e as habitaes, desinfetadas com queima de súlfur e caiao. Porquê muitos turvenses morreram em locais distantes da cidade, o pavor da contaminao no permitiu sequer que os corpos fossem levados ao cemitrio pblico, sendo providenciados cemitrios repentista na zona rústico, que ficaram conhecidos porquê cemitrios dos bexiguentos, por servirem de lugar de folga dos corpos das vtimas da varola.”

Souza Miranda ressalta que, atualmente, h dois desses cemitrios, em Cascata das Marias e Espraiado: “So eles as ltimas testemunhas da peste que assolou Andrelndia em 1891”. Aps estudar tantas doenas e seus efeitos, o pesquisador tira de seus estudos uma mensagem de confiana: “Esperamos que o conhecimento desses fatos nos sirva de ânimo para enfrentarmos com f e esperana os desafios que ora vivenciamos. Isso tambm passar”.

Pragas e pestes na histria de Minas

(foto: T
(foto: Tlio Santos/Em/D.A Press)

"Minas Gerais, em seus mais de 300 anos, enfrentou situaes to ou mais difceis que a do coronavrus. Superou todas, mesmo em pocas de incipientes conhecimentos mdicos e epidemiolgicos"

Marcos Paulo de Souza Miranda, promotor de Justia e pesquisador

 

 

Na pesquisa que conduz com o tema “Doenas e epidemias na histria de Minas Gerais”, com enfoque at o término do sculo 19, o promotor Marcos Paulo de Souza Miranda, do Instituto Histrico e Geogrfico de Minas Gerais, destaca que pragas, pestes e doenas sempre estiveram presentes na histria da humanidade, sendo inmeras, por exemplo, as passagens bblicas que tratam do objecto.

No Brasil, segundo seus estudos, entre 1777 e 1780 se abateu sobre o Rio de Janeiro uma terrvel gripe que, alm de provocar poderoso quadro febril, atacava o sistema nervoso e locomotor de suas vtimas, causando-lhes deformidades. “Conhecida porquê zamparina, em aluso cantora italiana Anne Zamperini, ento artista de grande sucesso em Lisboa, a doena chegou a Minas Gerais trazida por soldados mineiros que haviam sido remetidos para o Rio de Janeiro a término de reforar o transitivo em preparo para enfrentar a diadema espanhola, que havia invadido o Sul do nosso pas”, conta o promotor. “Especula-se que Aleijadinho (Antonio Francisco Lisboa, o rabi do Barroco), que havia sido remetido ao Rio naquele tempo para facilitar nas obras de fortificao, tenha sido assaltado por esse mal”, acrescenta.

Mais tarde, em 1788, o “mal de So Lzaro”, nome pelo qual era chamada a lepra ou hansenase, provocava grande temor em Vila Rica (atual Ouro Preto), a ponto de as autoridades locais determinarem a expulso dos doentes da sede. “Em maio daquele ano, 19 leprosos foram exilados para as bandas do Arraial de So Bartolomeu, onde deveriam permanecer segregados.”

J em 1792, uma terrvel epidemia de gripe, com elevado intensidade de mortalidade, acometeu a regio de Diamantina, contagiando secção significativa da populao e fazendo com que o Senado da Cmara da Vila do Prncipe (atual Serro) mandasse fazer fogueiras pelas ruas “por pretexto da grande epidemia de defluxes que quase todos geralmente padecem... defluxes perigosas, de que quase todos ou a maior secção dos moradores se achavam tocados e se queixam...” Segundo a medicina da poca, explica Souza Miranda, a montagem de fogueiras, com a combusto de determinadas ervas e madeiras, tinha o poder de purificar o ar e diminuir a disseminao das doenas.

Nesse sentido, em 1808, aps uma mortfera epidemia de doena desconhecida derribar sobre a cidade de So Joo del-Rei, a Cmara convocou todos os professores de medicina e cirurgia do municpio para que indicassem os meios de combate peste. “Com base nas indicaes mdicas, foi publicado um edital determinando que os moradores fizessem fogueiras todas as noites, nas quais deveriam ser queimadas ervas aromticas (rosmaninho, manjerico-do-campo, pinheiros, coqueiros-da-serra e sassafrs), alm de queimar plvora em morada, lanígero vinagre em ferro em brasa, tomar ponches e vinagradas”, descreve.

Gripe a bordo 


A gripe espanhola chegou ao Brasil em 16 de setembro de 1918, com os mais de 200 tripulantes do navio britnico Demerara. Vindo de Lisboa, Portugal, a embarcao fizera uma graduação em Dacar, no Senegal, e depois aportara no Rio de Janeiro. A estimativa de que, no mundo, a doena tenha matado entre 20 milhes e 50 milhes de pessoas e infectado muro de 500 milhes ou um quarto da populao.

O que o coronavrus?

Coronavrus so uma grande famlia de vrus que causam infeces respiratrias. O novo agente do coronavrus (COVID-19) foi desvelado em dezembro de 2019, na China. A doena pode originar infeces com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.



Porquê a COVID-19 transmitida?

A transmisso dos coronavrus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secrees contaminadas, porquê gotculas de seiva, esternutação, tosse, catarro, contato pessoal prximo, porquê toque ou aperto de mo, contato com objetos ou superfcies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Porquê se prevenir?

A recomendao evitar aglomeraes, permanecer longe de quem apresenta sintomas de infeco respiratria, lavar as mos com frequncia, tossir com o antebrao em frente boca e frequentemente fazer o uso de gua e sabo para lavar as mos ou lcool em gel aps ter contato com superfcies e pessoas. Em morada, tome cuidados extras contra a COVID-19.

Quais os sintomas do coronavrus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gstricos
  • Diarreia


Em casos graves, as vtimas apresentam:

  • Pneumonia
  • Sndrome respiratria aguda severa
  • Insuficincia renal

Mitos e verdades sobre o vrus

Para saber mais sobre o coronavrus, leia tambm:

Privativo: Tudo sobre o coronavrus 

Coronavrus: o que fazer com roupas, acessrios e sapatos ao voltar para mansão

Coronavrus pandemia. Entenda a origem desta termo

 

 


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