Experimente ficar cinco dias sem tomar banho

Nesta terça-feira quente, em que a presidente Dilma Rousseff promoveu sua primeira reunião ministerial do segundo governo (ver no final do texto), o principal personagem do dia não foi ela, mas o diretor metropolitano da Sabesp, engenheiro Paulo Massato, que anunciou um iminente "rodízio pesado e drástico" de cinco dias por semana sem água em São Paulo, e roubou todas as manchetes.

Massato não deu detalhes nem prazos, mas deixou claro que esta seria a única solução para evitar o colapso total do Sistema Cantareira, que abastece 6,5 milhões de paulistanos, e está operando com apenas 5,1% da sua capacidade. O reservatório pode secar de vez já em março, se não chover muito até lá, o que não vem acontecendo, e não forem concluídas as obras emergenciais anunciadas pelo governo estadual, que só devem ficar prontas entre 2016 e 2018.

As previsões assustadoras do diretor da Sabesp foram feitas no mesmo evento festivo em que o governador Geraldo Alckmin inaugurou uma obra de aumento da captação do Alto Tietê, em Suzano, na Grande São Paulo. Alckmin simplesmente não tocou no assunto e não quis comentar as declarações de Massato. Desde o agravamento da crise no abastecimento de água no início do ano passado, Alckmin evita falar em racionamento e rodízio, como se vivesse em outro mundo.
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Racionamento, na verdade, já existe faz tempo, embora o governador não admita: com a redução pela metade da pressão nas tubulações, quase todos os bairros de São Paulo já ficam sem água nas torneiras durante 15 horas e 13 minutos por dia, segundo uma página do com informações sobre cortes no abastecimento inaugurado esta semana pela Sabesp.

"Se as chuvas insistirem em não cair no Sistema Cantareira, seria a solução de um rodízio muito pesado, muito drástico", prevê Paulo Massato, um técnico que não é candidato a nada e fala as coisas como as coisas são, sem meias palavras, ao contrário dos políticos tucanos, há de duas décadas no comando da região rica do país.

Se estas previsões se confirmarem, como será a vida dos paulistanos? Nem é preciso esperar pela decretação oficial do rodízio para fazer o teste: experimente, o caro leitor do Balaio, ficar cinco dias sem tomar banho. Quem vai aguentar?

O fedor será o de menos: sem água por tanto tempo, como vão funcionar as indústrias e os shoppings, as escolas e os hospitais, os restaurantes e os botecos, a agricultura e os banheiros públicos, os clubes e as floriculturas?

Sempre restará o recurso aos carros-pipa, claro, mas eles irão buscar água aonde? No Nordeste? A que preço? Quem pode já está estocando água mineral, construindo poços e cisternas, preparando-se para o pior. E quem não pode?

Já imagino o escândalo que vai ser quando não tiver nem água Perrier para comprar.

A volta da baderna

 Experimente ficar cinco dias sem tomar banho

Para infernizar ainda a vida dos paulistanos, também tivemos nesta terça-feira outro ato, o quinto deste ano, promovido pelo Movimento Passe Livre, contra o aumento das tarifas do transporte público, que já está em vigor.

Como de costume, a manifestação terminou em baderna, com 50 vândalos invadindo a estação Faria Lima do Metrô para pular as catracas. A Tropa de Choque chegou e jogou bombas de gás lacrimogêneo para todo lado, no momento de maior movimento de passageiros na estação, uma cena que já virou rotina. Dos cerca de mil manifestantes, segundo a PM, só dois foram presos, mas já devem estar soltos. Até quando?

A vitória de Vanessa

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No meio de tanta coisa ruim, garimpei uma bela e emocionante história contada pela repórter Juliana Coissi, na Folha. A vida, afinal, não pode ser feita só de política e crise.

"Não vou participar. Eu sou meio gordinha e, geralmente, isso é para meninas altas, magras", respondeu a menina Vanessa, de 14 anos, quando a mãe, a agricultora Cristina Borges Vöss, de 34, a chamou para se candidatar ao "Garota Verão 2015", um concurso de beleza promovido na cidade gaúcha de Canguçu.

Pois Vanessa criou coragem e desfilou de biquíni ao lado de outras dez garotas. Foi a aplaudida e fez o maior sucesso na internet, que ela não tem em casa. Do alto de seu 1,61 m de altura e 70 quilos, a menina gordinha era a única de cabelo preso em rabo de cavalo. Feliz da vida, ela se sentia à vontade, vitoriosa: "Estava com vergonha, mas começaram a me aplaudir, a dizer: vai, você consegue!, você é muito bonita, e então eu desfilei".

E deu uma lição de vida e superação a todos os que fogem dos padrões estéticos do pensamento único: "Acho que a gente não deve ter vergonha do nosso corpo". Nem importa saber quem ganhou a competição.

Dilma sem novidades

Com tanto assunto, acabei deixando para o final o discurso da presidente Dilma Rousseff, na abertura da primeira reunião ministerial em Brasília. Como ela mesma reconheceu, seu pronunciamento não tinha grandes novidades em relação às medidas que já haviam sido anunciadas nas últimas semanas.

Meus comentários sobre a fala presidencial estão no do Jornal da Record News, transmitido também aqui no .

E vamos que vamos.

Fonte: Ricardo Kotscho