Escrever me ajudou a superar a morte da minha mãe, diz Ava Dellaira

A escritora Ava Dellaira, autora do livro ‘Cartas de Amor aos Mortos’ (Crédito: Jorge Gomez/Divulgação)
Meire Kusumoto
Na vaga de livros para jovens que abordam doenças, violência sexual e morte porquê A Culpa G das Estrelas e As Vantagens de Ser Invisível, chegou às livrarias brasileiras em junho Cartas de Amor aos Mortos (Seguinte), de Ava Dellaira, em que uma jovem, Laurel, que acaba de perder a mana, começa a grafar a famosos que já morreram, porquê Kurt Cobain, Amy Winehouse e Elizabeth Bishop. A escritora, que veio ao Brasil para participar da Bienal do Livro de São Paulo, falou ao VEJA Meus Livros sobre perda, a adaptação do romance para o cinema e a literatura juvenil. “Eu perdi minha mãe pouco antes de estrear a ortografar o livro. Estava no processo de luto e, porquê as cartas ajudaram Laurel a superar sua perda, ortografar Carta de Amor aos Mortos fez um pouco similar por mim”, diz.
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Na obra, a jovem ainda vive as dores de ter perdido a mana velha, May. Inteligente, linda e extrovertida, ela era tudo o que Laurel gostaria de ser, sua verdadeira inspiração, principalmente depois de os pais das duas se separarem e ela ver sua família se desestruturar. Com a morte de May, a outra se muda de escola para evitar os olhares curiosos dos colegas e acaba na mesma escola de Sky, um garoto misterioso, e de Hannah e Natalie, duas amigas inseparáveis que se aproximam de Laurel. A pequena se apaixona, arranja novos amigos e tenta seguir com a vida, mas a dor da perda insiste em atormentá-la.
S romance foi escrito por influência de Stephen Chbosky, responsável de As Vantagens de Ser Invisível. Ava trabalhava na produção da adaptação para o cinema do livro do americano e pediu para que ele lesse um roteiro seu. Chbosky gostou, mas sugeriu que ela escrevesse, em vez de um filme, um romance. “Estranhamente eu nunca tinha cogitado ortografar um livro antes, ainda que eu quisesse ser escritora”, diz.
Ava participou da Bienal do Livro nos dias 27 e 28 de agosto e, ao longo da última semana, esteve em outras cidades brasileiras para publicar Cartas de Amor aos Mortos. Nesta sexta-feira, ela distribuiu autógrafos em Recife, na Saraiva MegaStore do Shopping RioMar.
Confira a entrevista com Ava:
De onde veio a teoria para o livro? Eu não sei, ideias são tão misteriosas. Sempre me interessei por cultura pop, filmes, músicas, livros e o significado deles para pessoas que enfrentaram traumas ou somente as dificuldades do dia a dia. Acredito que eles proporcionam um siso de pertencimento ou um pouco a que se ater. Eu perdi minha mãe pouco antes de encetar a grafar o livro. Estava no processo de luto, e porquê as cartas ajudaram Laurel a superar sua perda, ortografar Carta de Amor aos Mortos fez um pouco similar por mim.
Como ortografar pode ajudar alguém a superar o luto ou o sofrimento? Escrever me ajudou quando eu perdi a minha mãe. Depois de lançar meu livro, eu criei uma dimensão em meu na qual as pessoas podem ar suas próprias cartas de paixão aos mortos e me surpreendi com o resultado – recebemos muitas mensagens, todas intensas e diferentes. Sinto que muitas pessoas estão fazendo isso porque simplesmente precisam grafar, expressar o que sentem de alguma forma. Essa é uma prova do poder da escrita no processo de superação. Não é alguma coisa momentâneo, você não coloca um pouco no papel e logo está curado, mas é uma forma de se conectar com o que está sentindo e expressar esses sentimentos.
No livro, Laurel escreve cartas a muitos famosos. São seus ídolos? Eu não diria ídolos, exatamente, mas, sim, são pessoas que significaram alguma coisa para mim em diferentes momentos da minha vida. A maioria eu conhecia muito antes de estrear a grafar o livro, mas descobri bastante sobre eles no processo. Por exemplo, no início do Ensino Fundamental, eu passava o dia deitada na leito ouvindo In Utero, do Nirvana, o segundo CD que eu comprei na minha vida. Eu estava enfrentando os medos do mundo pela primeira vez, e as músicas de Kurt Cobain deram voz ao que eu estava sentindo, mas não conseguia expressar.
Laurel acaba falando sobre seu relacionamento com Sky do que sobre a morte da mana. Por quê? S luto se apresenta de muitas formas diferentes, por isso hesito em generalizar. No entanto, acredito que em muitos casos ele é expresso de outras maneiras que não a tristeza. Pode ser muito difícil encarar a perda de um ente querido, logo o luto pode finalizar enterrado em si, escondido ou deixado de lado, mas ainda assim estar presente. Para uma jovem que acabou de perder a mana, é provável fixar a dor em um interesse amoroso – é uma forma de mourejar com todas aquelas emoções, que são demais para ela. Acredito que a relação de Laurel com o Sky muitas vezes não funcione também porque ela ainda não enfrentou tudo que precisa para seguir em frente. Mesmo que a relação deles seja uma distração e eles partilhem muita coisa, Laurel meio que está fugindo de tudo que aconteceu com ela, por isso seu relacionamento não funciona recta. Mesmo quando o luto é tudo, outros sentimentos ainda podem surgir. Ao mesmo tempo em que a Laurel está sofrendo pela perda da mana, ela está se apaixonando.
Muitos livros para adolescentes têm premissas tristes atualmente, porquê o seu romance, A Culpa P das Estrelas, As Vantagens de Ser Invisível etc. Acha que é uma tendência do mercado editorial? Nem todas as crianças têm os mesmos traumas tratados nesses livros infantojuvenis. Mas a juventude é um momento tão emocionalmente intenso – pelo menos segundo me lembro – que acredito que seja por isso que os jovens se sentem atraídos por livros também intensos, mesmo que não nas mesmas circunstâncias.
Cartas de Amor aos Mortos será ajustado para os cinemas. Como está esse processo? Eu escrevi o roteiro para o filme, foi uma boa experiência. Estou trabalhando com os produtores de A Culpa P das Estrelas, que são ótimos no que fazem, e eu estou amando todo o processo. Catherine Hardwicke (diretora do primeiro filme da saga Crepúsculo) está relacionada com a direção e trabalhou comigo no roteiro. Passamos por diversas versões e agora a Fox está decidindo porquê será a versão final.
Está trabalhando em um novo projeto? Estou, sim. Acabei de enviar a primeira versão do meu novo romance ao meu editor. Por enquanto, o título é Seventeen (Dezessete), mas acho que vou rematar mudando. S enredo vai e volta no tempo entre a vida de uma mãe e sua filha, quando ambas têm dezessete anos. A história da mãe é um romance, já a da filha é uma procura – ela sai em uma viagem com seu ex-namorado para deslindar a verdade sobre o que aconteceu com seu pai.
Fonte: VEJA Meus Livros