Entropia e anomia

Por meu pai, minha mãe, minha mulher, as duas filhas e pelos (poucos) amigos que me desanimaram de entrar para a política – nas raras vezes que seriamente cogitei – eu digo obrigado! E aproveito para agradecer a Deus os talentos que me deu e que procuro multiplicar, estudando, refletindo, me redimindo de forma a não precisar transpor dos trilhos para sobreviver com conforto. S que todos nós vimos ontem, ao vivo e direto do Congresso Nacional, é espetáculo que dispensa quaisquer adjetivos ou discursos acerca da tragédia que é a nossa democracia representativa.

E estar dentro dela só é provável para três tipos de pessoa: os jovens sonhadores (sonhar é bom, mas tem de ter prazo de validade), os espertalhões sem limites que procuram o guarda-chuva da isenção e os meninos bobos cujos papais e vovôs fazem da política a profissão deles até por que na maioria esmagadora dos casos, falta-lhes cociente de lucidez para outra profissão de destaque, porquê fazem questão os amantes do faz de conta. A política de pai prá fruto no nosso país é asquerosa porque não exige do herdeiro qualquer qualidade, reverência ou palato pela coisa pública.

Quando vejo aquelas figuras caricatas no papel de crianças carentes, que vão ao parque pela primeira vez, me pergunto se não deveria ouvir Martin Luther King e sua frase de valor inquestionável: “S que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Como posso permanecer cá, falando mal, ao invés de disputar eleição, buscar um procuração e contribuir, tratar o procuração com o mínimo de seriedade? Por que não aproveitar a exposição que o jornalismo me dá, me deixar seduzir pelas sugestões de candidatura de todo dia e dos convites para filiação que sempre aparecem? Quando me vejo no auge da incerteza, levo um belisco da consciência advertindo que no rádio, na TV, no jornal ou em outro meio, sem cor partidária, posso ser útil. E logo retomo a crença de que o meu caminho é outro. Até por que já não sou menino e fatalmente teria a saúde afetada pelo convívio quotidiano com algumas figuras que frequentam o Congresso Nacional. Não gostaria de toma moca toda tarde com Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Paulinho da Força e adjacências.

Sempre é bom lembrar que os deputados não caíram do firmamento; nós os colocamos lá, com nosso voto. E, para o muito da democracia representativa que temos, é bom respeitá-los (quem acha que a outra forma, direta, pode ser melhor deve ver imediatamente uma reunião de condomínio). Os senhores deputados e as senhoras deputadas são o retrato do nosso país, da nossa sociedade. Temos de manter a frieza do Cunha, que não reage ao ser chamado de gangster; tolerar imbecilidade, hipocrisia e má fé de tantos porque assim é a vida... Como ela é!

Pense comigo o que é pior: gente porquê o Jair Bolsonaro que defende torturadores, odeia gays e outras minorias ou o Jean Willys, que defende as liberdades e cospe em Bolsonaro? Pior é a turma da direita, o reacionário que agora vai lutar por 100 anos sem qualquer chance de subida para os pobres ou o militante de esquerda, petista enfastiado que encheu nossa paciência durante décadas, patrulhou todo mundo 30 anos e, tendo chance de poder, meteu a mão com força, com sede de roubar e errar, a ponto de se misturar com Renan, Sarney, Collor e todos os outros coronéis?

Quem deixa intrigada a nossa cabeça: o Newton Cardoso Júnior votando contra a devassidão ou a Jô Morais pedindo reverência depois de 13 anos de obscenidade na cozinha de seus companheiros? E os religiosos, hein? Falando de Deus... Sei que vou passar pelo umbral e estou me preparando; caso contrário, não desejaria vê-los lá. Não consigo ser bom o bastante para invocar essa escol política de mana.

Nietzsche falou que, quando a gente acorda, de noite, sobressaltado, os fantasmas que já vencemos voltam para nos assombrar. Como não conseguia pegar no sono de domingo pra segunda, lembrei-me do camarada e mentor Luís Borges que tem falado muito sobre duas palavras. Diz ele que nos sentimos na “anomia”- estado de falta de objetivos e regras e de perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno, ou, não nos sentimos representados por aqueles senhores; e que, no mundo de nossos governantes o tempo é de “entropia” - em termodinâmica, é a medida de desordem das partículas em um sistema físico - no contexto das partículas, porquê sabemos, ao sofrerem mudança de temperatura, os corpos alteram o estado de desordem de suas moléculas. Então considerarmos esta desordem a desordem do sistema.

Fonte: Blog do Eduardo Costa - Últimas Notícias de -