Em guerra síria, hackers pró-Assad travam batalhas contra Ocidente na internet
Luciana Alvarez
Exército Eletrônico Sírio possui relação obscura com regime, um dos mais bem sucedidos em controlar internetEntre todos os governos que enfrentaram os levantes populares da Primavera Árabe, o da Síria foi o que melhor soube usar a internet em seu favor. Se na Tunísia, Líbia e Egito as redes sociais virtuais foram decisivas para organizar os opositores, no país ela é também uma ferramenta do governo oficial, que usa as novas tecnologias de comunicação como máquina de propaganda e como uma arma de ataque aos ditos inimigos.
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O presidente sírio, Bashar al-Assad, encara a internet como mais um de seus campos de batalhas, uma visão que está de acordo com o seu passado. Antes de assumir o governo da Síria, Assad era um grande defensor da modernização e da internet no país, e chegou a ocupar a presidência da Sociedade Síria de Informática.
Desde abril de 2011, um grupo autodenominado Exército Eletrônico Sírio (SEA, na sigla em inglês) passou a realizar diversas ações de “ativismo hacker” pró-governo Assad. Em comunicados online, o grupo diz ser motivado por patriotismo sírio e garante que age de forma independente do regime de Damasco.
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Embora o SEA alegue ser “independente”, o pesquisador Helmi Noman, da Universidade de Toronto, descobriu que o domínio do website usado pelo grupo, syrian-es.com, foi registrado pela Sociedade Síria de Informática, que Assad dirigiu. O jornal britânico The Guardian fez reportagem mostrando que o SEA foi fundado por Rami Makhlouf, um primo do presidente e dono de um provedor de internet e de telecomunicações do país.
Ainda assim, ninguém sabe dizer com certeza se os membros do SEA são funcionários contratos pelo regime sírio ou simplesmente um grupo de hackers - provavelmente jovens muçulmanos da ramificação alauíta, a mesma de Assad - que age sob a complacência e estímulo do governo. De qualquer forma, desde 2011, o SEA tem sido o principal braço do regime sírio na ciberguerra.
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Em dois anos de atividades, o exército eletrônico já fez campanhas de spams nos perfis do Facebook do ex-presidente da França Nicolás Sarkozy e do presidente dos EUA, Barack Obama. Também hackeou as contas no Twitter e publicou informações falsas de grupos de mídia ocidentais que estariam “difamando o regime sírio”, como AP, BBC, e o programa de TV da CBS "60 Minutes".
Além disso, conseguiram tirar do ar por diversas horas sites da Universidade Harvard, do jornal The New York Times e da página de recrutamento dos Marines do Exército americano – os internautas acabavam redirecionados para páginas do grupo.
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Em uma entrevista por e-mail à BBC, um porta-voz do SEA disse que eles planejam “muitas surpresas”. “Uma intervenção militar na Síria tem muitas consequências, e vai afetar o mundo inteiro”, escreveu. Sobre a escolha dos alvos, o hacker respondeu: “Todas os grupos de mídia que atacamos estão publicando notícias falsas/fabricadas sobre a Síria."
Censura do regime
Ainda que tenha sido amplamente usada pelos opositores de Assad para se organizar, a internet na Síria é uma das mais estritas e vigiadas do mundo. Para o presidente, o esforço de “modernizar” as tecnologias não implica dar liberdade aos cidadãos.
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A Síria consta na lista dos “inimigos da internet” da entidade Repórteres Sem Fronteiras desde 2006, quando o levantamento começou a ser feito. Dados compliados pela ONG americana Freedom House mostram que a conexão de internet é centralizada e controlada pelo governo, que bloqueia inúmeros sites e rastreia usuários.
Veja imagens do conflito sírio desde o início do ano:

Tanque velho sírio é cercado por fogo após explosão de morteiros nas Colinas do Golan, território controlado por Israel (16/07)
Foto: AP

Combatentes do Exército Sírio Livre carregam suas armas e se preparam para ofensiva contra forças leais a Assad em Deir al-Zor (12/07)
Foto: Reuters

Combatente do Exército Livre da Síria corre para buscar proteção perto de aeroporto militar de Nairab, em Aleppo (12/06)
Foto: Reuters

Protesto em Beirute contra a participação do Hezbollah na guerra síria (09/06)
Foto: AP

Fumaça é vista no vilarejo sírio de Quneitra perto da fronteira de Israel´(06/06)
Foto: AP

Libanês foi ferido após segundo foguete de rebeldes sírios atingir sua casa em Hermel (29/05)
Foto: AP

Refugiados sírios são abrigados em prédio da cidade turca de Reyhanli, perto da fronteira com a Síria (12/05)
Foto: AP

Homens carregam ferido após explosão em cidade turca perto da fronteira síria (11/05)
Foto: Reuters

Explosão em cidade turca perto da fronteira com a Síria deixa dezenas de mortos (11/05)
Foto: Reuters

Residente caminha sobre destroços de prédios em rua de Deir al-Zor, Síria (09/05)
Foto: Reuters

Combatente do Exército Livre da Síria descansa em pilha de sacos de areia em campo de refugiados (06/05)
Foto: AP

Israel atacou instalações militares na área de Damasco, acusa Síria (05/05)
Foto: BBC

Reprodução de vídeo mostra fumaça e fogo no céu sobre Damasco na madrugada deste domingo (05/05)
Foto: AP

Presidente da Síria, Bashar al-Assad (D), visita universidade em Damasco (04/05)
Foto: AP

Reprodução de vídeo mostra corpos em Bayda, Síria (03/05)
Foto: AP

Bombeiros apagam fogo de carro em chamas em cena de explosão no distrito central de Marjeh, Damasco, Síria (30/04)
Foto: AP

Reprodução de vídeo mostra bombardeio em Daraya, Síria (25/04)
Foto: AP

Druso carrega retrato do presidente sírio em que se lê 'Síria, Deus protege você', nas, Colinas do Golan (17/04)
Foto: AP

Fumaça e carros destruídos na praça Sabaa Bahrat, em Damasco, após explosão de carro-bomba (08/04)
Foto: AP

Membro de Exército da Libertação da Síria segura arma em rua de Deir al-Zor (02/04)
Foto: Reuters

Reprodução de vídeo mostra militantes do Exército Livre da Síria durante combates em Damasco (25/03)
Foto: AP

Manifestantes protestam contra Bashar al-Assad em Aleppo, na Síria (23/03)
Foto: Reuters

Mesa de xeque Mohammad Said Ramadan al-Buti, aliado de Assad, é vista após ataque em Damasco (21/03)
Foto: AP

Sírio vítima de suposto ataque químico recebe tratamento em Khan al-Assal, de acordo com agência estatal (19/03)
Foto: AP

Sírias são vistos perto de corpos retirados de rio perto de bairro de Aleppo (10/03)
Foto: AP

Reprodução de vídeo mostra soldado do governo sírio morto em academia de polícia em Khan al-Asal, Aleppo (03/03)
Foto: AP

Homem chora em local atingido por míssil no bairro de Ard al-Hamra, em Aleppo, Síria (fevereiro)
Foto: Reuters

Membro do Exército Livre da Síria aponta arma durante supostos confrontos contra forças de Assad em Aleppo (26/02)
Foto: Reuters

Membros de grupo islâmico seguram armas durante protesto contra regime em Deir el-Zor (25/02)
Foto: Reuters

Morador escreve em lápide nome de neta morta em ataque contra vila em Idlib, Síria (24/02)
Foto: AP

Chamas e fumaça são vistas em local de ataque no centro de Damasco, Síria (21/02)
Foto: AP

Rebeldes do Exército Livre da Síria preparam munições perto do aeroporto militar de Menagh, no interior de Aleppo (25/01)
Foto: Reuters

Rebeldes da Frente al-Nusra, afiliada à Al-Qaeda, seguram sua bandeira no topo de helicóptero da Força Aérea da Síria na base de Taftanaz (11/01)
Foto: AP

Crianças sírias viajam em caminhonete em Aleppo (02/01)
Foto: Reuters
No país, a internet foi liberada no ano 2000; dez anos depois, mais de um quinto da população tinha presença online. Mas os sírios não conseguem acessar sites de grupos de direitos humanos, da Irmandade Muçulmana, ou de ativistas da minoria curda, entre outros assuntos considerados sensíveis pelo regime. Sites de alguns jornais libaneses e qualquer domínio de Israel (.il) também são bloqueados, segundo testes conduzidos em 2008 pela OpenNet Initiative.
Em uma ação inesperada, o governo sírio liberou em fevereiro de 2011 o acesso ao Facebook e ao YouTube – um ano depois, ambos estavam na lista dos cinco sites mais acessados na Síria. Alguns opositores dizem suspeitar que, mais do que uma medida de relaxamento da censura, essa permissão teve como objetivo tornar mais fácil rastrear e identificar os muitos ativistas online.
Fonte: Notícias do Último Segundo: o que acontece no Brasil e no Mundo