Em cerimônia de desabafos e estranhezas, Oscar consagra metalinguístico “Birdman”

Em uma cerimônia com sérios problemas de ritmo, um host inseguro e pouco engraçado, mas com discursos emocionantes e um inesperado e acintoso tom político, a 87ª edição do Oscar reiterou algumas convicções que se enunciaram ao longo da temporada e consagrou “Birdman ou a inesperada virtude da ignorância” porquê a melhor produção de 2014. S filme de Alejandro González Iñárritu, que já era o predilecto consumado, venceu os Oscars de filme, direção, roteiro original e retrato. “Boyhood – da puerícia à juventude” acabou triunfando exclusivamente na categoria de atriz coadjuvante com Patricia Arquette.

“S Grande Hotel Budapeste” prevaleceu nas categorias técnicas conquistando os Oscars de direção de arte, trilha sonora, maquiagem e figurino. “Whiplash” ficou com três Oscars (Montagem, mixagem de som e ator coadjuvante). Por um breve período, essas duas pequenas joias tão avessas a iconografia do Oscar dividiam a liderança em prêmios.

Foi uma noite estranha. A orquestra muito que tentou, mas não conseguiu intimidar o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, o polonês Pawel Pawlikowski por “Ida”, a interromper seu emocionado exposição de gratulação. A famosa “musiquinha do Oscar” perdeu o reverência. Lady Gaga, por seu vez, mostrou uma voz poderosa em uma homenagem aos 50 anos de “A noviça rebelde”. Meryl Streep foi muito sucedida no teleprompter do In memoriam do que em “Caminhos da floresta”; a performance da cantiga “Glory” verteu lágrimas insuspeitas; Benedict Cumberbtach não fez nenhuma photobomb e Neil Patrick Harris foi um host muito menos feliz do que se poderia imaginar. Além, é evidente dos discursos pró-minoria. Eles vieram de todos os lados. Patricia Arquette içou a bandeira do feminismo em seu exposição de congratulação e deu a Meryl Streep a oportunidade de ter um meme para si. Graham Moore, vencedor do Oscar de roteiro ajustado por “S jogo da imitação” lembrou-se de quando quis se suicidar aos 15 anos por ser dissemelhante e frisou que seu sucesso, seu momento, deve servir porquê exemplo e cunhou a hashtag “stay weird”. John Legend falou dos negros, Iñarritu dos mexicanos e essa é somente a ponta do iceberg dos discursos de fundo político. E nem falamos ainda do vencedor de melhor documentário, “Citizenfour”.

Meryl vira meme...  (Foto: divulgação)

Meryl vira meme…
(Foto: reprodução/twitter)

Com tanta consternação, o cinema – principal elemento da noite e do bom número de franqueza da cerimônia – parecia colaborar do que nunca na cerimônia. Apesar desta sensação, trata-se de uma das edições justas do Oscar nos últimos anos. Não houve nenhuma clamorosa injustiça e “Birdman”, que fez a ateneu casar os prêmios de direção, filme e roteiro pela primeira vez desde 2011, era, de veste, o melhor entre os concorrentes a melhor filme. A última vez que o melhor foi eleito o melhor foi em 2008, quando os Coen triunfaram com “Onde os fracos não têm vez”.

A vitória de “Birdman”, porquê a poste já aventava, reflete o status quo não só da indústria, mas da própria ateneu. Hollywood se sustenta com as franquias milionárias, mas se embevece com filmes relevantes porquê os que tenta reunir nesta noite de gala. A procura por relevância é, também, do Oscar coadunado cada vez com o cinema independente. “Birdman” é cinema de colhões, corajoso, porquê muito definiu Michael Keaton e sua vitória também deve ser celebrada neste contexto, não só pelo que ela diz sobre a ateneu e o momento de Hollywood.

Se a noite foi de Iñarritu, que ganhou pessoalmente três Oscars, o mesmo não se pode manifestar de Richard Linklater e Wes Anderson que pessoalmente não ganharam nenhum dos troféus a que concorriam.

Vitória de "Birdman": filme de colhões  (Foto:AP)

Vitória de “Birdman”: filme de colhões
(Foto:AP)

A opção por Eddie Redmayne em detrimento de Michael Keaton reitera, não somente a força do sindicato dos atores, porquê a percepção de que enquanto colegiado, a ateneu ainda não está preparada para se desligar de certos cacoetes porquê o da “performance de Oscar”, padrão que também valeu o triunfo de Julianne Moore (“Para sempre Alice”) entre as atrizes.

Se a cerimônia dá bastante margem para discussão – certamente foi uma das decepcionantes em muitos anos, o resultado em si não pode ser muito contraditado. Com poucas surpresas, a 87ª edição do Oscar cumpriu o que prometia e consagrou pelo terceiro ano em quatro, uma produção que fala sobre o show business (“S artista” em 2012 e “Argo” em 2013 foram as outras). Viva a terapia assistida!

Fonte: Cineclube por Reinaldo Glioche - iG Cultura