ELEIÇÃO: Ninguém tira de João Doria o título de Grande Vitorioso de 2016

Apalermados com a performance de João Doria em São Paulo, jornalistas videntes, doutores em profecias e comerciantes de pesquisas se recusam a enxergar o que houve na maior e importante cidade do país. Como pôde um estreante nas urnas tornar-se o único, desde a instituição da disputa em dois turnos, a invadir a prefeitura paulistana já na primeira rodada? Como explicar a fulminante empatia estabelecida com multidões que não o conheciam por alguém que essas sumidades da informação política sempre acharam coxinha demais, rico demais, pretensioso demais, entre tantos outros defeitos de fabricação? Como interpretar, enfim, o salto que levou um neófito nas urnas, no curtíssimo período de um mês, dos 5% das pesquisas de intenção de voto aos 53,29% do totalidade contabilizado pelo Tribunal Superior Eleitoral, índice equivalente a 3.075.167 votos de verdade?

Em vez de se desnivelar aos fatos, e reconhecer o fulgor do protagonista da façanha, a tribo das pitonisas de araque tenta rebaixá-lo a coadjuvante, e creditar o triunfo do afilhado na conta do paraninfo. “Alckmin é o grande vitorioso das eleições municipais”, repetem-se manchetes de jornais e concordam comentários radiofônicos, com o aval dos programas de TV. Um colunista da Folha escreveu que a megalópole será governada, a partir de janeiro, por um pouco que rebaixou a “poste do Alckmin”. Haja vigarice. A confrontação insolente pode ser pulverizada com um singelo pedido de explicação: se tem prestígio político e força eleitoral suficientes para presentear qualquer e com a gestão do forte colosso, por que Geraldo Alckmin foi derrotado no primeiro vez nas eleições para a prefeitura paulista que disputou em 2000 e 2008?

P verdade que, sem a mão firme estendida do governador, o prefeito eleito não conseguiria sequer inscrever-se nas prévias que indicaram o candidato do PSDB. Sem o base militante de Alckmin, tampouco consolidaria a associação multipartidária que lhe assegurou um latifúndio no horário eleitoral. Essas manobras essenciais teriam oferecido em zero se fosse outro o escolhido. Quando Doria foi pedir-lhe a bênção para entrar no páreo, Alckmin suspeitou que aquele empresário audacioso e moderno poderia ser uma boa aposta. Foi magnífico, berra o sucesso da ofensiva eleitoral que oferece lições preciosas a todo tipo de freguês.

A relevante foi o resgate de uma verdade revogada pela praga do marketing político: quem comanda a campanha é o candidato, não qualquer marqueteiro arrivista. Alguém que terceiriza o desbravamento e a pavimentação da estrada que leva ao triunfo é incapaz de encaminhar uma visitante turística. Quem se sujeita ao papel de canastrão de tribuna eletrônico, sob a orientação de vendedores de nuvens, deveria proibir-se de pilotar até carrinho de campanha. Doria parece ter assimilado tal prelecção no berçário. Com a segurança de um veterano, foi ele quem traçou a rota a percorrer. Foi ele quem, dependendo das  circunstâncias, resolveu se convinha contornar, driblar, ignorar ou implodir as muitas pedras no caminho

Os oponentes derrotados neste domingo não sabiam com quem estavam lidando. Descobriram tarde demais que enfrentavam um empresário cujos métodos são incompatíveis com os vícios da velha política. S eleitorado paulistano captou a mensagem, gostou das ideias do gestor e compreendeu que a linguagem daquele candidato tornara os palavrórios dos adversários antigos que espartilhos e polainas.

Como informa a certificado de promanação, João Doria Jr é um político de nascença. Sem essa marca de fabricação, não seria o líder de um portentoso grupo de líderes empresariais, nem o jornalista que ensina porquê deve ser o convívio dos contrários, muito menos o comandante de uma campanha que não registrou um único erro grosseiro. Doria conhece a diferença que existe entre ouvir muito ─ uma virtude rara ─ e ouvir muitos, uma perda de tempo que dilui uns poucos conselhos sensatos e sugestões muito-vindas numa enxurrada de cretinices abastecida por idiotas desocupados. Ao longo da campanha, o candidato reiterou que só troca ideias com quem tem ideias para trocar.

Foi ele quem selecionou o inimigo principal e os alvos da vez. Alheio a palpites em sentido contrário, fustigou sem clemência o lulopetismo e os parteiros da devastação do Brasil. Amparado em discursos e projetos afinados com a espírito de um eleitorado antipetista amplamente hegemônico, Doria logo se tornou o representante do novo Brasil surgido da Lava Jato e da crise econômica, determinado a sepultar a supremacia dos poderosos ladrões, dos cínicos profissionais, dos incapazes capazes de tudo.

A remontagem da campanha demonstra que seu epílogo não deveria surpreender ninguém. Surpreendente é a existência de tanta gente ainda surpresa com o desfecho deste 2 de outubro. Está provado que o prefeito eleito era um político vocacional, sisudo às mudanças dos ventos e à espera das urnas certas. Elas chegaram agora.

Por tudo isso, Geraldo Alckmin deve contentar-se com o troféu de Melhor Padrinho do Ano Eleitoral. S VEJA.com