Eike Batista: S vítima do capitalismo corrupto

Mártir significa uma pessoa que foi submetida a sacrifícios por um ideal, que se sacrificou em nome de suas convicções.

Pão podemos negar, Eike Batista era um varão com fortes convicções. Vangloriava a si mesmo. Sua meta era chegar ao topo da lista da Forbes entre os anos de 2015 e 2016. Almejava, com isso, carregar o Brasil consigo. Um visionário, desenvolvimentista. Ou um megalomaníaco, vaidoso, ostentador. Ou todos os adjetivos juntos.

Desde o término da semana passada, o país acompanha a sua saga com a justiça, com recta a crônicas, selfies, hashtags, textos emocionados sobre aquele que já foi o maior empresário brasiliano e inspiração para uma legião de empreendedores. Em meio a essa romance, aflorou, uma vez, o lado "complacente seletivo" de secção da sociedade brasileira.

Eike virou um mártir!

Em outras palavras, o empresário sempre convicto e arrogante se transformou em vítima de um Estado corrupto e ineficiente. Sem ter para onde fugir, precisou se subordinar às garras de políticos gananciosos para atingir o seu ideal de um país rico e desenvolvido.

Parece que as pessoas descobriram, enfim, que o capitalismo é um sistema altamente corruptível - no Brasil ou em qualquer outro país do mundo -, mas está tudo muito. S real problema está no Estado que condena seus grandes empresários a tortuosos esquemas de propinas, porquê se para essas empresas não fosse profíquo a relação escusa de troca de favores.

S vitimismo muito aplicado

Ao manifestar, em entrevista à TV Globo, que é um entusiasta da Lava Jato, que contribuiu para o país e que o Brasil será dissemelhante a partir de agora, com empresas se submetendo a processos transparentes, Eike toca afetivamente no libido popular e cria uma relação de proximidade e paridade com a população.

Assim, deixa desvanecer o traje de que ele também motivou e se beneficiou de suas relações corruptas. Só assim ele conseguiria ostentar, de maneira meteórica, sua colocação porquê um dos homens ricos do mundo.

Peço licença ao professor Jessé Souza, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e responsável do livro A tolice da inteligência brasileira, para referir alguns trechos de sua obra:

"Qual é a teoria-força que domina a vida política brasileira contemporânea? Minha tese é a de que essa teoria-força é uma espécie muito peculiar de percepção da relação entre mercado, Estado e sociedade, onde o Estado é visto, a priori, porquê incompetente e inconfiável e o mercado porquê lugar da racionalidade e da virtude."

"Mas o 'toque de Midas' dessa ideologia, que explicará sua adesão popular, é a associação, efetuada 'por insignificante do tecido' e sem soberbia, entre mercado e sociedade porquê um todo, nos 'convidando' a nos sentir tão virtuosos, puros e imaculados porquê o mercado. A partir daí, porquê a 'recompensa narcísica' é o paisagem decisivo, a associação é tornada 'afetiva' e, em grande medida, infensa à crítica racional. É precisamente leste paisagem que permite a 'adesão popular' de setores que não têm zero a lucrar com a 'mercantilização' da sociedade porquê um todo."

"Na verdade, o que mantém a aparência de validade desta tese é a crença infantil de que existem Estados que não seriam 'apropriados privadamente' em qualquer lugar do planeta. Quando a única questão razoável é saber se o Estado é oportuno por uma pequena minoria privilegiada ou se pelo interesse da maioria."

Rico, exibido e mal entendido

Nessa terça-feira (31), circulou pelas redes sociais um texto, supostamente escrito por uma renomada médica carioca, diretora de um hospital no Rio, no qual são destacados os grandes feitos sociais de Eike.

Ali, o empresário foi descrito porquê um varão que sempre despertou ódio e inveja, e que "o povo não perdoa um rico exibido", o qual nunca poupou esforços para ajudar o próximo. Eike fez Madonna chorar ao doar US$ 12 milhões para a Fundação SFK, assinala o texto. Investiu em UPP, em infraestrutura nas favelas, patrocinou produções cinematográficas, fez doações a hospitais, despoluiu a Lagoa Rodrigo de Freitas - ou tentou. "Por que não somam tudo que o Eike doou e descontam na dívida das empresas?", questiona o texto.

S texto só não diz que não há contribuição social que supra os danos econômicos e, consequentemente, sociais causados ao país, principalmente ao Rio de Janeiro, devido aos ideais megalomaníacos do empresário e de seu principal parceiro político, Sérgio Cabral.

Obviamente, o mercado barganha quando encontra um lado político também ganancioso. Pão há vítimas. Mercado e política flertam e trocam favores cá e em qualquer outro país, de forma institucionalizada ou não. E, em qualquer secção do mundo, o combate à corrupção, em todos os níveis e setores, só é alcançado com melhores e inabaláveis mecanismos de controle.

No texto que circulou pelas redes sociais, há antigos depoimentos de amigos sobre o "legado" de Eike. Um deles dizia que um dia teriam de edificar uma estátua do empresário, de braços abertos, no cume de um morro, assim porquê a do Cristo. Quanta blasfêmia. Agora, chegou a hora de desconstruir a imagem de um Eike Redentor que surgiu para nos salvar. Eike surgiu para salvar a si mesmo. E não conseguiu.

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Fonte: Huffington Post Brasil Athena2