Dúvidas sobre passado minaram chances de Bergoglio ser papa em 2005, diz livro
Raphael Gomide
Em 'O Homem que Não Queria Ser Papa', correspondente no Vaticano diz que medo de eventual cumplicidade com ditadura não tornou argentino 'escolha segura' para cardeaisAs dúvidas sobre a eventual cumplicidade de Jorge Mario Bergoglio com o violento regime militar da Argentina (1976-83) teriam impedido que ele se tornasse papa já em 2005, no conclave que elegeu o cardeal alemão Joseph Ratzinger como papa Bento 16. Neste ano, Bergoglio, que ficou em segundo lugar há quase oito anos na disputa, teve nova chance e foi eleito papa Francisco.
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A revelação é do jornalista alemão Andreas Englisch, correspondente no Vaticano desde 1986, em seu livro “O Homem que Não Queria Ser Papa”, de (Ed. Universo dos Livros), cujo protagonista é Bento 16. Segundo Englisch, Bergoglio “estava pronto” para ser papa, mas o colégio de cardeais eleitores temeu escolher um papa que pudesse ter depois revelada uma história de parceria com um dos regimes mais violentos da América Latina. Acabaram optando pelo alemão Ratzinger.
'Genial, corajoso e experiente'
No livro, Englisch diz que “um homem estava pronto para assumir essa empreitada: o argentino Jorge Mario Bertoglio. Ele era considerado genial, corajoso e experiente. Conhecia a Igreja Católica no mundo inteiro e era considerado excelente teólogo." De acordo com o autor, porém, as "vozes sussurrantes" que apontavam suspeitas de suposta aliança com a ditadura argentina impediram sua eleição. "Bergoglio não era uma escolha segura."
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A primeira opção teria sido outro jesuíta, o italiano Carlo Maria Martini, o mais cotado quando o polonês Karol Wojtyla foi eleito como papa João Paulo 2º (1978-2005), “eterno segundo” e “estrela da igreja”. Mas Martini envelheceu, passou a sofrer de mal de Parkinson e foi descartado.
Surgiu então o nome de Bergoglio. “Mas ele não ergueu o olhar para os cardeais que o observavam de suas mesas. Com as sobrancelhas prateadas e bolsas escuras debaixo dos olhos, ele mais parecia um corvo velho observando a urna de eleição. Com certeza, percebeu que ganhava cada vez mais votos. A expressão amarga ao redor de sua boca deixava claro para os cardeais que ele sabia das vozes sussurrando atrás dele, nos corredores vazios do hotel cardinalício Domus Sanctae Marthae. Seus inimigos dizem que ele havia se aliado aos assassinos da junta militar argentina. Bergoglio não conseguiu fazer esses rumores desaparecerem e sabia perfeitamente da suspeita sobre ele, de ter delatado alguns padres em 1976, para a junta militar.”
'Fiz o que pude'
Em entrevista ao jornal O Globo, Estela de la Cuadra, cujo irmão – o sacerdote jesuíta Orlando Yorio – foi preso e torturado na Escola Mecânica da Armada (Esma, usada durante a ditadura militar argentina como centro de detenção de presos políticos), afirmou que “a Igreja Católica escolheu uma pessoa que foi cúmplice de um regime genocida”.
Em sua biografia autorizada “O Jesuíta”, escrita por Sergio Rubin e publicada em 2010, Bergoglio refutou as acusações. “Fiz o que pude, com a idade que tinha e as poucas relações com que contava, para advogar pelas pessoas sequestradas.”
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No entanto, as dúvidas perante a dificuldade de comprovar ou refutar afirmações e sussurros de corredores que o acompanharam durante boa parte da vida levaram os colegas a optar por outro cardeal.
“Ele também não era um herói. Mas e se foi cúmplice? Como os cardeais poderiam prestar homenagem a tal papa? Eles não conseguiriam se livrar dele depois da eleição sem que isso se transformasse em escândalo. Poderiam até contar com uma renúncia voluntária, mas, no pior dos casos, teriam de esperar até sua morte. Muito arriscado. Bergoglio não era uma escolha segura”, disse , questionou Englisch.
A redenção
Diferentemente do também jesuíta Martini, já sem forças quando João Paulo 2º morreu, o argentino ainda era papável quando Bento 16 deixou o posto máximo da Igreja. Tivesse o antecessor morrido ou renunciado depois de 17 de dezembro de 2016, quando completa 80 anos, estaria fora do rol de elegíveis. Mas aos 76 anos, embora sem parte de um pulmão, Bergoglio está forte o suficiente para o pontificado e teve a segunda oportunidade que faltou a Martini. Em tom de brincadeira, disse aos cardeais no jantar após a eleição, na quarta-feira (13): “Deus os perdoe pelo que fizeram.”
Nome é referência a Francisco Xavier
Foi o eleito e escolheu o nome de Francisco. Segundo o Portal Jesuítas Brasil, a escolha “faz referência a São Francisco de Assis, que fundou a ordem dos Franciscanos, mas principalmente a São Francisco Xavier, conhecido como missionário do Oriente e um dos fundadores da Companhia de Jesus”.
O espanhol São Francisco Xavier era amigo de Santo Inácio de Loyola e embarcou para a Índia em 1541 com a missão de evangelizar o Oriente. Morreu em 1552 e foi canonizado em 1662. Fundada em 1534, no contexto da Reforma, a Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos como jesuítas, é caracterizada por seu trabalho missionário e educacional e foi usada como um dos mais poderosos instrumentos de contra-Reforma, conquistando novos adeptos do catolicismo pelo novo mundo.
Daí por que o papa Francisco, o primeiro jesuíta e latino-americano no cargo máximo da Igreja, sinaliza que pretende conduzir um pontificado de evangelização pelo mundo, em busca de atrair e reconquistar fiéis perdidos.
Fonte: Notícias do Último Segundo: o que acontece no Brasil e no Mundo