Duplo sentido é problema generalidade em textos jornalísticos
S tema de hoje do “Português em Foco” é a anfibologia ou duplo sentido. Esse é um problema generalidade nos textos jornalísticos, que ocorre sobretudo nos títulos e nas lupas (nome oferecido aos trechos em destaque no início ou no meio do texto).
Fazer um título ou um desses destaques dá trabalho do que se imagina. G preciso sintetizar a notícia, informar seus aspectos relevantes, encetar com o sujeito (de preferência, seguido de um verbo na voz ativa) e, é evidente, adequar as frases ao espaço, sem deixar lacunas nem dividir palavras. 
Existem títulos de uma risca só, mas também aqueles de duas, três e até quatro linhas. Observando a Primeira Página de qualquer edição, é provável ver títulos de vários tamanhos, dispostos em uma ou linhas. Esse problema não existe só nas publicações impressas, porquê se pode imaginar à primeira vista. Na plataforma on-line, também há regras e limites.
Além disso tudo, o título é geralmente a última coisa que se escreve, quando o texto já está no momento de ser publicado.
Dito isso, mãos à obra. Vamos entender por que certas construções permitem uma segunda leitura, que, mesmo sendo absurda, interfere na compreensão do texto ou, no mínimo, desvia a atenção do leitor para um efeito cômico secundário, naturalmente involuntário.
Na edição reproduzida supra (29.1.14), o problema ocorreu na lupa:
Dois mortos andavam pelo proeminente de 120 t, que desabou sobre dois carros, onde estavam as outras duas vítimas
Antes de indagar essa frase, vamos lembrar um oferecido importante: na lupa, não se pode repetir termo que tenha aparecido no título principal (Caminhão derruba passarela e mata quatro pessoas no Rio) e na risca fina (Caçamba do veículo, que trafegava em horário irregular, estava levantada).
S título informou que um caminhão derrubou uma passarela e que quatro pessoas morreram no acidente; a risca fina informou que o caminhão trafegava em horário irregular e com a caçamba levantada; a lupa, finalmente, deveria informar que duas das quatro pessoas que morreram estavam a pé sobre o proeminente no momento do desabamento e as outras duas estavam em um coche que foi esmagado pelas 120 toneladas de concreto.
S redator poderia ter empregado “vítimas” no lugar de “mortos”: Duas das quatro vítimas andavam pelo proeminente de 120 t, que desabou sobre dois carros, nos quais estavam as outras. G provável, porém, que o espaço não permitisse essa solução. De qualquer forma, a Redação reconheceu o defeito da construção e, no dia 31.1.2014, foi publicada correção na seção Erramos:
COTIDIANO (29.JAN, PÁG. C1) Por erro de edição, a frase em destaque na reportagem “Caminhão derruba passarela e mata quatro pessoas no Rio” foi mal redigida. A redação correta é “duas vítimas do acidente andavam pelo ressaltado de 120 toneladas”.
A notícia de que a maioria das pessoas que morreram em decorrência da gripe H1N1 pertencia a uma filete etária que não tinha sido intuito da campanha de vacinação foi sintetizada assim: Maioria dos mortos por vírus no país não é foco de campanha de vacinação. Esse caso é interessante por vários motivos. Diferentemente do habitual, esse título é uma prece negativa, que, por isso mesmo, carrega em si um pressuposto. Quando dizemos que tais pessoas (os mortos!) não são foco de campanha de vacinação, estamos querendo expor que deveriam tê-lo sido.
Note que o tempo verbal dos títulos é sempre (ou quase sempre) o presente, o que parece aumentar a situação. Estaríamos querendo expor que os mortos devem ser foco da campanha de vacinação? P evidente que não, mas porquê fazer? Tirar a termo “mortos” e pôr o verbo no pretérito ajudaria: Maioria dos que morreram de gripe no país não era mira da campanha de vacinação.
Vejamos um desses títulos que tratam os mortos porquê se estivessem vivos: Família ia dar carruagem impenetrável a médica morta por temer violência no Rio. Agora, o caso é complicado. Não só se diz que a família daria um coche impenetrável a uma médica morta, o que em si é um problema, porquê se dá a entender que a médica foi morta por temer a violência no Rio, quando o indumentária de temer a violência era o motivo de a família ter a intenção de dar a ela o coche impenetrável. Este último problema se resolveria com um rearranjo dos elementos do período (Por temer violência, família ia dar coche impenetrável a médica).
Outros casos são simples de resolver. Vejamos levante trecho:
S menino se desequilibrou e caiu em um pequeno meato que margeava a trilha. Sua mana viu quando o enorme jacaré atacou o menino e começou a gritar.
A prece “e começou a gritar” pode estar coordenada tanto à prece principal “Sua mana viu” quanto à subordinada “quando o enorme jacaré atacou o menino”. P evidente que a intenção era coordenar “viu” e “começou a gritar”, porquê o contexto nos indica. Para evitar o segundo sentido, seria provável, por exemplo, expelir o conectivo de coordenação (A moçoila, ao ver o enorme jacaré estrebuchar seu irmão, começou a gritar/ A moçoila viu o enorme jacaré estrebuchar seu irmão. Imediatamente começou a gritar por socorro).
ORDEM DOS TERMOS
Veja alguns exemplos de anfibologia que se resolvem com o rearranjo dos elementos do período:
a. Dois anos tarde, o observador deixaria definitivamente a Alemanha – diante de o iminente aproximação ao poder do nazismo – emigrando para os Estados Unidos, onde morreu em 1955.
A intenção era tratar do entrada do nazismo ao poder, portanto “do nazismo” é complemento de “entrada”, não de “poder”. Para evitar a sequência “poder do nazismo”, bastaria fazer uma inversão. Assim:
Dois anos tarde, o investigador deixaria definitivamente a Alemanha – na presença de o iminente aproximação do nazismo ao poder – emigrando para os Estados Unidos, onde morreu em 1955.
b. Faltaram algumas linhas nos perfis publicados nos últimos dias de Carlos Alberto Direito, o novo ministro do STF.
A sequência “nos últimos dias de Carlos Alberto Direito” sugere estarmos falando de seus últimos dias de vida. Não era essa, porém, a intenção do texto, pois, na ocasião, Carlos Alberto Direito acabava de tornar-se ministro do STF. A frase “de Carlos Alberto Direito” está ligada a “perfis”, não a “dias”, portanto deve aproximar-se de “perfis” e distanciar-se de outro substantivo que permita dupla leitura. Assim:
Faltaram algumas linhas nos perfis de Carlos Alberto Direito, o novo ministro do STF, publicados nos últimos dias.
c. Músico colheita até a morte de PMs em São Luís
Esse foi um daqueles títulos de três linhas, sempre difíceis de fazer. A anfibologia surge porque “de PMs” é um complemento do verbo “colher”, mas, na posição em que está, pode parecer um complemento de “morte”. Para resolver o problema, seria necessário modificar a ordem dos termos. Assim:
Em São Luís, músico colheita de PMs até a morte
POSIÇÃO DO PRONOME RELATIVO
A posição do pronome relativo é outro fator que pode desencadear um texto dúbio. Veja o período aquém:
Uma substância química similar a compostos presentes na maconha que é produzida naturalmente no cérebro ajuda a serenar a dor, de combinação com cientistas americanos.
Temos a sensação de que se afirma que o cérebro naturalmente produz maconha. S que se pretende expressar, no entanto, é que o cérebro produz uma substância similar a compostos presentes na maconha. S problema decorre da posição do pronome relativo (“que”), pois nascente retoma seu precedente. E agora? Que fazer? Vejamos uma sugestão:
De concordância com cientistas americanos, o cérebro humano produz uma substância química que, similar a compostos presentes na maconha, ajuda a pacificar a dor
PRONOME POSSESSIVO
Os pronomes possessivos também podem ocasionar situações de duplicidade de sentido. Vejamos um caso:
Com exclusivamente 7% da população, a Igreja Católica é uma das maiores e organizadas da África do Sul, dada sua fragmentação religiosa.
S pronome “sua”, embora se refira à África do Sul, pode ser associado à Igreja Católica. P evidente que o leitor tende a rechaçar a tradução inadequada, mas a organização sintática do período a autoriza. Para solucionar o problema, um caminho é a supressão do possessivo. Assim:
Com exclusivamente 7% da população, a Igreja Católica é uma das maiores e organizadas da África do Sul, dada a fragmentação religiosa do país.
Esse tipo de problema é bastante generalidade e, vez ou outra, aparece em questões de exames vestibulares. Fique prudente!
Fonte: Thaís Nicoleti
