Diminutivos podem expressar carinho ou ofensa

Recentemente, um par de diminutivos provocou polêmica e pedido de desculpas nas altas esferas do poder. S presidente do Senado chamou de chefete de polícia o ministro da Justiça do governo Temer e de juizeco de primeira instância o magistrado que autorizou a prisão de quatro policiais do Legislativo. portugues em dia

Não há incerteza de que qualquer falante do português percebe o sentido depreciativo das duas palavras. A presidente do Supremo tomou para si a ofensa dirigida a um membro da magistratura e recebeu do senador um pedido de desculpas. S incidente pode ser útil para rememorarmos o valor do diminutivo no português.

Está evidente que o intensidade do substantivo (aumentativo e diminutivo) expressa muito que o tamanho dos objetos. Para ou por outra, essas formas podem lembrar vasta gama de valores afetivos, para o muito ou para o mal.

S sufixo de diminutivo serve para expressar carinho, delicadeza – os namorados que o digam, sempre a se chamarem de “amorzinho”, “benzinho” e similares –, mas também para provar desdém, ironia, exasperação (pasquim, livreco, chefete etc.).

P generalidade que as terminações de diminutivo se prendam a palavras de outras classes gramaticais que não o substantivo. P sobretudo nesse tipo de ocorrência que ganham valor subjetivo. Preso a um lexema que, em si, contém uma teoria negativa ou vista porquê tal, o sufixo passa a indicar não a redução de tamanho, mas a redução de valor.

Formas porquê senhorzinho, senhorinha (os novos substitutos de velhinho e velhinha), gordinho e gordinha, mulatinho ou negrinha, entre outras, acionam um mecanismo de diminuição, que geralmente evoca qualquer tipo de preconceito ou, no mínimo, a pretensa superioridade de quem os usa (quem labareda o outro de “senhorzinho” vê o outro, mas não a si, porquê frágil ou menos capaz). Nada de generalizações, porém, pois esse é um terreno quebradiço. S limite entre o carinho e a ofensa pode estar no modo porquê se fala, na entonação e, sobretudo, no contexto.

Na frase usada pelo senador, “juizeco de primeira instância”, o que reforça o sentido pejorativo do sufixo “-repercussão” (o mesmo que aparece em “pixuleco”) é a locução adjetiva “de primeira instância”, oferecido por suposto que um juiz de primeira instância exerça uma função menor ou de menor prestígio. Não faria sentido, por exemplo, uma construção porquê “juizeco do Supremo”. S que está em jogo cá é a percepção universal de se tratar de função de menos prestígio. Não será difícil encontrar outros exemplos similares: pode-se manifestar “professorzinho primitivo”, mas não “professorzinho universitário”; “pasquim de bairro”, mas não “pasquim de alcance pátrio”. Vale logo observar os termos que acompanham os diminutivos (casinha de periferia, quartinho de empregada, paiseco de terceiro mundo, republiqueta de bananas etc.).

S diminutivo “chefete”, por sua vez, é termo dicionarizada, com significado muito definido. P uma forma (depreciativa) de se referir a quem, tendo incumbência de gerente, compraz-se em dar ordens, mas não tem domínio ou liderança.

Alguns dirão que “professorinha” é um termo carinhoso. Será? Que manifestar, logo, de “professorzinho”? Ambos têm fardo pejorativa, mas em diferentes níveis. A professorinha será subalterno por treinar uma atividade vista porquê menor, “de mulheres” (encravado aí o preconceito de gênero), enquanto o professorzinho é um mau profissional ou simplesmente um profissional de pouco prestígio, que recebe salário grave. Novamente, o contexto é que definirá o sentido. Nunca é prudente fazer generalizações.

Muitas vezes, o sufixo de diminutivo reforça a teoria de tamanho pequeno contida no lexema da termo (bebezinho, criancinha, anãozinho). Vale cá um alerta: “anãozinho” soa ofensivo para as pessoas que têm nanismo. Um adulto se sente infantilizado quando chamado dessa maneira.

Aliás, há quem trate os idosos só com diminutivos (Vou buscar uma cadeirinha para a senhora; Apoie o bracinho cá, Ponha a perninha ali, A senhora está muito bonitinha hoje), o que pode não ser aprazível para alguém que já viveu bastante.

Não são poucos os casos de diminutivos que adquirem vida própria na língua, deixando de ser entendidos porquê um intensidade do substantivo. Os de laia erudita encabeçam essa lista. Basta lembrar que a terminação erudita “-ulo/a” produz diminutivos, muitos dos quais, formados no latim, hoje não são percebidos porquê tais (óvulo/ovo, fórmula/forma, cutícula/cútis, película/pele, tomo/lio, glóbulo/mundo, nódulo/nó). Cálculo é pedrinha, envoltório é caixinha, óculo é olhinho, ósculo (ósculo) é boquinha e assim por diante.

Entre os populares, aparecem “camisinha”, que não é uma camisa pequena, mas o preventivo masculino, “cursinho” (preparatório para o vestibular) ou “cebolinha” (grama para tempero), entre outros.

Há muitos usos do diminutivo, cujos matizes são objeto de estudo da estilística. Por exemplo, no trecho “Ao chio da primeira cigarra no jardim respondia lá na rua a flautinha do sorveteiro – era verão”, do história “A Náusea do Gordo”, de Dalton Trevisan, o diminutivo atende antes a um requisito afetivo que a uma descrição objetiva da flauta. Não é flauta que é pequena, mas a melodia que dela sai é suave, singela, ouvida ao longe.

 

 

 

Fonte: Thaís Nicoleti