Crise no Iraque alimenta sonhos de independência dos curdos
BBC
Etnia curda no norte do Iraque aproveita tumulto causado por avanço sunita para reforçar controle na petrolífera KirkukEnquanto o caos se alastra no Iraque e se aproxima da capital Bagdá, os curdos no norte aproveitam silenciosamente o tumulto para expandir e reforçar o seu controle na cidade de Kirkuk, rica em petróleo, e que estava há tempos nos sonhos de conquista da etnia.
Quinta: Curdos tomam partes de cidade no Iraque para barrar avanço de islamistas
Saiba mais: Leia todas as notícias sobre o avanço da milícia sunita no Iraque
A tomada da cidade no norte do país foi um movimento tanto defensivo quanto ambicioso e envolveu oportunismo e risco. "Parte da motivação foi evitar um desastre humanitário", disse uma fonte de alto escalão em Irbil.
"Se não tivéssemos preenchido o vazio deixado pela saída do Exército iraquiano, todos teriam invadido a região do Curdistão. Tivemos meio milhão de pessoas batendo em nossas portas."
Presidente: Irã está pronto para ajudar o Iraque contra milícia sunita
"É muito mais simples enviar 100 militares curdos para manter a segurança e assim as pessoas podem ficar. Uma vez que nossas unidades entraram, os desabrigados começaram a voltar."
Mas a situação é claramente mais do que isso. Os meios de comunicação curdos comemoraram a tomada da cidade como um passo para a reunificação histórica das terras curdas.
Joia da coroa
A cidade de Kirkuk, que tem uma população mista de curdos, árabes e turcomanos, tem sido um assunto delicado da política iraquiana.
Sexta: Obama rejeita tropas no Iraque, mas considera opções contra insurgência islâmica
Seu estatuto especial de cidade disputada foi reconhecido na Constituição iraquiana pós-Saddam Hussein e indicava alguns itens para que a cidade fosse "normalizada":
- retorno para o sul dos árabes que lá se estabeleceram durante o regime de Saddam;
- volta dos curdos expulsos;
- realização de um censo;
- convocação de referendo para decidir se a cidade deve se unir à região autônoma do Curdistão.
Veja fotos da crise no Iraque:

Combatentes iraquianos xiitas seguram suas armas enquanto gritam palavras de ordem contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante em Cidade Sadr, Bagdá (13/6)
Foto: AP

Voluntários esperam para se juntar ao Exército e combater militantes predominantemente sunitas em Bagdá, Iraque (13/6)
Foto: Reuters

Presidente dos EUA, Barack Obama, fala sobre a situação no Iraque em pronunciamento na Casa Branca, em Washington (13/6)
Foto: AP

Imagem postada em Twitter militante mostra membro do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com sua bandeira em base militar na Província de Ninevah, Iraque (12/6)
Foto: AP

Imagem publicada por militantes no Twitter mostra combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em local na fronteira entre o Iraque e a Síria (12/6)
Foto: AP

Muitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por insurgentes sunitas (13/6)
Foto: Reuters

Forças de segurança curda se posicionam do lado de fora da cidade petrolífera de Kirkuk após abandono de tropas iraquianas (12/6)
Foto: AP

Veículos queimados pertencentes às forças de segurança iraquianas são vistos em posto de controle no leste de Mosul (11/6)
Foto: Reuters

Policial federal do Iraque monta aguarda enquanto colega faz buscas em carro em posto de controle de Bagdá, Iraque (11/6)
Foto: AP

Famílias que fogem da violência na cidade de Mosul esperam em posto de controle nos arredores de Irbil, região do Curdistão iraquiano (10/6)
Foto: Reuters

Refugiados que deixam Mosul se dirigem à região autônoma curda em Irbil, Iraque, a 350 km a norte de Bagdá (10/6)
Foto: AP

Militares se preparam para assumir suas posições durante confrontos com militantes no norte da cidade de Mosul, Iraque (9/06)
Foto: AP
Sistani: Principal clérigo xiita no Iraque convoca fiéis a pegar em armas contra milícia
Mas isso nunca ocorreu e Kirkuk, bem como as outras áreas disputadas por iraquianos árabes (sunitas e xiitas) e curdos, têm sido palco de embates entre essas forças. Agora, o governo iraquiano deixou Kirkuk cair nas mãos dos curdos.
Com o restante do Iraque envolvido em conflitos sectários e o governo de Bagdá em desordem, fica claro que a autoridade iraquiana terá dificuldade para desafiar a tomada de Kirkuk pelos curdos, já que eles acreditam que a cidade historicamente sempre lhes pertenceu.
A região do Curdistão já preocupou o governo iraquiano ao vender por conta própria seu petróleo e gás para a vizinha Turquia, com quem o governo regional havia desenvolvido uma estreita parceria mesmo com as suspeitas de que os turcos apoiaram os curdos.
Quinta: Milícia islâmica sunita promete marchar sobre Bagdá, capital do Iraque
Agora parece que a tomada de Kirkuk, rica em petróleo, pode levar à independência da região do Curdistão. "De fato, ficamos mais perto da independência", disse uma fonte influente. "Ninguém se esforçou mais do que a gente para manter o Iraque unido, mas agora estamos desistindo, não há esperança".
Mas essas ambições não são isentas de riscos.
Se a instabilidade se espalhar, pode afetar o atual boom de investimentos e da atividade econômica no Curdistão, que floresceu, enquanto a maior parte do Iraque se viu estagnada.
Até o momento, o grupo político que tem mostrado a cara na recente crise iraquiana é o extremista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), inspirado na al-Qaeda.
Milícia islâmica: Entenda o que é o Estado Islâmico do Iraque e do Levante
Mas desde o início da insurgência anti-EUA desde 2004, ficou evidente que existem outras vertentes revoltadas, o que explica a rapidez com que avançam principalmente sobre as áreas sunitas.
Os curdos não têm simpatia pelos radicais do EIIL, mas mantêm contato com outros grupos, como os líderes dos Conselhos Militares e Revolucionários Iraquianos (MCIR, sigla em inglês), que inclui muitos ex-oficiais do Exército iraquiano.
Os curdos receberam garantias do MCIR de que não vão se aproximar das fronteiras do Governo Regional do Curdistão, segundo um porta-voz do MCIR.
Esse grupo considera que seus combatentes são a voz mais importante nessa revolta, seguidos de militantes tribais e do EIIL, apesar destes atraírem as atenções da mídia internacional.
Quando os rebeldes sunitas tomaram a cidade de Fallujah, a oeste de Bagdá, em janeiro, o primeiro-ministro Nouri Maliki pediu aos curdos para enviar forças militares para ajudar a expulsá-los, segundo fontes.
Mas o pedido foi recusado. A mensagem da liderança curda ao MCIR simbolizava que eles não tinham nada contra os sunitas procurarem um caminho próprio, como o Curdistão.
Não é difícil prever um cenário futuro onde as forças curdas ajudem grupos "moderados", como o MCIR. Mas há sinais de um potencial conflito entre as vertentes do movimento rebelde, embora no momento elas estejam atuando em conjunto.
Visões diferentes
Os sunitas veem o primeiro-ministro xiita como um intruso, um "terrorista", e a revolta deles têm muito a ver com isso.
Os americanos e demais países estão conscientes de que a turbulência reflete o fracasso de Maliki de incluir as principais forças políticas sunitas no processo político.
Apesar de suas diferenças visíveis, os vários grupos da revolta sunita estão de acordo sobre a necessidade de seguir em direção a Bagdá.
Mas, como ocorreu com os curdos no norte, o curso dos acontecimentos dependerá muito do grupo que vai predominar dentro do movimento rebelde.
Se o EIIL prevalecer, conflitos sectários poderão ser esperados. Mas, se os grupos mais moderados predominarem, pode haver espaço para um acordo.
Fonte: Notícias do Último Segundo: o que acontece no Brasil e no Mundo