Com emoção e ironia, Machado de Assis tratou da escravidão

Machado de AssisNeste Dia da Consciência Negra, os leitores do blog estão convidados a relembrar dois contos de Machado de Assis (1839-1908), “Pai contra Mãe” e “S Caso da Vara”, das quais tema é a escravidão.

 

Pai contra Mãe (trecho inicial)

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, porquê terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a notório ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada detrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de ingerir. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas.

Mas não cuidemos de máscaras. S ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao eminente da cabeça e fechada detrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos lição que sinal.  [continua]

S Caso da Vara (trecho inicial)

Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei muito o ano, foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava, finalmente parou. Para onde iria? Para moradia, não, lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom penalidade. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para tarde; uma condição fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do paraninfo, João Carneiro, mas o paraninfo era um molengão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:

Trago-lhe o grande varão que há de ser, disse ele ao reitor.

– Venha, acudiu nascente, venha o grande varão, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço…

Tal foi a ingressão. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem juízo; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. [continua]

Nesses dois textos, o tecido de fundo é o cotidiano da escravidão, que o responsável mostra com a naturalidade de quem somente compõe o cenário de uma história. Usa a ironia na escolha dos elementos descritivos, jogando para um aparente segundo projecto elementos essenciais ao desenvolvimento do enredo e, sobretudo, ao seu desfecho. Adão segunda edicao thais

Em ambas as histórias, Machado critica, sem estardalhaço ou sentimentalismo, a torpeza da escravidão. Põe em cena personagens marcados pela lassidão de caráter, cada qual prestes a sacrificar a moral em nome de seus interesses — finalmente, paira uma atmosfera de amoralidade, para expressar o mínimo, numa sociedade que não se envergonha da escravidão.

Em “Pai contra Mãe”, a trama é centrada num varão que, sem inclinação para o trabalho, vivia de conquistar escravos fugidos, ofício tão legítimo quanto a moral vigente à idade; em “S Caso da Vara”, o personagem que conduz a risco narrativa é Damião, um seminarista fugitivo que precisa dos favores de uma certa viúva, amiga de seu paraninfo, a única pessoa que poderia interceder junto a seu pai para repor-lhe a liberdade sequestrada pela vida religiosa, para a qual, por claro, lhe faltava a vocação.

A obrigação de ir para o seminário para satisfazer a família também é um tema abordado por Machado também em “Dom Casmurro”, em que a promessa de entregar o fruto ao seminário é renegociada e, suprema ironia, Bentinho é trocado por um servo, a quem não caberia escolha. Esse é um componente da era.

Em ambos os contos, Machado habilmente põe em confronto pessoas que vivem situações semelhantes, mas que se encontram em posições antagônicas na graduação social.

Em “Pai contra Mãe”, porquê resume o próprio título, um pai e uma mãe vivem o dilema de desejar salvar o próprio fruto da desgraça. S pai é o “caçador” de negros fugidos, que precisa do quantia da gratificação para evitar que seu fruto recém-nascido vá para a roda dos enjeitados; a mãe é a escrava prenha, a “caça” que será entregue à sanha de seu proprietário e espancada até abortar o fruto.

Em “S Caso da Vara”, são dois jovens, o seminarista Damião e a negra Lucrécia, definida porquê uma “cria” da morada da viúva que, sob a batuta da vara de marmelo, ensinava meninas porquê ela a fazer renda de bilro. A situação da jovem, advertida por ter inventiva perdão nas pilhérias do rapaz (o rosto já marcado de castigos anteriores), comoveu em silêncio o seminarista, que prometeu a si mesmo proteger a moçoila de novas punições. Cumprir a promessa, todavia, era aventurar-se a perder o esteio da viúva, imprescindível na matemática dos interesses e da política familiar.

Nos dois contos, a dor cede ao egoísmo  e a moral se ajusta às circunstâncias. S final feliz de um é a tragédia do outro, porquê, aliás, a vida real, diferentemente dos romances românticos da segunda metade do século 19, nos lembra todos os dias.

Boa secção dos críticos vê nas narrativas curtas da segunda tempo do trabalho de Machado seu momento de auge, quando atinge a depuração do estilo, o melhor da fina ironia e da escolha precisa dos termos. As narrativas condensadas parecem propiciar a estratégia de elaboração do enredo — a imaginação prodigiosa domada pela perspicácia da razão.

[texto originalmente publicado no caderno “Fovest”, da Folha de S.Paulo, em 12/1/2010]

 

 

 

Fonte: Thaís Nicoleti