Colm Tóibín brinca com expectativas do leitor no romance ‘Nora Webster’

S jornalista irlandês Colm Tóibín (Crédito: Jerry Bauer/Divulgação)
Meire Kusumoto
S jornalista irlandês Colm Tóibín tem uma definição, por assim expor, distinta sobre o que considera ser um verdadeiro romance. “Esse gênero funciona quando você brinca com as expectativas dos leitores. Se você define um personagem porquê bom, precisa fazer com que ele faça alguma coisa que não é bom para transformar a história em um romance”, diz em entrevista ao blog VEJA Meus Livros o jornalista convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A subversão mencionada por Tóibín é uma das chaves para entender seu recente livro, Nora Webster (tradução de Rubens Figueiredo, Companhia das Letras, 400 páginas, 54,90 reais), lançado no Brasil no início de junho e um dos temas da mesa do evento dedicada ao plumitivo.
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S romance retrata a vida da personagem-título, uma mulher por volta dos 40 anos que mora com a família na pequena cidade de Enniscorthy, no sul da Irlanda, na dez de 1960. A história começa com Nora recebendo uma visitante de um de seus vizinhos, um pouco recorrente desde que ela perdeu seu marido, Maurice, morto por justificação de uma doença no coração. A vizinha da vez, além de querer confortar a viúva, conta que seu fruto tem interesse em comprar uma morada de praia que pertence à família de Nora, para a qual eles viajavam todo verão. Ao imaginar que essas viagens não serão tão agradáveis quanto eram com seu marido vivo, ela decide vender a lar, para a tristeza de seus quatro filhos, duas meninas, velhas, e dois garotos.
Mesmo arrasada com a perda de Maurice, Nora não se entrega ao desespero – as crises de pranto são citadas porquê recorrentes e inexplicáveis, que podem sobrevir a qualquer momento, mas nunca são presenciadas pelo leitor. E aí começa a quebra de expectativa de quem tem o romance de Tóibín nas mãos. Nora é uma viúva jovem, que perdeu o paixão de sua vida e que tem quatro filhos para fabricar sozinha. Mesmo com emoções latentes e pensamentos contraditórios atravessando sua mente o tempo todo durante o processo de superação, ela consegue se manter inalterável diante do dia a dia e das crianças, as quais chega a olvidar e até a ignorar em determinados momentos.
Em uma das passagens, Nora leva os dois filhos, Donal e Conor, até a morada de uma de suas irmãs, Catherine. P término de tarde, depois do horário em que os britânicos costumam tomar chá e beliscar alguma coisa. Conor, no entanto, reclama da falta do lanche à tia e à mãe:
“A que horas a gente vai tomar o chá?”, perguntou ele. “Todo mundo já tomou. Quando a gente vai tomar?”
Catherine olhou para ele porquê se não tivesse ouvido zero. Conor não cedeu e, porquê não obtivesse resposta da tia, olhou para Nora.
“Vocês não estão vendo televisão?”, perguntou Catherine.
“Nós não tomamos nosso chá”, repetiu ele.
“Não tomaram?”, perguntou Catherine e olhou para Nora, perplexa.
Nora teve a sensação de estar sendo acusada de alguma coisa.
“A gente saiu de morada logo que os meninos chegaram da escola. Pensei que tomaríamos o chá cá.”
“Ah, desculpe. A Dilly está para chegar, e o Mark também, mas não sei exatamente a que horas ele estará em morada.”
“Catherine parecia distraída. Nora estava prestes a manifestar que um sanduíche ou uma torrada com feijoeiro já seria suficiente para eles, mas preferiu não expressar zero. Olhou para longe, porquê se não fosse problema seu. Estava quase zangada. Conor continuou ali, observando a mãe e a tia.”
Deixar de se preocupar com a alimento de um fruto é uma reação um tanto inesperada para uma mãe, e é exatamente isso que Tóibín quer que o leitor pense. “Se as pessoas se comportam da maneira esperada, isso não é um romance. Como o caso de uma mãe, que tem outras coisas acontecendo na vida dela que não são necessariamente ligadas à maternidade”, diz. S responsável afirma, no entanto, que quis fabricar ambiguidades na personagem, para que fosse impossível julgá-la por momentos porquê o citado. De vestimenta, ao mesmo tempo em que Nora é retratada por vezes porquê uma mãe distante, o leitor sabe que as crianças estão incessantemente em seu pensamento.
S romance, trabalhado em uma linguagem econômica, com estilo neutro e direto, tem tons fortemente autobiográficos. Tóibín perdeu o pai na dez de 1960 e sua mãe precisou cuidar dos cinco filhos, ao mesmo tempo em que voltava ao mercado de trabalho, assim porquê Nora. S noticiarista conta que, também porquê a protagonista do livro, sua mãe tinha interesse por música e tinha a tendência a se emudecer diante de discussões importantes com os filhos. “Havia claro silêncio. Mas é difícil falar em uma lar que perdeu um membro da família”, conta. Tóibín é representado em Nora Webster pelo garoto velho, Donal, de 12 anos. Reservado, o rapaz encontra um refúgio na arte – na retrato, no livro e na literatura – e desenvolve uma tartamudez depois a morte do pai.
S irlandês afirma que mesmo o livro refletindo tanto a sua vida, nunca o leu depois de publicado, assim porquê faz com todo o resto de sua obra, composta por ensaios, contos e seis romances, porquê S Mestre, sobre o jornalista americano Henry James (1843-1916), e Brooklyn, vencedor do Costa Novel Award em 2009. “Quando escrevo, está completado. Nunca leio de novo, nunca li um livro de novo. Se lesse, é porquê se estivesse olhando para um espelho o tempo todo.”
Fonte: VEJA Meus Livros - VEJA.com