Cinema do Brasil conquista 35 mil em Tiradentes

Público assiste filme ao ar livre no largo das Forras, em Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção
Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do a Tiradentes (MG)*
Fotos LEO LARA/Universo Produção
As ruas centenárias de pedras acordaram tristes neste sábado. E não era pelo cavalgar teimoso das charretes puxadas por mansos cavalos, mas por ser o último dia da 18ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes.
O evento mineiro, agora maior de idade, levou 35 mil pessoas ao cinema. E o melhor: todas as sessões dos 128 filmes brasileiros exibidos foram gratuitas.
Apesar dos vencedores, conhecidos nesta noite, o vitorioso, de fato, foi o cinema nacional de qualidade, aquele que preza pela discussão do País na telona em uma arte pensante e instigante.
E o pensar esteve por todos os cantos de Tiradentes: 82 grandes nomes do cinema discutiram o futuro do audiovisual brasileiro no 18º Seminário do Cinema Brasileiro, que promoveu 28 debates democráticos que culminaram na Carta de Tiradentes 2015, divulgada também neste sábado (31).
Pensando no futuro, o evento certificou 270 novos profissionais do cinema nas dez oficinas promovidas com grandes nomes da área cinematográfica, como Luiz Carlos Lacerda, o Bigode.
De olho em tudo isso, Raquel Hallak, coordenadora geral e idealizadora do evento, parece satisfeita. Mineira da vizinha São João del-Rei, formada em Comunicação Social e radicada há de 20 anos em Belo Horizonte, ela parece pronta para começar tudo de novo.
Porque é isso que acontece quando a Mostra de Cinema de Tiradentes termina. Pouco antes de encerrar a 18ª edição do evento que é sua vida, ela conversou com exclusividade com o R7 Cultura, numa das mesas do Centro Cultural do Sesi Yves Alves, na rua Direita, espécie de QG de onde comanda a equipe de de 120 profissionais do festival.
Leia com toda a calma do mundo.

Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra de Cinema de Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção
MIGUEL ARCANJO PRADO – O que mudou em você da primeira edição para esta Raquel da 18ª edição aqui na minha frente?
RAQUEL HALLAK – Nossa, muita coisa, são quase duas décadas [risos]. A experiência dita tudo na nossa vida. O evento nos proporcionou a vivência, que nos fez amadurecer, entender como a sociedade está organizada, como acontece o diálogo, principalmente no audiovisual, que é um retrato da nossa identidade, que expressa quem nós somos. Foram 18 anos de uma vivência que trouxe amadurecimento e ampliou possibilidades.

Cineastas e público da Mostra fazem o Cortejo da Arte em Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção
MIGUEL ARCANJO PRADO – Qual foi a edição difícil?
RAQUEL HALLAK – Tiradentes é muito peculiar. Porque estamos em uma cidade de 7.000 habitantes e temos sempre o desafio de montar toda a estrutura. E sempre ficamos atento ao público, que foi ficando exigente. A gente começa numa lona de circo, e eu diria que foi a edição fácil [risos]. No começo, você não sabe o caminho que percorrer, a gente vinha aberto pela experiência de fazer evento. À medida que o tempo vai passando, você tem os dois lados: você tem o reconhecimento mas também tem o lado que você incomoda. Então, eu não me lembro de nenhuma edição que foi fácil. Cada edição, infelizmente, a gente começa de novo. Acho que como evento consolidado, a gente tinha de ter uma certa garantia de trabalhar de uma forma tranquila, no diálogo com os poderes municipal, estadual e federal, porque não se faz um evento desse porte, com todo o impacto que gera, na economia, no turismo, na cultura, sem a participação do poder público. E também das entidades de classe, da iniciativa privada e de quem faz e pensa o cinema e, principalmente, na ponta, o público. Cada edição é um desafio. Na nona edição, quando saímos da lona de circo no largo das Mercês para o cine-tenda no largo da Rodoviária foi um passo representativo em termos de estrutura, porque estávamos ampliando capacidade de atendimento ao mesmo tempo testando uma estrutura nova, que hoje tem conforto, climatizada, e segurança. Da segunda para a terceira, incluímos o cine-praça, que é o ponto democrático, onde muita gente vê o cinema pela primeira vez. Neste ano testamos o cine-lounge para testar como o cinema dialoga com outras artes, como a música, a literatura, as artes plásticas, com programação que foram de shows a lançamentos de livros.

Coletivo #eufaçoamostra, que registrou a Mostra de Cinema de Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção
MIGUEL ARCANJO PRADO – Qual o balanço você faz de 2015?
RAQUEL HALLAK – Foram nove dias de programação intensa e abrangente. Beneficiamos 35 mil pessoas de todo o Brasil. Certificamos 270 alunos em nossas oficinas. Inauguramos o calendário audiovisual brasileiro com a pergunta: Qual o lugar do cinema hoje? É do cinema de autor, da prática da cinefilia, da gente não perder nossa referência do cinema enquanto sala escura, para a gente não banalizar as imagens.
MIGUEL ARCANJO PRADO – E qual o lugar da Mostra de Cinema de Tiradentes?
RAQUEL HALLAK – A Mostra de Cinema de Tiradentes é hoje um evento consolidado como a maior plataforma de lançamento do cinema brasileiro independente. É o lugar da descentralização, da presença da produção de todos os Estados, de um diálogo amplo, de uma produção irrestrita com experimentação de linguagens estéticas e possibilidades, tem um lugar de destaque no circuito histórico de festivais, já escrevendo 18 anos de trajetória no cinema brasileiro.

Público assiste ao filme Sinfonia da Necrópole no Cine-Praça em Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção
MIGUEL ARCANJO PRADO – O que você acha da equipe que lhe ajuda a fazer a Mostra?
RAQUEL HALLAK – O trabalho de produção é um trabalho de uma teia. Você não faz nada sozinho e tudo tem de funcionar. Tenho vários núcleos, produção, planejamento, imprensa, técnico, divulgação, montagem... Tem pessoas chave que me acompanham há 18 anos. Muitos não estão na Universo Produção e tiram férias para estar aqui. Isso é muito importante. A vivência no evento é que faz o profissional qualificado, não importa nem tanto a formação dele, mas a experiência que ele tem aqui. Então, tenho equipe de 35 profissionais que trabalha 20 dias antes, para erguer o complexo de tendas de 1.400 metros quadrados, a praça, o centro cultural, a escola onde acontecem oficinas. No todo, são de 120 pessoas trabalhando na Mostra, contando agentes de trânsito, agentes de apoio, segurança, limpeza... E eu te digo que essa gente é o coração da Mostra de Cinema de Tiradentes. Sou privilegiada de ter esta equipe.

Público assiste à sessão do filme O Menino no Espelho no Cine-Tenda - Foto: Leo Lara/Universo Produção
*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes.
Leia a cobertura completa do na Mostra de Cinema de Tiradentes
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Fonte: R7 Cultura
