Chico Buarque, o paixão e a saudade da Amélia: onde está o machismo?
De uns tempos para cá, talvez em razão desse bate-papo de milhares de vozes que são as redes sociais, quase tudo é intuito de qualquer tipo de sátira. E, num envolvente de muito matinada, muitas vezes vence quem fala cima – ou quem é radical. 
Recentemente, o nosso Chico Buarque, que sempre cantou tão muito o paixão e os amantes, foi branco de uma injustiça. Sua novidade cantiga, intitulada “Tua cantiga”, foi tachada de machista. A estrofe que deflagrou a polêmica foi esta:
Quando teu coração suplicar,
Ou quando teu pertinácia exigir,
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir
Depreende-se da letra que o eu lírico (a voz que fala no poema) é um varão casado que se apaixona por outra mulher e se diz capaz de deixar o matrimónio para segui-la, caso ela assim o deseje. Trata-se de uma enunciação de paixão, porquê, de resto, o são as outras estrofes, em que fala de saudade, oferece proteção, sugere delicadamente a sensualidade da mulher, expressa libido de fazer carinhos, sente emulação etc.
Quando te der saudade de mim
Quando tua goela apoucar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar
Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair
Se as tuas noites não têm término
Se um desalmado te faz chorar
Deixa desabar um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar
Quando teu coração suplicar
Ou quando teu obstinação exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir
Na nossa mansão
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre feliz
Silentemente
Vou te deitar
Na leito que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei
Quando te der saudade de mim
Quando tua goela apoucar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar
Se o teu vigia se alvoroçar
E, estrada afora, te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair
Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te evadir
Terei emulação
Até de mim
No espelho, a te abraçar
Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou
Se as tuas noites não têm término
Se um desalmado te faz chorar
Deixa desabar um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar
E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver cá
Lembra-te, minha nega
Desta cantiga
Que fiz pra ti.
Os que viram machismo na letra talvez tenham privilegiado um viés moralista que não combina com nenhuma das poesias de Chico Buarque – já dizia Oscar Wilde que a arte é amoral. “Amoral” (não “impudico”), ou seja, passa ao largo da moral.
Para falar de paixão – e quem entre os nossos cancionistas o faz melhor que Chico? –, talvez seja mesmo necessário se desvestir das convenções da moral vigente, que, cá entre nós, têm muito de hipocrisia.
S próprio responsável veio a público para explicar que machismo seria permanecer com as duas mulheres. S eu lírico do poema se propõe a deixar o conúbio para seguir o paixão. Implícito está que, se o paixão estivesse no consórcio, não haveria a “amante”.
“Amante”, vale lembrar, é aquele ou aquela que governanta, malgrado o sentido pejorativo que se pespegou à termo, o que não deixa de ser curioso. Amar, leste o tabu dos tempos modernos.
S conúbio não requer necessariamente o paixão, a paixão (nem mesmo o sexo), mas impõe deveres de responsabilidade e, ao mesmo tempo que oferece porquê bônus uma espécie de respeitabilidade aos que aderem a ele, ameaço retirar esse bônus daqueles que ousem partir em procura de outras paragens ou que se atrevam a passar o “risco de viver” – lanço mão das palavras do psicanalista Contardo Calligaris, que, em sua pilar do dia 17 de agosto na Folha, à maneira de um facécia, faz um jogo com a frase “risco de vida”, a ela atribuindo um sentido literal (zero a ver com outra polêmica, aquela das aulas de português). Ele cita a filósofa e psicanalista francesa Anne Dufourmantelle (autora de “Éloge du Risque”), para quem
o risco não é tanto um ato pontual quanto uma maneira de ser, um jeito de estar no mundo com coragem, mesmo sem gestos extremos ou momentos de risco. S risco de quem se arrisca a viver (risco de vida) é admitir um libido que nem nós mesmos conhecemos, um novo paixão, uma paixão, a liberdade, a infidelidade, o risco de se separar ou de encontrar alguém, o risco de desapontar o outro, o risco de pensar além do que já sabemos, de não repetir as trivialidades compartilhadas.
Ora, Chico está falando de paixão em sua melodia. P disso que se trata. Amor implica o “risco de viver”, aquele risco que, muitas vezes, não temos coragem de passar por susto do julgamento alheio ou por culpa. Não faltam psicólogos para tutelar a moral e dissipar corações inquietos, sob o argumento de que o paixão se transforma em amizade etc. e tal – e de que isso é “normal”. Muito justo se o par assim quiser viver, mas insuficiente diante da revolução que o paixão pode fazer se desabrochar no caminho de um dos dois. Que, pelo menos, na arte o paixão não sucumba a convenções por vezes estéreis e a toda sorte de egoísmos travestidos de “deveres”.
Os que viram machismo na cantiga de Chico talvez não o vejam em “Ai, que saudade da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago:
Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher
Às vezes passava inópia ao meu lado
E achava bonito não ter o que consumir
E, quando me via forçado, dizia
Meu fruto, o que se há de fazer?
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade
Nessa melodia, o eu lírico se arrepende de ter deixado a mulher (a “verdadeira”) pela amante. P o varão que, seduzido por uma amante interesseira e enxurrada de luxos, enxerga que a mulher “de verdade” é aquela que passa míngua ao lado dele, que não reclama e que não tem a menor vaidade. “Aquilo sim é que era mulher.”
Aqui não se fala propriamente de paixão, mas daquilo em que se transformam os casamentos no transcursão do tempo – com sorte, uma relação de companheirismo, resignação e amizade. A “amante”, nesse contexto, é a vilã, a mulher sedutora – e o varão é a vítima dela.
As duas letras mostram atitudes opostas. Na de Chico, a mulher desperta o paixão e o varão quer viver o paixão, o que pode levá-lo a deixar uma mulher por outra (as duas em pé de paridade, um paixão depois do outro); na de Ataulfo, há dois modelos de mulher: uma é sedutora e interesseira, a outra é resignada e sem vaidade. A “verdadeira” é a que dá menos trabalho. Onde estará o machismo?
De resto, só pra terminar com Chico Buarque, vale lembrar a sua divertida cantiga “S consórcio do pequenos burgueses” (da “Ópera do Malandro”), em que o poeta fala de himeneu, não de paixão (infelizmente, não encontrei um vídeo com o próprio Chico, mas vale ouvir a melodia):
Ele faz o nubente correto
E ela faz que quase desmaia
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a lar caia
Até que a lar caia
Ele é o empregado recatado
Ela engoma o seu colarinho
Vão viver sob o mesmo teto
Até explodir o ninho
Até explodir o ninho
Ele faz o masculino irrequieto
E ela faz crianças de monte
Vão viver sob o mesmo teto
Até secar a manadeira
Até secar a manancial
Ele é o funcionário completo
E ela aprende a fazer suspiros
Vão viver sob o mesmo teto
Até trocarem tiros
Até trocarem tiros
Ele tem um caso secreto
Ela diz que não sai dos trilhos
Vão viver sob o mesmo teto
Até casarem os filhos
Até casarem os filhos
Ele fala de cianureto
E ela sonha com formicida
Vão viver sob o mesmo teto
Até que alguém decida
Até que alguém decida
Ele tem um velho projeto
Ela tem um monte de estrias
Vão viver sob o mesmo teto
Até o término dos dias
Até o término dos dias
Ele às vezes cede um afeto
Ela só se despe no escuro
Vão viver sob o mesmo teto
Até um breve horizonte
Até um breve horizonte
Ela esquenta a papa do neto
E ele quase que fez riqueza
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una
Até que a morte os una
Fonte: Thaís NicoletiThaís Nicoleti
