Brasília, 61 anos: a trajetória de exploradores da Missão Cruls que desbravaram o país para ‘pôr o DF no planta Brasília 61 anos

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Montados em cavalos e com a missão de desbravar o Planalto Mediano, um grupo de 21 cientistas, médicos, engenheiros e militares deixou o Rio de Janeiro para iniciar a demarcação de terras que viriam a se tornar o Província Federalista: a novidade capital do país.

Era ainda inverno, em 1892, quase término do século XIX, quando a comitiva exploradora do Poderio, sob a liderança do engenheiro e astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls partiu rumo ao coração do Brasil.

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Durante oito meses, separada em dois grupos, a comitiva – que recebeu o nome de "Missão Cruls" – percorreu os rincões do país, entre o Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás (veja quiz sobre a expedição ao término da reportagem). O objetivo era entender o ponto exato do tão sonhado quadrilátero de 14,4 milénio km², hoje, o DF.

A trajetória do grupo, fotografias e relatos – alguns inéditos – são preservados pelo Registo Público do Província Federalista. O órgão reúne 8 milhões de itens no montão e abriga "preciosidades históricas inexploradas", agora, reunidas em uma exposição virtual em homenagem aos 61 anos de Brasília.

Membros da Percentagem Cruls à cercadura de rio — Foto: Registo Público-DF/Divulgação

As fotos, vídeos e documentos históricos foram cedidos ao em seguida um ano de pesquisa dos servidores públicos e vão conceber uma série de reportagens sobre a capital. O material vai ao ar a partir desta segunda-feira (19) e conta a trajetória dos pioneiros da novidade capital do país.

Com pouco mais de 14,3 milhões de habitantes, 7 em cada 10 brasileiros moravam no litoral no término do século 19. À idade, o índice de ocupação no Meio-Oeste era de 0,2 habitante por quilômetro quadrângulo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Foi nesse cenário que ocorreu a promulgação da Constituição de 1891, a primeira da República, que previa a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o interior do país. O artigo 3º dizia:

"Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura capital federal."

Com a autorização do Congresso, além de Cruls, membros da comitiva refizeram as trilhas abertas pelo Visconde de Porto Seguro. As quase 10 toneladas de bagagem, em mais de 200 baús de madeira, foram acomodadas em lombos de mulas.

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Comissão Cruls — Foto: Arquivo Público-DF/Coleção Goyaz/Divulgação

Membros da Comissão Cruls, comitiva que explorou o Planalto Central, em 1892 — Foto: Arquivo Público-DF/Divulgação

No caminho, o apito melancólico da "Maria Fumaça" anunciou a chegada da Comissão a Uberaba, no Triângulo Mineiro, fim da linha férrea. Da região, os tropeiros atravessaram Pirenópolis, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Formosa, em Goiás.

O outro grupo, chefiado pelo astrônomo Henrique Morize, também com destino a Formosa, seguiu pelo sul, via Corumbá, Santa Luzia e Mestre d'Armas.

Mapa dos itinerários levantados durante Comissão Cruls; imagem mostra quadrilátero que veio a se tornar o DF — Foto: Arquivo Público-DF/Divulgação

De Formosa, a comissão se dividiu em quatro turmas, uma para cada vértice do quadrilátero a ser demarcado no solo, inserindo a região dos Pirineus, bem como as cabeceiras de rios que formavam as bacias de grandes leitos d'água.

Guiada por dados, medições, além das estrelas, do Sol e da Lua, a primeira expedição delimitou os marcos do "quadrilátero Cruls", uma área de 160 km por 90 km, berço das nascentes das bacias dos rios Amazonas, São Francisco e Paraná.

Mapa do Brasil mostra demarcação do Distrito Federal — Foto: Arquivo Público-DF/Divulgação

De volta ao Rio de Janeiro, Cruls e os companheiros de viagem mostraram, na sede dos Correios e Telégrafos, o que colheram no Planalto: mapas, fotografias, amostras de solo, fauna e flora. Contam os documentos, que tudo aquilo encantou o grupo e reforçou, ainda mais, as razões para a transferência da capital para uma região "de onde o progresso se espalharia para todo o país".

Em 1893, um relatório parcial da comitiva exploratória foi apresentado ao governo e publicado no Diário Oficial. No ano seguinte vinha a público o "Relatório Completo" ou "Relatório Cruls", como ficou conhecido.

Quase dois anos depois de iniciada a primeira viagem, em 1894, o presidente Floriano Peixoto convocou novamente Cruls para sua segunda missão, a de chefiar a Comissão de Estudos da Nova Capital da União. A expedição recebeu o nome de 2ª Comissão Cruls.

Determinado o quadrilátero para o novo Distrito Federal, os pesquisadores deveriam indicar o local específico para a construção da cidade-capital. O presidente queria saber mais sobre o clima, o abastecimento de água, a topografia e a natureza do terreno.

Ele queria também a instalação de uma estação meteorológica, além de providenciar a ligação telegráfica à rede mais próxima, e saber sobre a ligação férrea ou férreo-fluvial que conectava o Planalto Central, ainda pouco conhecido dos grandes centros urbanos da época.

Desbravadores da Comissão Cruls — Foto: Arquivo Público-DF/Divulgação

Para essa segunda missão, Cruls convidou o francês Auguste Glaziou, engenheiro botânico e civil, responsável pela transformação de vários parques na cidade do Rio de Janeiro e diretor dos jardins particulares do então imperador D. Pedro II.

A formação rochosa, a fauna e a flora, tudo provocava surpresa e encantamento em Glaziou que, em meio ao Cerrado, defendeu a recriação de um lago que, segundo ele, "deveria ter existido na região há milhões de anos".

Entretanto, os trabalhos de campo da 2ª Comissão Cruls foram suspensos por falta de recursos. Já sob o governo de Prudente de Morais, no fim do ano de 1895, os pesquisadores tiveram que voltar às pressas ao Rio de Janeiro. Segundo relatos históricos, faltaram recursos até para enviar de volta os equipamentos.

Os militares tiveram, então, que ficar acampados para fazer a guarda dos equipamentos até que foi aprovada uma verba emergencial para o transporte de volta ao Rio de Janeiro. Assim, esta segunda comissão não concluiu o relatório, sendo publicado apenas um parcial, em 1896, com informações sobre a ligação férrea.

Exploradores da Missão Cruls no Planalto Central — Foto: Arquivo Público-DF/Divulgação

A partir de documentos, os pesquisadores identificaram os locais propostos para a construção da nova capital, após o fim das missões: o vale do Rio Descoberto ou entre os rios Gama e Torto.

A competência técnica dos resultados da Comissão de Estudos da Nova Capital da União, por meio de acervo da época, foi confirmada em meados da década de 1950, por meio de análise de fotografias aéreas.

Além disso, outra comissão para esse fim, liderada pelo Marechal José Pessoa, confirmou a escolha de um dos lugares sugeridos, onde, de fato, Brasília foi construída: entre os rios Gama e Torto.

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Já no século XX, como disse o arquiteto e urbanista Lucio Costa, ficou constatado que "Brasília é um milagre".

"Quando lá fui pela primeira vez, aquilo tudo era deserto a perder de vista. Havia apenas uma trilha vermelha e reta descendo do alto do Cruzeiro até o Alvorada, que começava a aflorar das fundações, perdido na distância", disse Lucio Costa.

"Apenas o Cerrado, o céu imenso, e uma ideia saída da minha cabeça. O céu continua, mas a ideia brotou do chão como por encanto e a cidade agora se espraia e adensa", disse Lúcio Costa sobre a, então, "cidade do progresso".

QUIZ: teste seus conhecimentos sobre a Missão Cruls, que explorou e demarcou o DF

  1. Quantas foram as comissões chefiadas por Cruls no Planalto Central?

  2. Qual presidente determinou a exploração do Planalto Central para demarcação da área que seria o novo Distrito Federal?

    • Floriano Peixoto
    • Café Filho
    • Juscelino Kubitschek

  3. À época, quais nomes foram sugeridos para a nova capital?

    • Goianápolis ou Brasília
    • Petrópolis ou Brasília
    • Paracatu do Príncipe ou Petrópolis

  4. O pico que foi incluído na região do quadrilátero Cruls era o:

    • da Neblina
    • dos Pirineus
    • da Bandeira

  5. As 'Águas Emendadas' descobertas pela comissão dizem respeito às bacias:

    • Amazônica e Platina
    • Platina e Tietê
    • Paraná e Jequitinhonha

  6. E, para finalizar, atenção, porque tem uma pegadinha: quem liderava a Comissão Cruls?

    • Henrique Morize
    • J. de Oliveira Lacaille
    • Louis Ferdinand

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