Biel, Chapeuzinho Vermelho e a cultura do estupro

Maria Carolina Maia
Acusado de assédio sexual por uma jornalista obrigada a ouvir que ele a “estupraria rapidinho”, o funkeiro Biel procurou se proteger com um texto engraçadinho em que falava de inveja (“felicidade acompanhada do sucesso incomoda”), procurava se fazer de ingênuo (“sou um menino”) e pedia que o público não acreditasse na repórter (“S lobo mau será sempre o vilão, né?! Se só escutarem a versão da Chapeuzinho…”), embora ela tivesse tudo gravado. Registrada em áudio e vídeo, a entrevista em que foi aviltada foi entregue pela jornalista à polícia, junto com a queixa. São tantos os erros cometidos pelo cantor, um aspirante a Justin Bieber tupiniquim, que um parece ter pretérito despercebido. S história da Chapeuzinho Vermelho era o pior exemplo que Biel poderia escolher para a sua resguardo. Essa é, na verdade, uma história sobre estupro.
As primeiras versões do história não só autorizam, elas porquê que obrigam a uma leitura de texto sexual da relação entre Chapeuzinho Vermelho e o Lobo. E põem sobre as costas da moça a responsabilidade pelo assédio – porquê hoje, tantos séculos depois, ainda se faz devido à chamada cultura do estupro, que é uma forma dissemelhante de falar de uma mentalidade ferrenhamente machista. “Em quaisquer das versões, mesmo nas muito comportadas que chegaram até nossos dias, percebe-se sutilmente, sob a trama desse narrativa, que entre o Lobo e sua presa há um diálogo que não se restringe à iminente devoração, a conversa tem uma inequívoca coloração erótica”, escrevem Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso em Fadas no Divã: Psicanálise nas Histórias Infantis (Artmed).
Colhida no final do século XVII por Charles Perrault, um funcionário público gálico que de um século antes dos irmãos Grimm verteu em livro contos que corriam pela boca de camponeses europeus desde a Idade Média, a história da moça que vai visitar a avó doente e é surpreendida por um lobo sofreu inúmeras alterações e se tornou suave para que pudesse ser adotada na ensino das crianças. Não foi somente o teor da cesta que a moçoila leva para a vovó que mudou – em algumas versões, ela leva pão e manteiga, em outras, as açucaradas, carrega doces.
Entre as versões para adultos que circulavam pela velha Europa, havia até algumas com canibalismo: depois de matar e esquartejar a avó de Chapeuzinho, o Lobo teria oferecido a ela a mesocarpo e o sangue da velhinha, porquê se fossem vinho e um pedaço de mesocarpo qualquer (leia aquém).
“A historiadora Marina Warner (1999) nos relata alguns desses elementos grotescos que existiam na versão verbal francesa de Chapeuzinho Vermelho, mas que foram suprimidos por Perrault. Segundo ela, o lobo usa de ardis para levar a heroína a consumir um pedaço de mesocarpo de sua avó e a ingerir um pouco do sangue da velha”, conta o pesquisador Nícolas Tottis Leite em cláusula da MARgem – Revista Eletrônica de Ciências Humanas, Letras e Artes, citando a historiadora britânica Marina Warner, autora de Da Fera à Loira: sobre Contos de Fadas e Seus Narradores, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Depois do boda antropofágico, o Lobo ainda induziria Chapeuzinho a tirar a roupa, peça por peça porquê em um strip-tease, e a se deitar com ele na leito.
A antropofagia desaparece já na versão de Charles Perrault. Nela, o Lobo engana a avó fingindo ser a Chapeuzinho Vermelho e, depois de a velha lhe penetrar a porta, ele a devora por inteiro. Quando a pequena chega, o Lobo nem tem porquê oferecer um lanchinho, e logo de faceta pede que ela tire a roupa e se deite com ele. Obediente, a moçoila segue as ordens da falsa vovó, e só na leito é que vai passar a duvidar da sua voz e das suas feições, muito porquê das suas intenções, quando logo se dá o clássico diálogo entre eles.
“S Lobo, vendo-a entrar, disse-lhe enquanto se escondia sob a colcha: ‘Põe a bôla e o potinho de manteiga em cima da masseira e vem deitar-te comigo’.
Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na leito, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite; e disse-lhe:
‘Avó, que grandes braços tem!’
‘P para melhor te abraçar, minha filha.’
‘Avó, que grandes pernas tem!’
‘P para decorrer melhor, minha pequena.’
‘Avó, que grandes orelhas tem!’
‘P para escutar melhor, minha pequena.’
‘Avó, que grandes olhos tem!’
‘P para ver melhor, minha pequena.’
‘Avó, que grandes dentes tem!’
‘P para te consumir.’
E, ao expressar estas palavras, o Lobo malvado atirou-se sobre Capuchinho Vermelho e comeu-a.”
Não há final feliz para Chapeuzinho Vermelho no história de Perrault, o próximo da versão medieval – publicado no século XIX, o história dos Grimm receberia novidade categoria suavizadora. A moça é comida pelo Lobo, no que para muitos estudiosos é uma metáfora inequívoca de relação sexual. E a culpa é toda dela. Afinal, em vez de seguir direto da sua lar até a porta da avó, ela parou para conversar com o “compadre Lobo, que tinha muita vontade de comê-la, mas não se atrevia a tal por culpa de alguns lenhadores que estavam na floresta”. E aceitou a sua sugestão para mudar de trajecto, indo sozinha “pelo caminho longo, entretendo-se a colher avelãs, a passar detrás das borboletas e a fazer ramos com as florezinhas que encontrava”, enquanto o Lobo corria pelo trajeto limitado para chegar antes à vovó e tragá-la.
A ingenuidade de Chapeuzinho não tem perdão. Perrault encerra o texto com um parágrafo intitulado “Moralidade”, onde atribui a ela a desculpa de toda a tragédia. “Vê-se cá que crianças jovens, sobretudo moças belas, muito feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o Lobo tantas delas coma. Digo o Lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, sutis, sem fel e sem rancor, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai! Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os perigosos.”
S narrativa hoje espargido dos Grimm é light. “Cento e sessenta anos depois (1857), os irmãos Grimm escreveram uma prolongamento da história que lhe empresta um caráter de narrativa de fadas. Nesta, em seguida Chapeuzinho ter sido devorada, um rachador que estava passando em frente à lar da avó da moçoila escutou o ronco do lobo que dormia de bojo enxurrada. Ele entrou e cortou-lhe a bojo, retirando a avó e a neta vivas de seu ventre”, anotam Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso no livro Fadas no Divã.
A diferença feita pelos alemães é crucial, porque elimina a possibilidade de a repasto do Lobo – quando ele devora Chapeuzinho – ser lida porquê metáfora sexual. S final feliz não tira, mas, a culpa dos ombros da moça. Os Grimm acrescentaram no prelúdios do texto uma recomendação da mãe que fará de Chapeuzinho uma pequena indisciplinado e, porquê tal, passível de penalidade. Depois de pedir que a filha vá à mansão da avó, a mãe recomenda que ela não se desvie do caminho. “Trate de transpor agora mesmo, antes que o sol fique quente demais, e, quando estiver na floresta, olhe para a frente porquê uma boa moçoila e não se desvie do caminho”, diz a mãe. No final da história, mortificada, a pobre Chapeuzinho, que também cá segue o recomendação do Lobo de ir pelo trajeto longo e bonito, se lembra da orientação e diz para si mesma: “Nunca na vida tornarás a transpor do caminho sozinha para entrar no mata depois de a tua mãe o ter proibido”.
Versão adulta – No livro Fadas no Divã, Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso citam uma versão adulta de Chapeuzinho Vermelho que circulava pela Europa do século XIX, pelo menos, e ganhou registro em 1885 na França, mas é pouco conhecida hoje pelos leitores. Batizada de A História da Avó, ela mantém aqueles que seriam os traços pesados das versões orais do narrativa: antropofagia, strip-tease e, é evidente, o estupro.
“Numa edição comentada e ilustrada dos contos de fada, Maria Tatar disponibiliza uma curiosa versão, de feitio idoso, dessa história. Ela foi compilada a partir de narrativas orais na França, em 1885; portanto, quando já existiam disponíveis para o público as versões impressas de Grimm e Perrault. S história labareda-se A História da Avó e tem as características das narrativas folclóricas, não originalmente direcionadas para as crianças. Por isso, não há nele nenhuma mensagem pedagógica subliminar, nem preocupação em suprimir os elementos grotescos.
A História da Avó merece um glosa, pois está fora do padrão habitual. S início é igual, mas sucinto, sem o sermão materno, que está totalmente ausente. S diálogo com o Lobo é breve, somente leste pergunta por onde ela vai e segue o outro caminho correndo para chegar antes. Devora a avó, mas não toda, deixa um pedaço de mesocarpo e uma garrafa de sangue para depois. Quando Chapeuzinho chega, ele pede-lhe para deixar a cesta na despensa e a convida com a mesocarpo e o vinho (ou melhor, o sangue) que estão na prateleira. No fundo da cena, um gato falante comenta que é preciso ser uma porca para consumir da mesocarpo da avó e ingerir o seu sangue. A moçoila não parece dar valia a essa reparo, mas está atenta ao invitação do Lobo para irem para a leito:
‘Tire a roupa, minha filha, e venha para a leito comigo’.”
Fonte: VEJA Meus Livros